AS DIRETRIZES DA CLASSE

A greve dos professores em São Paulo e no Rio Grande do Sul O atual governador de São Paulo, José Serra, agora um assumido candidato ao cargo de presidente da República,  enfrentou um impasse já de cara. Como ele e a ministra Dilma Roussef (visivelmente  a preferida do atual presidente Lula) estão em uma corrida […]

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A greve dos professores em São Paulo e no Rio Grande do Sul

O atual governador de São Paulo, José Serra, agora um assumido candidato ao cargo de presidente da República,  enfrentou um impasse já de cara. Como ele e a ministra Dilma Roussef (visivelmente  a preferida do atual presidente Lula) estão em uma corrida presidencial maluca (isso mesmo, corrida maluca), em que vale até inauguração de maquete ou de obras inacabadas, não poderia deixar nada passar em branco:  Serra visitou uma escolinha em Francisco Morato, na grande São Paulo, conforme diz a edição da revista IstoÉ desta semana.

E lá estavam os professores o esperando pacientemente. Aliás, a classe está de greve desde o dia cinco deste mês, quando se iniciaram as primeiras manifestações em prol do aumento do piso salarial. O aumento cabe para 1,5 mil e, em diversos lugares do país, os professores foram às ruas para pedir pelos seus direitos. Discutida no dia 5 de março e efetivada no dia 8, a greve começou e não tem data para acabar definitivamente.

E, no caso da escolinha em Francisco Morato, os professores estavam organizados pela Apeospe (Sindicato Oficial do Estado de São Paulo). O sindicato defende aumento salarial de 34% e afirma que os salários dos professores estão congelados há quase cinco anos.

A proposta é a do reajuste, a fim de que os professores não paralisem as aulas nas redes estaduais. É visível (e talvez justo) que os professores se mantenham contra José Serra, uma vez que os mandes e desmandes do governo alegam que as greves são apenas pretextos para politicagem e defendem que a classe não tem a intenção de melhorar o ensino público. Em carta no site da Apeospe, o sindicato explica e divulga aos pais e aos alunos os motivos da greve.

De acordo com a revista, o governador foi recebido com vaias, ovos e musiquinhas de deboche, coisas como “Dilma presidente”. E rebateu. Disse que a greve é coisa de markenting mesmo, estofo para a imprensa ter o que noticiar… O incidente fez Serra até mudar os rumos de sua agenda, procurando fugir dos professores manifestantes.

Em São Paulo, os números apontam para uma das maiores manifestações da classe, juntando mais de 60 mil professores e simpatizantes no último dia 19. O Ministério Público do Estado tentou coibir. Alegou que o número de participantes impediria o possível trânsito na Avenida Paulista. Porém, após entrar na Justiça, o Ministério teve que engolir o sapo. E bem como já foi dito, a manifestação foi imensa.

Para a mídia, os professores estão nessa apenas por questões políticas. Alguns veículos afirmam: “entidade de caráter petista” ou mesmo “simpatizante do PT”. Essa já “seria” a principal alegação de Serra e de seu secretário Paulo Renato Souza, que afirma ser a greve um “trololó” eleitoral (vide o conflito entre PT e PSDB na corrida maluca eleitoral). De fato, a Apeospe é ligada à Central Única dos Trabalhadores (a CUT), entidade ligada ao PT. Porém, o que se prova?

No dia cinco, a Secretaria Estadual de Educação divulgou uma nota em que afirma que a decisão da greve é política e que a discussão que passa pela assembleia não visa à melhoria da educação no Estado. Ainda confirma que a maioria dos professores não vai aderir à greve, pois ela só prejudicaria o ensino, sem melhorias diretas. O secretário de Educação do estado, Paulo Renato Souza, declarou ao jornal Estadão que a ideia é iminentemente eleitoral – e apenas isso.

