A MÃO SANTA DA MONSANTO

Como a Empresa do Ano eleita pela Forbes chegou onde chegou 2009 foi um ano difícil para a economia mundial. A tantas vezes prevista crise do sistema capitalista veio, fez transnacionais tremerem, grandes bancos ruírem, milhões de trabalhadores ficarem sem emprego, mas sumiu assim como veio, de surpresa. Obviamente ela ainda está por aí, seus […]

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Como a Empresa do Ano eleita pela Forbes chegou onde chegou

2009 foi um ano difícil para a economia mundial. A tantas vezes prevista crise do sistema capitalista veio, fez transnacionais tremerem, grandes bancos ruírem, milhões de trabalhadores ficarem sem emprego, mas sumiu assim como veio, de surpresa. Obviamente ela ainda está por aí, seus problemas ainda se fazem sentir e certamente está só esperando para voltar a assombrar o mundo, dos especuladores aos operários.

Mas, enfim, a crise serviu para que todas as transnacionais provassem um pouco de sua falibilidade, não!? Bem, nem todas sentiram esse amargo gosto. Dois setores da indústria se destacaram como os bravos, os fortes, que resistiram à crise de 2009: a indústria bélica e a agroindústria, principalmente o ramo da biotecnologia. Sobre a primeira, nem é preciso tecer comentários, afinal a guerra sempre foi um ótimo negócio. Para sabermos um pouco mais sobre a segunda, nada melhor que pegar como exemplo a maior empresa do gênero, a Monsanto.

Mesmo sendo odiada por muitos, a Monsanto foi apontada pela Forbes, uma das principais revistas de economia do mundo, como a empresa do ano de 2009, por ter saído da crise sem grandes danos. Para não dizer que ela saiu totalmente ilesa, a Monsanto demitiu cerca de 8% de seu pessoal, o que gira em torno de 900 funcionários (um corte de gastos de uma cifra entre 220 e 250 milhões de dólares por ano). É um número bem pequeno, se compararmos, por exemplo, à empresa de tecnologia Sony, que tinha demitido 16.000 funcionários até o dia 9 de dezembro.

Além de ter despedido pouco em relação a outras transnacionais, a Monsanto não teve prejuízo durante o ano. O único ponto em que foi afetada foi um lucro menor do que o esperado. No segmento dos herbicidas, seu carro-forte nos dias atuais, a empresa esperava faturar um bilhão de dólares, porém, coitadinha, faturou no máximo 750 milhões. Tanto sucesso faz a Monsanto valer 44 bilhões de dólares.

Mas qual é a história dessa empresa de tanto sucesso?

Uma questão de química

A Monsanto foi fundada em Saint Louis, Missouri, EUA, no ano de 1901. Seu ramo de atuação era a produção de alimentos e produtos químicos básicos, como ácido sulfúrico. Em 1929 “casou-se” com a Swan Chemical Company, produtora de PCBs (substâncias conhecidas no Brasil como escarel, e que tinham como vantagem o fato de serem estáveis e não-inflamáveis), usado em refrigeradores, transformadores, lubrificantes…  Essa foi a primeira grande compra da Monsanto, que se seguiria de dezenas de outras que englobariam mais áreas de atuação e garantiriam o monopólio sobre o agronegócio.

Durante a Guerra do Vietnã, a Monsanto entrou de cabeça no ramo bélico, sendo a principal fabricante do Agente Laranja, desfolhante jogado de aviões nas florestas vietnamitas para encontrar esconderijos vietcongues. A guerra era lucrativa e o tempo significava dinheiro. Isso fez com que a empresa negligenciasse várias etapas da produção do veneno. A substância chamada TCCD entrou na cadeia alimentar do lugar e, hoje, depois de mais de 35 anos após o fim da guerra, ainda é a grande responsável pelo alto índice de defeitos de nascença no Vietnã. Estima-se que cerca de 150 mil crianças apresentaram problemas por culpa do TCCD. Não é à toa, visto que em 2003 uma análise do solo mostrou que o índice desse veneno nas regiões em que o Agente Laranja havia sido utilizado estava apenas 180 milhões de vezes acima do nível considerado seguro para a saúde humana. Segundo dados apresentados pela Vava (Associação Vietnamita de Vítimas do Agente Laranja), dos 3 milhões habitantes da região expostos ao Agente Laranja, 1 milhão teria apresentado problemas de saúde relacionados à exposição. Não só a população vietnamita foi afetada. Soldados estadunidenses também apresentaram sérias doenças causadas pelo contato com o veneno. Muitas ações milionárias foram movidas contra a Monsanto, e outras empresas produroras, como a Dow Chemicals, porém poucas deram resultado.

