TECNOFOBIA E CINEMA

Corram que as máquinas vêm aí! O medo é o momento em que o humano é mais animal, pois tende a ser totalmente instintivo! O medo não é apenas mental, é físico! A adrenalina corre pelo nosso sangue, as pupilas dilatam, o coração acelera, o sangue abandona as periferias do corpo – nos deixando pálidos […]

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Corram que as máquinas vêm aí!

O medo é o momento em que o humano é mais animal, pois tende a ser totalmente instintivo! O medo não é apenas mental, é físico! A adrenalina corre pelo nosso sangue, as pupilas dilatam, o coração acelera, o sangue abandona as periferias do corpo – nos deixando pálidos – e se concentra principalmente nos nossos membros, para que possamos reagir, se possível e necessário. O medo faz com que nos sintamos vivos. Depois que ele passa, o corpo libera endorfinas e o alívio físico é quase imediato. A mesma sensação é parecida com a que temos quando comemos algo gostoso ou quando praticamos sexo.

Talvez por isso nós mesmos vamos atrás dessa sensação, procurando a angústia e o medo no cinema e na literatura. São milhares de obras que reúnem todos os temores que a humanidade possa ter. Medo de desconhecidos e de conhecidos, do sobrenatural e do humano, da morte e da vida. Medo, medo, medo…

Porém nem sempre essa sensação é divertida. Quando começa a causar sofrimento psíquico e passa a comprometer o dia-a-dia e as relações sociais, fica conhecida como “fobia”.  Inúmeras são as fobias e cada um tem a(s) sua(s). Há desde as fobias mais comuns, como a acrofobia (altura), nictofobia (escuro), glossofobia (falar em público), até as muito específicas, como a pteronofobia (medo de receber cócegas com uma pena) e a anatidaefobia (medo de ser observado por patos). As fobias podem parecer engraçadas para quem não as sente, mas não são, pois necessitam de tratamentos psicológicos longos e difíceis.

Talvez as mais notáveis fobias sejam as coletivas, que geram histeria em uma sociedade, como ocorria com o medo das pestes na Idade Média e com o da gripe H1N1, do ano passado. A atenção de toda uma população volta-se para a iminência de uma grande tragédia, do caos…

A virada para o ano 2000 foi uma mostra em grande proporção de até que ponto as fobias podem levar. Além das previsões de que o mundo iria acabar – o que acarretou até suicídios coletivos -, surgiu o medo de que os computadores da época, que guardavam o ano apenas com os dois últimos dígitos, interpretassem o 00 como uma volta ao ano de 1900, apagando assim todos os seus dados. A mídia falou exaustivamente disso, e algumas famílias até estocaram comida para o caso da catástrofe que, felizmente, nunca ocorreu. Foi um medo sem justificativa, mas que trouxe à tona uma outra fobia social: a tecnofobia, o pânico de não ter controle sobre as máquinas e computadores que o próprio homem criou, ou de que elas se tornem mais inteligentes que seus criadores. Para isso basta lembrar o desconcerto que houve quando o computador Deep Blue ganhou no xadrez do campeão mundial humano, Garry Kasparov, em 1998.

Um exemplo mais recente da tecnofobia coletiva ocorreu em 2008, quando o LHC, o maior colisor de partículas do mundo, estava para ser ligado. O objetivo do estudo dos físicos era descobrir mais sobre o Big Bang, o início do universo, mas estudiosos levantaram a hipótese de que a experiência poderia criar um buraco-negro que acabaria engolindo a Terra. Isso, aliado ao best-seller “Anjos e Demônios”, de Dan Brown (que criou o temor de que “antimatéria”, resultado da colisão, fosse usado para o mal) criou um medo por todo o mundo. O LHC foi ligado e nada aconteceu com nosso planeta.

O grande alcance do livro supracitado foi o principal motivador desse novo caso de tecnofobia coletiva. Mas como se dá a relação da ficção com esse medo, em particular? Vamos tentar entender isso através do cinema, a arte de maior alcance e apelo popular do mundo.

“…Ou como eu Comecei a me Preocupar e a Odiar a Bomba”

Charlie Chaplin, gênio do cinema mudo, foi um dos primeiros a mostrar com olhar crítico a relação entre humanos e máquinas, em seu clássico de 1936 “Tempos Modernos”. No filme, o personagem Carlitos tenta, em vão, se adaptar a uma sociedade em industrialização e urbanização. Nesse filme estão muitos dos medos da época: o homem sendo substituído pelas máquinas, fazendo trabalhos repetitivos, tolhido de sua capacidade de pensar em sua própria situação. São quase como ovelhas se dirigindo ao matadouro, como uma cena do próprio filme sugere. O ponto principal da obra, porém, não é o avanço tecnológico, mas sim o regresso da condição de humano, subjugado pelo próprio humano.

