O PREÇO FILOSÓFICO DO NOVO ATEISMO¹

Uma geração de novos ateus se preocupa agora em refutar as supostas provas da existência de Deus. Dizem eles sobre as provas que, ou suas premissas simplesmente não sustentam a conclusão buscada, ou envolvem teses que são incompatíveis com frases científicas suficientemente demonstradas. Em resumo, uma boa educação lógica seria suficiente para fazer notar a fraqueza de qualquer prova da existência.  Disso se segue o dever de adotar a dúvida total – não se deve opinar sobre o que não se pode argumentar.

Resta à religião ser algo como uma doutrina de segunda linha, sem direito a dar opiniões.

Como ateu, não me sinto representado por esses porta-vozes do ateísmo. Apesar da sofisticação lógica que possam ter (e alguns, de fato, a tem), esses indivíduos pagam um preço filosófico que me parece muito caro para defenderem o que defendem.

Provar a existência de Deus é uma preocupação medieval, e foi a filosofia moderna quem produziu as melhores análises críticas dessas provas. Kant - considerado por muitos de seus primeiros comentadores como o destruidor da teologia racional (parte da metafísica que se preocupa exatamente com as questões da existência de Deus) - é, nesse quesito, provavelmente, o mais digno de nota. Principalmente porque, ao contrário dos novos ateus, as razões de sua análise não são somente lógicas, mas também filosóficas. Vejamos rapidamente a caracterização que Kant faz dessas provas, para, em seguida, verificarmos o valor filosófico de sua análise das mesmas.

Para Kant há três tipos de prova da existência de Deus: há as provas “ontológicas”, as provas “cosmológicas”, e as provas “físico-teológicas”.

Os nomes são pomposos, mas a coisa é mais simples do que aparenta. As provas ontológicas são as mais fundamentais. Nelas, tudo que se precisa fazer é analisar o conceito de “Deus” para concluir que existe uma entidade que assim chamamos. Já as provas cosmológicas, por sua vez, exigem um pouco mais de trabalho: primeiro verifica-se que um objeto qualquer existe (por exemplo, eu sei que eu existo), e, reconhecendo que tudo que existe, existe por alguma causa, acaba-se por concluir que é necessário haver uma causa primeira do mundo, i.e., Deus. Por fim, as provas físico-teológicas são bastante parecidas com as cosmológicas. No entanto, nelas nem mesmo é preciso verificar se algo existe de fato, mas simplesmente reconhecer o caráter harmônico do mundo que nos rodeia para concluir a necessidade da existência de um ente harmonizador.

Voltemos agora à análise que Kant faz dessas provas. Como já disse, a sua razão principal não é lógica. Kant por vezes até mesmo aceita essas provas do ponto de vista lógico. Tome-se, por exemplo, a sua relação com o argumento físico-teológico. Versões recentes de provas da existência de Deus, que mantêm semelhança com esse argumento (o argumento do ‘design inteligente’, por exemplo), foram analisadas do ponto de vista lógico. Chegou-se então a conclusão que as premissas que compõem o argumento (‘há harmonia no mundo’), nem de longe nos permitem inferir que “há alguém que harmoniza o mundo”. Mas a crítica que Kant faz à prova físico-teológica não é essa. Kant até mesmo aceita a inferência que a compõe e se limita a dizer unicamente que a noção de “harmonizador do mundo” é mais fraca que a noção de “Deus”, o qual, além de harmonizador, é criador do mundo. Portanto, ainda que se possa concordar que a crítica que Kant faz ao argumento ontológico, por exemplo, é de tipo lógico (talvez Kant não considerasse isso lógica, mas podemos lê-lo dessa maneira), na maioria dos casos, melhor seria dizer que a crítica kantiana é filosófica ou metafísica.

A análise do argumento cosmológico exibe com clareza o caráter filosófico da abordagem kantiana. É possível afirmar que há uma causa necessária para tudo que existe no mundo, apenas com base no reconhecimento da existência de uma coisa qualquer e da verdade da afirmação “tudo que existe, existe por uma causa”? Para Kant não, não é possível.

De fato – ele nos diria – esse argumento é válido (no sentido usual que se dá em lógica ao termo “validade”, a saber, se as premissas são verdadeiras a conclusão é verdadeira).

Além disso, suas premissas são verdadeiras. No entanto, esse argumento não é suficiente para sustentar a conclusão buscada. O ponto já não é lógico: o argumento é válido, as premissas são verdadeiras, e, pelas prescrições da lógica, a verdade da conclusão deveria ser uma consequência necessária. O ponto é filosófico: a passagem das premissas para a conclusão, que caracteriza esse argumento, acarreta na falta de significação da conclusão.