Outro caso bem conhecido de desrespeito da Monsanto à vida humana é o da cidade de Anniston, no Alabama, EUA, de cerca de 20.000 habitantes. A fábrica instalada no local por 34 anos despejou lixo tóxico em um córrego e, em conseqüência disso, toda uma cidade foi contaminada com PCBs, substância altamente cancerígena. Estima-se que 450 crianças tenham nascido com doenças motoras cerebrais, e muitas foram as mortes por contaminação por PCB. Depois de entrar na justiça os habitantes ganharam 700 milhões de indenização, montante bem pequeno, se comparado com o lucro anual da empresa. O principal fato que fez com que a Monsanto perdesse a causa foi a descoberta de que há muito tempo ela sabia dos perigos que seu lixo tóxico oferecia. A própria empresa havia realizado um teste, colocando peixes no córrego, e em menos de três minutos todos morreram.

Esse e outros fatos são muito bem explorados no documentário “O mundo segundo a Monsanto”, da jornalista francesa Marie-Monique Robin. Há também o livro de mesmo nome, e ambos são recheados de várias entrevistas com pessoas diretamente ligadas à Monsanto e aos órgãos públicos dos EUA que aprovaram produtos de segurança duvidosa, além de cientistas, políticos e pessoas afetadas pela empresa.

Em 1981 a Monsanto começou as pesquisas de culturas biotecnológicas, impulsionado pela aprovação, nos EUA, dos estudos sobre a insulina recombinante. Seria o início da era dos Organismos Geneticamente Modificados, os transgênicos.

A semente do problema: uma questão de princípios

Os primeiros transgênicos foram criados pela Monsanto e hoje ela é detentora de 70 a 100% da produção de várias culturas transgênicas, sendo as principais a soja, o milho e o algodão.

O objetivo, segundo a Monsanto, é produzir cada vez mais alimento utilizando o mesmo espaço, sendo esses resistentes aos insetos, às ervas daninhas, à seca, e aos outros problemas com os quais os agricultores orgânicos tanto se preocupam.

(A Monsanto parece ignorar que a fome não provém da falta de alimentos no mundo. Há alimentos para toda a população mundial, porém eles são mal distribuídos, assim como o capital.)

A principal tecnologia desenvolvida pela empresa é o Roundup Ready, aplicado nas sementes de soja. A Monsanto combinou o código genético da semente com o de uma bactéria resistente ao glifosato e, com isso, tornou a soja imune ao fortíssimo herbicida Roundup. Com isso morrem todas as ervas daninhas e a soja fica, linda, bela e… saudável?

Quanto a esse último ponto ainda existem duvidas. Na verdade tudo é uma questão de princípios. O Princípio da Equivalência de Substâncias contra o Princípio da Precaução.

É bem simples: os cientistas favoráveis aos transgênicos afirmam que há uma semelhança enorme entre a soja orgânica e a transgênica. Elas seriam “virtualmente semelhantes”. Foi esse o princípio usado para justificar a regulação dos OGMs em todo mundo, começando, é claro, pelos EUA. Um fato bastante curioso nesse caso é Michael Taylor, elaborador da regulamentação dos produtos geneticamente modificados no órgão que controla os alimentos e os produtos farmacêuticos dos EUA (o FDA), fora vice-presidente da Monsanto.

O outro Princípio, o da Precaução, é o que move todos aqueles que questionam os transgênicos: Não há certeza científica de que os OGMs apresentem total segurança aos seus consumidores, logo, eles não devem ser comercializados. Há cientistas que apontam que os transgênicos podem ser cancerígenos, pois os genes modificados na soja influenciariam na divisão de determinadas células no corpo humano, e células se dividindo fora do normal geralmente significam uma coisa: câncer.

O Jardineiro Fiel (ao Roundup)

Ainda há dúvidas se as gerações posteriores à da soja manipulada não se modificaria naturalmente, criando uma nova que fugisse ao controle, ou se a soja não poderia vir a se misturar com outra planta, criando uma nova espécie, também imune ao Roundup. Isso ocorreu nos EUA, quando o gene modificado da soja passou para a planta conhecida como amaranto, que também se tornou resistente ao Roundup. O curioso nesse caso é que o amaranto é comestível e estava ocupando o lugar da soja. Além disso a planta é resistente à vários tipos de clima (seca, clima tropical, monsões), não tem problemas com insetos ou doenças, se reproduz rapidamente e é rico em sais minerais e vitaminas. Seria a natureza se opondo à grande transnacional e provendo alimentos naturalmente para a fome mundial. A “praga” porém foi extinta com um Roundup mais forte, e assim como o amaranto outras plantas foram se adaptando e sendo exterminadas com aplicações do herbicida, que foi ficando mais forte (e mais caro) com o passar do tempo.