O medo da tecnologia em si surgiu em 1945, com o lançamento da bomba atômica Little Boy sobre a cidade japonesa de Hiroshima. Foi o fim da visão inocente de que todo o avanço tecnológico vinha para o bem. O homem foi obrigado a reconhecer que a tecnologia, se mal utilizada, poderia ser usada para acabar com a humanidade. O medo só fez aumentar quando começou a Guerra Fria entre EUA e URSS, e surgiu a possibilidade de uma guerra nuclear. 515 cientistas estadunidenses da época criaram um movimento que pregava um controle internacional da proliferação de armas atômicas (questão que gera polêmica até hoje, vide o caso atual do Irã, que é acusado de estar enriquecendo urânio para esse fim, embora ainda não tenha condições para fazer isso), prevendo que outros países poderiam obter a tecnologia, o que tornaria possível uma guerra entre nações e acabar com grande parcela da humanidade. O Movimento dos Cientistas, como ficou conhecido, pretendia mobilizar a sociedade do país em prol da causa, alertando em diversos meios de comunicação sobre os riscos de uma hecatombe nuclear.

Stanley Kubrick, um dos maiores gênios da sétima arte, teve a coragem de transformar o pânico generalizado numa das comédias mais inteligentes já feitas. “Dr. Fantástico ou como parei de me preocupar e amar a bomba” (1967) traz o incrível comediante Peter Sellers em quatro personagens, entre eles o Dr. Fantástico do título, ex-cientista nazista que revela a todos a existência da “Máquina do fim do Mundo”, um dispositivo capaz de liberar vários ataques nucleares pelo mundo, caso uma das potências fossem atacadas.

O mundo tinha muito que temer durante a Guerra Fria, e o cinema usou-se disso. Além do auge de filmes a la James Bond, em que homens gananciosos e/ou loucos obtinham tecnologias perigosíssimas, surgiram filmes de um gênero cada vez mais em alta: a Ficção Científica. Os EUA produziram dezenas de filmes sobre invasões alienígenas, como “O dia em que a terra parou” (1950), que nada mais eram do que a representação do medo estadunidense de invasões soviéticas.

Kubrick resolveu se embrenhar no ramo da ficção científica em 1968, quando, antes mesmo do homem pisar na lua, criou uma das maiores obras que o cinema já viu: “2001 – Uma Odisséia no Espaço”. Esse filme assusta e encanta até hoje por vários motivos. Um deles é que ele não foi ingênuo ao pensar em como seriam as tecnologias do futuro, chegando bem próximo de como elas realmente se tornaram, ao contrário do que aconteceu com muitos outros filmes de ficção que ficaram ultrapassados, como “Blade Runner” (1986), em os homens convivem com andróides, carros voadores e telas de computador monocromáticas.

A nave espacial Discovery, de “2001”, que vai rumo à Júpiter investigar um estranho monólito que estaria relacionado ao avanço da própria humanidade, é plausível até os dias atuais. O grande personagem do filme é o avançado computador HAL 9000, capaz de tomar decisões fundamentais para a missão, e que ao sentí-la ameaçada pelos humanos tripulantes da nave, começa a matá-los, um a um. O computador torna-se assustador ao ponto que passamos a reconhecer nele os piores defeitos humanos: ele pode ser mentiroso, insano e mau!

“Mais humanos que os humanos”

HAL 9000 não foi programado para ter sentimentos, mas para surpresa de todos, começou a tê-los (ou pelo menos aparentar). Outras inteligências artificiais do cinema apresentaram o mesmo “defeito”, alguns para o bem, outros para o mal: o que falar dos computadores Red Queen, de “Resident Evil” (2002), todos os robôs de “Wall-E” (2008) e Vicky, de “Eu, Robô” (2004), ou então do andróide Andrew, interpretado por Robin Willians, em “O Homem Bicentenário” (1999)?