Já a presidente da Apeospe, Maria Izabel Noronha, discorda veementemente, injuriando a não adesão à greve. De fato, não podemos dizer que o lado seja apolítico. Porque, aliás, não deve ser. Como diz a própria Maria Izabel: “se eles estão do ‘lado’ de alguém, esse alguém é o magistério”.

Os números não são bem exatos quanto ao número de professores que participaram das paralisações. Alguns dizem ser de 60 a 80 por cento e a Secretaria afirma não passar do um por cento. E a dúvida permanece.

A Apeospe fez até mesmo uma monção de apoio à reivindicação, disponibilizada no site.

E o site também mantém uma espécie de ‘arquivo’ eletrônico, um clipping, sobre as greves e demais assuntos de interesse da greve em todo o país. Além do reajuste do piso salarial dos professores, as manifestações também pedem por plano de carreira, incorporações de gratificações que cheguem também aos aposentados, a garantia de emprego, fim das avaliações para temporários e a realização de concurso público para efetivação de docentes.

As próximas manifestações ocorrerão no dia 26 de março, diante do Palácio do Governo, na região do Morumbi (zona sul). A intenção é continuar pressionando, ainda mais após o governo assumir o corte no salário daqueles que participam das greves. Maria Izabel afirma que, até o momento, foi o Estado quem não quis negociar.

O mesmo afirma o presidente do CPP (Centro do Professorado Paulista), José Maria Cancelliero, alegando que já foram feitas tentativas ano passado, dentre elas cerca de cinco reuniões para a discussão do piso. Todas foram protocoladas pela Secretaria de Educação.

Podemos conferir um pouco mais de perto a discussão pelo twitter. Em prol da greve, professores criaram o @Greve_Professor. Alguns atacam a grande mídia, que, aos olhos da classe, parece apoiar (e querer manter) Serra no poder: “Debater a Educação sem debater a mídia é debate incompleto. Educar é tarefa de todos. Não podemos deixar os prof. sozinhos como únicos responsáveis”, afirmam em um de seus tweets.

José Serra, em seu twitter apenas rebateu com um muxoxo: “Quinta-feira (agora, dia 25), o governo de SP deposita, além do salário, um total de R$ 655 milhões nas contas de 210 mil profissionais da educação.” É esperar para ver…

A rede de professores em São Paulo conta com mais de 220 mil membros e cerca de 5 milhões de alunos.

O Caso Gaúcho

No Rio Grande do Sul, o site oficial do CPERS já anuncia: nesta quarta-feira, dia 24, todos estão intimados a comparecer a uma vigília pelo aumento do piso salarial. O sindicato exige: reajuste emergencial de mais de 23% e a implementação do piso salarial de mil e trezentos reais, mantendo os atuais planos de carreira.

O ato está previsto para acontecer na Praça Matriz, onde os professores poderão conversar com deputados estaduais. De acordo com a assessoria de comunicação do sindicato, no site oficial, é o momento também para a categoria se utilizar de todos os meios de comunicação e de partidos políticos para denunciar a atual situação da classe.

O CPERS (Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul – Sindicato dos Trabalhadores em Educação) foi fundado em abril de 1945. Assim como a Apeospe, o CPERS é ligado à CUT e à CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação).

Em assembleia no dia 19 de março, a reclamação foi mantida: reajuste de 23%. Protestos e paralisações ocorrem em frente ao Palácio Piratini, sede do governo gaúcho. A governadora Yeda Crusius não quis conversar com o CPERS – aliás, acredito que ela evite ao máximo o contato com o sindicato desde o incidente do ano passado – e enviou o secretário Otomar Vivian (da Casa Civil), que tentou negociar. Mas o pé ficou bem fincado no chão e os professores não quiseram saber de conversa. Aliás, até usaram o site oficial para afirmar que “daqui não saio, daqui ninguém me tira”.

Do incidente, surgiu a ideia de realizar um calendário de mobilizações. A partir dessa quarta, iniciam-se as atividades. Os professores estão enviando por e-mail suas propostas e suas reivindicações aos deputados e aos pais e aos alunos que tenham acesso.