Não é à toa que a Monsanto ganhou o prêmio de empresa do ano, pela Forbes. Ela tem um grande faro comercial. Após o caso, a transnacional usou a desculpa de que as plantas não poderia ter gerações posteriores fora de controle para criar a tecnologia Terminator, de sementes inférteis, que só produzem uma vez. Com isso o agricultor torna-se escravo da empresa, pois toda nova safra precisa comprar sementes novas, visto que as plantas não se reproduzem naturalmente para uma safra posterior.

A Monsanto afirma que o Roundup é totalmente seguro, podendo ser utilizados até para jardinagem. Isso é questionável, se pensarmos que na Argentina culpam-se as aplicações do herbicida nas grandes lavouras feitas por aviões pelo aumento de casos de câncer nos cinturões urbanos. O veneno respingaria nas pessoas da periferia. Além disso, o Roundup não é biodegradável, ao contrário do que diziam embalagens antigas do produto. Em 28 dias na natureza, apenas 2% do produto é absorvido.

Os testes talvez sejam a questão mais problemática da produção da Monsanto. Os que foram negligenciados com o Agente Laranja, durante a guerra do Vietnã, os testes que comprovavam a toxidade do seu lixo em Anniston, e que a empresa nada fez para evitar a tragédia que se sucedeu, e o caso da soja na África.

Quem teve a oportunidade de assistir ao filme “O Jardineiro Fiel”, de Fernando Meirelles, deve lembrar que a trama gira em torno de grandes empresas farmacêuticas que mandavam produtos sem testes para a África, usando a população carente do lugar como cobaia. Segundo acusações não confirmadas, a Monsanto estaria fazendo isso com a soja que mandava para Zâmbia e Zimbábue, países que por causa dessas suspeita passaram a negar ajuda humanitária dos EUA.

Beba (Roundup) com moderação

A influência da Monsanto é internacionalmente conhecida. Por exemplo, a empresa tinha ligação direta com o gabinete do ex-presidente dos EUA, Bill Clinton, e com o ex-primeiro-ministro da Inglaterra, Tony Blair.

Nesses países, tal influência fez-se sentir na aprovação de leis que beneficiaram os latifundiários consumidores do Roundup e da soja transgênica infértil. Também direcionou as pesquisas feitas por órgãos governamentais, influenciando até nos seus resultados. Esse fato é bem explorado no documentário “O Mundo segundo a Monsanto”. Em 2008 a revista Business Week elegeu a Monsanto como uma das 10 empresas mais influentes do mundo, juntamente com a Wal-Mart, a Toyota, a Unilever, a Microsoft, entre outros. Falando em revistas, por dez anos consecutivos a Monsanto apareceu na lista das melhores empresas pra se trabalhar no Brasil da revista “Época”, “Você S/A” e “Exame”.

No Brasil, a influência da Monsanto também é muito forte. Antes de termos a Lei de Cultivares, que regula o plantio de Organismos Geneticamente Modificados, entrava soja transgênica ilegalmente da Argentina, um dos primeiros países a aprovar o plantio. Era a conhecida “soja Maradona”. Usando a desculpa de que já que já estavam sendo plantados, os transgênicos deveriam ser legalizados, a Monsanto e os agricultores apressaram a aprovação da lei. Hoje teme-se o plantio ilegal do milho transgênico, que está chegando com força no país e que, se escapar dos olhos da lei, pode vir a ser vendido como orgânico.

Ao mesmo tempo que influencia o comércio de transgênicos, a empresa investe em projetos socioambientais  (esse posicionamento não lembra as mensagens de “Beba com Moderação”, em propagandas de cerveja?). Em 2009 foram mais de 9,4 milhões de reais investidos no Brasil na ajuda das comunidades carentes das regiões próximas às dezenas de fábricas espalhadas pelo Brasil. Talvez seja uma tentativa de melhorar por aqui a imagem da marca.