Um dos maiores filmes que questiona até que ponto as máquinas irão avançar e se elas chegarão um dia a desenvolver sentimentos é “Blade Runner” (1982), clássico de Ridley Scott. Neles somos apresentados aos “replicantes”, andróides com mais força e no mínimo com a mesma inteligência que os humanos que os criaram, usados para missões arriscadas em outros planetas, no ano de 2019. Seis replicantes criam uma violenta revolta (a criatura contra o seu criador) e por isso começam a serem caçados por um “blade runner”, um caçador de andróides. Esse filme é um marco no sub-gênero cyberpunk, uma mistura de alta tecnologia com um futuro totalmente distópico (leia mais sobre Distopia clicando aqui)

Roy Batty, o líder dos replicantes revoltosos, procura seu criador, Tyrel, para que ele altere sua programação, que lhe dá um “prazo de validade” de quatro anos, a última das barreiras que falta ultrapassar para que o andróide se torne um homem. O criador então lhe responde que “A luz que brilha o dobro arde a metade do tempo.”. Como assim? Será que com isso ele queria dizer que os replicantes deveriam viver menos por terem mais humanidade que os próprios humanos?

Roy Batty, o Spartacus cyberpunk, não foi programado para amar, ter medo ou ser imprevisível, mas acabou fazendo tudo isso. Diferente de David, de “A.I. – Inteligência Artificial”, a simpática criança criada em laboratório que é programada para amar seus pais incondicionalmente. Durante toda a jornada que atravessará, como se fosse o Pinóquio moderno, David acabará se mostrando muito mais humano que os próprios, tanto que no final não ficamos nada tristes ao saber que nossa raça foi extinta. Esse filme foi idéia, mais uma vez, de Stanley Kubrick, e só ficou pronto após sua morte, com a direção certeira de Steven Spielberg.

Não é estranho vermos tantos filmes sobre robôs quase-humanos, capazes de terem sentimento, em uma época em que já existem robôs que nos ensinam a sorrir? Não sabia? Veja o vídeo abaixo.

“Bem-vindo à Matrix”

Talvez o filme mais ousado ao falar do confronto entre homens e máquinas tenha sido “Matrix”, dos irmãos Wachowski. Nesse filme, nós não seremos dominado pelas máquinas.. Já somos! Só não sabemos, porque vivemos em um mundo virtual chamado Matrix. O mundo estaria no ano de 2199, e nós, humanos estaríamos presos a cadeiras, servindo de fonte de energia para as máquinas que nos dominaram, sem imaginar que tudo que vivemos não passa de uma realidade virtual.

Na história, algumas pessoas escapam de Matrix e começam a lutar contra as máquinas. Entre essas pessoas está Mr. Anderson, um hacker que será revelado como o Escolhido. “Matrix” chama atenção, primeiramente, pelas imagens. As cenas de luta são incríveis, além de trazer um visual totalmente revolucionário, um novo cyberpunk. Mas esse é um filme que também traz uma mensagem. Sem perceber, os espectadores são levados a torcer para um terrorista (esse é o termo, por que não!?). Neo, como Mr. Anderson ficará conhecido, será capaz de qualquer sacrifício para abalar a ordem vigente, acabar com a dominação e dar liberdade para seu povo. Neo seria um Messias pós-moderno da ficção. “Matrix” trata de temas como religião, niilismo e tecnologia de uma forma nova, tornando impossível não temer pelo futuro da humanidade, após assisti-lo, afinal viver em um mundo completamente virtual não parece muito promissor.

O cinema estrangeiro tem uma grande tradição em filmes sobre o confronto entre homem e máquina. Além dos que já foram citados, podemos falar de outros que também trazem os perigos do avanço tecnológico: “Metropólis” (1927), “O Exterminador do Futuro” (1984), “Alien – o oitavo passageiro” (1992), “Alphaville” (1965), “Os Substitutos” (2009), “Johnny Mnemonic” (1995), “O Homem Duplo” (2006), etc…

Certamente as tecnologias criadas pelos homens continuarão ameaçando a humanidade, seja por fugirem ao controle ou por seu mau uso, mesmo… pelo menos no cinema!

Continuaremos com medo das guerras tecnológicas, da substituição (tanto física quanto intelectual) do homem pela máquina, e de uma futura e catastrófica rebelião da criatura contra o seu criador, e o cinema continuará expondo nossos temores e ainda aumentando-os, mostrando um futuro bem pior do que poderíamos imaginar. Mas torçamos que o fim do mundo fique sempre apenas na ficção.

TECNOFOBIA E CINEMA, pelo viés de Felipe Severo

felipesevero@revistaovies.com

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