O que Kant quer dizer com isso? Aqui a coisa fica um pouco mais técnica. Kant chama de fenômeno àquelas coisas que compõem o mundo (os animais, os artefatos, as demais pessoas, etc) enquanto coisas as quais temos acesso, i.e., vemos, ouvimos, tocamos. Se essas coisas são então isoladas de qualquer modo de acessos a elas, Kant as chama coisas em si. Ora, para algo ser fenômeno, ou seja, para algo poder ser uma coisa a qual nós podemos experimentar, uma série de condições precisa ser satisfeita, e a lista de Kant é extensa: precisam se dar no espaço e no tempo, segundo relações de causa e efeito, etc. Aquilo que não satisfaz um ou outro desses pré-requisitos não é fenômeno, ou seja, não pode ser experimentado por nós, e, mais, não pode nem mesmo ser conhecido por nós. Deus, a ideia de uma causa que não foi causada, segundo Kant, é uma dessas coisas que não podem ser conhecidas. E não porque sejamos muito limitados para conhecer Deus, mas sim porque ele não é uma dessas coisas sobre as quais faz sentido falar em conhecer (a Europa, um animal raro, um planeta distante). A frase “existe a causa primeira de tudo que existe no mundo”, apesar de ser deduzida a partir de um bom argumento, não tem significação, pois o objeto “causa primeira” nunca pode ser apresentado como fenômeno, e apenas as frases sobre os fenômenos tem significação. (Por mais fictícia que ainda possa soar aos nossos ouvidos a ideia de conhecer um outro planeta, isso é possível e de uma maneira que a ideia de conhecer Deus nunca será. E isso porque Deus não participa das coisas sobre as quais faz sentido falar em conhecer).

É uma lição muito bonita a que nos dá Kant. Talvez sua obra já não seja mais capaz de defendê-la, mas isso não é motivo para abandonar a lição e deixar de tentar sustentá-la, com nossas próprias razões. Pensemos na vantagem dessa lição. Ela permite rejeitar as religiões como paradigmas de conhecimento, ou seja, através dela é possível fazer uma distinção precisa entre ciência e fé. Além disso, ela é um modelo de tolerância e respeito às diferenças, na medida em que separar ciência e fé evita também que a primeira domine os terrenos da segunda. Por outro lado, pensemos no preço filosófico do novo ateísmo. Seu embate lógico com as provas da existência leva as teses da fé aonde nunca deveriam ter sido convocadas, ao tribunal da racionalidade. Ora, o efeito desse enfrentamento é unicamente a confusão entre os pólos. Há de fato quem já diga que os frutos da confusão entre ciência e religião (p.ex., criacionismo) são ciência – má ciência, e isso é apenas um dos prejuízos a que se chegará com o novo ateísmo. Talvez Tchekov ofereça em O Homem Extraordinário uma boa ilustração do novo ateísmo. O personagem principal do conto tem uma mente calculista, uma moral matemática. Mas, surpreendentemente, o cálculo não é para ele garantia de rigor moral, mas unicamente a raiz da confusão entre o bem e o mal. Em suma, ele é um homem bom, mas com uma bondade defeituosa devido à racionalidade que lhe impulsiona. O novo ateísmo é como esse personagem: ele é uma defesa do pensamento crítico e do conhecimento, mas que aplica os critérios da racionalidade de maneira extrema. E o resultado desse tratamento brutal oferecido a tudo que se apresenta serve apenas a um único fim, a saber, a destruição dos próprios parâmetros de conhecimento e pensamento crítico.

Devemos, por fim, considerar uma crítica ao que vem sendo dito até aqui. De fato, a objeção que fazemos ao novo ateísmo é uma objeção a certo uso da lógica. Mas – indaga nosso crítico – não haverá maneira de tornar a relação entre religião e lógica mais amistosa do que aquela pretendida pelos novos ateus? Será que do ponto de vista lógico, só o que podemos dizer da religião é que ela está errada? Uma resposta inicial pode ser assim esboçada. Há duas maneiras, pelo menos, de entender a lógica. Por um lado, podemos entender a lógica como uma teoria da dedução. Cabe a lógica, sob esse ponto de vista, indicar quando uma conclusão se segue de um conjunto de premissas e quando isso não acontece. E podemos ainda entender a lógica sob uma segunda perspectiva, a saber, como uma teoria da compatibilidade entre frases. Sob esse ponto de vista, cabe a lógica indicar quando duas premissas podem ser verdadeiras juntas e quando não podem. É possível apresentar a lógica como teoria da dedução através da perspectiva da lógica como teoria da compatibilidade, mas não podemos fazer o contrário, ou seja, ambas as visões da lógica não são equivalentes. Ao contrário da primeira concepção de lógica, a lógica como teoria da compatibilidade não se preocupa com a prova de verdades. De fato, tudo que se faz nesse caso é determinar o que pode ser afirmado em conjunto e o que não pode. Ora, não será essa visão da lógica menos radical do que a aqui denunciada? Além disso, não será ela positiva para o religioso no sentido em que parece permitir um refinamento da fé? Essa é uma boa questão. No entanto, devemos deixá-la em aberto por enquanto.

O PREÇO FILOSÓFICO DO NOVO ATEISMO, pelo viés do colaborador Bruno Ramos Mendonça.

[1] Agradeço a Elza Maria Ramos Mendonça, ao prof. Frank Thomas Sautter, e a Laura Machado do Nascimento pelos comentários e revisões desse texto.

Bruno Ramos é acadêmico do curso de Filosofia da Universidade Federal de Santa Maria (RS).

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