Mas será que a ajuda que a Monsanto dá, por um lado, a determinadas populações é proporcional à quantidade de empregos que ela tira do outro? Pensemos no fato de que a tecnologia da Roundup Ultra é cara demais para ser usada por qualquer pequeno agricultor e que qualquer coisa que for plantada nos arredores de uma plantação de soja transgênica provavelmente não sobreviverá aos respingos do herbicida jogado dos aviões. Então que chance têm as pequenas plantações ao redor dos grandes latifundios de transgênicos, se não serem englobadas por estes? Ainda no documentário de Marie-Monique Robin, são narradas histórias de pequenos agricultores indianos que, após a tecnologia Roundup, afundaram-se em dívidas, o que motivou uma grande onda de suicídios no local (muitos deles através da ingestão do próprio herbicida).

E esse foi um pouco da Monsanto, a grande vencedora de empresa do ano de 2009 pela Forbes. Um vídeo publicitário da empresa diz o seguinte: “Imagine um mundo que preserve a natureza, o ar, os rios, onde a gente possa produzir mais, com menos agrotóxicos, sem desmatar as florestas. Imagine um mundo com mais alimentos, e os alimentos mais nutritivos, e as pessoas com mais saúde. Já pensou? Ah, mas você nunca imaginou que os transgênicos podem ajudar a gente nisso. Você já pensou num mundo melhor? Você pensa como a gente.”

Agora imagine se esse discurso fosse de verdade!

A MÃO SANTA DA MONSANTO,, pelo viés de Felipe Severo

felipesevero@revistaovies.com

Para ler mais artigos acesse nosso Acervo.

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  • Rondon de Castro

    Caro Felipe, bom texto, mas e as fontes que consultou? É necessário expor o material para que não pareça a compilação de dados, ou melhor, uma “cozinha” de um outro texto.

    • http://testeovies.wordpress.com revistaovies

      Realmente eu havia esquecido de citar as fontes, professor.
      As principais foram: a dissertação “Marx visita a Monsanto”, de Camila Moreno, da UFRRJ; O documentário “O mundo segundo a Monsanto”, de Marie-Monique Robin; os dados financeiros foram retirados do próprio site da empresa e de pesquisas em matérias dos últimos dois anos das revistas “Forber”, “Você S/A”, “Exame” e “Época”, disponíveis na internet.

      Felipe

  • Arthur

    Muito interessante a reportagem. Muito grato por vc expor a verdade acerca dessa empresa. Eu gostaria de saber se é possível obter uma lista de empresas brasileiras que usam produtos monsanto e, também, as ligadas à ela. Grato

  • Bruna Richa Farah Pratti

    Excelente texto! Sem mais!

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  • Agricultor Feliz!!!!

    Ridículo esse artigo….. é de suma sapiência que os
    defensivos agrícolas poluem e fazem mal ao meio….
    só que este que tanto levantam bandeira em prol ao meio
    esquecem de um mero detalhe…..
    Tentem produzir em grande escala algum dos cereais hj mais
    consumidos pelo homem sem o uso de defensivo agrícola…
    ante de falar qualquer coisa sobre empresas e pesquisadores que
    gastam tempo e dinheiro em pesquisas !!!!!

    • Zevito

      O agricultor feliz está correto num ponto: de fato, para mantermos este modelo de produção agrícola intensivo hoje dominante é imprescindível o uso de agrotóxicos (“defensivos agrícolas” no eufemismo por ele utilizado). A questão é justamente esta: é preciso mudar radicalmente este modelo o quanto antes. Um sistema de produção agrícola que depende do uso exaustivo de fertilizantes não renováveis e agrotóxicos é insustentável.

  • pastorwjoliveira

    Eu me interessei muito neste assunto, em que envolve; modificações daquilo que é natural, e que Deus criou com perfeição; uma cadeia alimentar não deveria ser interrompida; O desmatamento favorece para este mal, nossos alimentos não são mais natural, nem a agua nem o ar, devemos pensar mais; em uma maneira de preservar o pouco que temos de natural;
    todos nós deveria-mos estar unidos, nesse sentido , eu creio que existem meios , que podemos em todas as camadas sociais fazer para ajudar; somente é preciso deixar de lado; o egoísmo, a ganância , e amolecer mais o coração para o lado humano; isso agrada ao Senhor Deus o Criador , porque ele não deixa de recompensar ninguém que ama uns aos outros como como a si mesmo.

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  • Boicote a monsatanas

    A monsanto e uma companhia diabolica que pertence a judeus zionistas que infiltraram os nossos paises porque nos acreditamos nas suas mentiras quando em facto eles sao os que roubam exploram e abusam outras pessoas, nos nossos paises, agoram estao tentando envenenar-nos com a porcaria cheia de produtos quimicos que causam tumores, cancer e muito mais doencas. Eu quero esses demonios fora do meu Portugal AGORA