O histórico de Yeda Crusius com os professores não é mesmo dos melhores. Yeda já enfrentou outras paralisações da categoria. No ano de 2008, Yeda entrou na assembleia com um projeto de lei que “congelaria” os salários dos professores, em uma medida não muito distinta da medida federal. Os professores realizaram greves e o CPERS pediu ajuda aos deputados. Yeda tentou discutir, até mesmo ameaçando cortar o dinheiro de quem “não fosse trabalhar”. A greve acabou no final de novembro de 2008.

Em julho de 2009, o CPERS realizou uma manifestação em frente à casa de Yeda, pedindo a saída da governadora do cargo. A manifestação gerou opiniões controversas, uma vez que Rejane de Oliveira (presidente do CPERS) foi presa após a manifestação. Para Yeda, a sindicalista foi bruta e desrespeitou a propriedade da governadora. Para Rejane, a repressão do governo pelo ato é que foi desrespeitosa, pois, mesmo protestando em frente à casa de Yeda, a intenção era apenas a de ser ouvida. Em frente ao Palácio Piratini, as coisas pareciam não mais funcionar no grito…

Esse ano, a manifestação do CPERS e dos professores é quase a mesma de 2008. A governadora Yeda quer lavar as mãos e deixar que a Assembleia decida pelo piso salarial (que atualmente é de 862 reais). A proposta é aumentar para 1,5 mil reais, mas o sindicato afirma ser uma arapuca.

Afinal, em ano de eleição, o que foge da politicagem? Assumir uma posição é ser politiqueiro? É perigoso manter-se em cima do muro em ano que todos querem mudança (sabendo, ou não, que as coisas não são assim tão simples). Mas estamos aí para exigir: o histórico de greves dos professores não mente.

Aliás, greve é direito. É o momento de mostrar o que anda errado, o que precisa ser mudado. Renovam-se os candidatos ao Planalto, é o momento de se renovarem as ideias, os projetos e os planos.

AS DIRETRIZES DA CLASSE, pelo viés de Nathália Costa.

nathaliacosta@revistaovies.com

Para ler mais artigos acesse nosso Acervo.

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  • Yuri Lima

    É por essas e outras que a política é encarada com descrédito pela maiora dos jovens. Quando alguma reivindicação de cunho social (por tanto, inevitavelmente envolvendo política e poder) é feita, o debate é minimizado por acusações mundanas, burocratizando qualquer solução para o problema.
    Ademais, sendo ou não com interesses politiqueiros, a educação sempre deve ser bandeira de luta no nosso país. Os números (e o que é pior, o reflexo social) da defasagem educadional saltam aos olhos. Assim, precarizar ou deixar de investir na educação com a justificativa de politicagem é, no menor dos casos, politicagem pura.

  • Roberto

    Muito bom o artigo, Serra consegue ser tão ou mais truculento que YEDA… Enquanto isso quem perde é a população que já tem um ensino em condições precárias.

  • http://www.valdecyalves.blogspot.com Valdecy Alves

    Olá!

    Amigo blogueiro, veja matéria e fotos sobre a manifestação dos professores de todos os municípios do Ceará, nas ruas de Fortaleza, pelo piso e por um plano de carreira decente, ////acessar em: http://www.valdecyalves.blogspot.com

    Pra vc o soneto da infidelidade ao professor, que fiz parodiando Vinicius de Moraes:

    A todo professor sou desatento
    Sempre, com zelo tal e tanto e tanto
    Pois educar é o meu desencanto
    Extinguir professor: meu pensamento!

    Perseguirei a cada vão momento
    Esteja onde estiver, qual seja o canto
    Levarei cada um ao pior do pranto
    Ao pior pesar, nenhum contentamento!

    E assim mais tarde, quando me procure
    Atrás do piso, dor de quem ensina
    Da valorização que vou negar-te!

    Do FUNDEB direi quanto à propina
    Desvio não o total, posto que é parte
    De toda corrupção, que sempre dure!