A XENOFOBIA A SERVIÇO DO CAPITAL – O TERROR ENTROU NA SALA

Mas engana-se quem acredita que são fatos isolados.

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Dia desses preenchi um formulário cadastral daqueles que contém inúmeras perguntas. Uma delas é recorrente: “Qual sua raça?” Ao que respondi: “humana”. Possivelmente não agradei a quem concebeu o formulário, mas penso que não me equivoquei. Alguns estudiosos entendem que a diferença existente entre os seres humanos é tão ínfima que não justificaria nos categorizarmos em diferentes raças. Essa distinção vale, por exemplo, para os cães. A diferença entre um Dog Alemão e um Chihuahua é tão gritante que justifica a distinção em raças distintas. As diferenças entre os humanos são percentualmente desprezíveis e, portanto não deveriam servir para nos dividir em “raças”. Entretanto a história da humanidade é permeada por inúmeros conflitos raciais. Em diversos momentos da nossa história esses conflitos foram utilizados para, em geral, justificar disputas territoriais, econômicas e políticas. A intolerância, seja ela sexual, racial, religiosa ou outra qualquer, tem sempre ligações intrínsecas com interesses sócio-políticos. No último dia 22 de julho o mundo ficou estarrecido com um novo capítulo dessa história. A até então pacata Noruega, detentora do título de país mais pacífico do mundo (2007), dona do melhor IDH (desde 2001) e do terceiro maior PIB per capita do planeta, foi palco de um ataque bizarro que matou cerca de 80 pessoas. Só para termos uma ideia da dimensão dessa catástrofe é bom lembrar que a taxa de homicídios naquele rincão nórdico é de 40 assassinatos por ano. Em um dia o sr. Anders Behring Breivik, 32 anos, norueguês de nascimento, matou o equivalente a dois anos. Esse morticínio teria sido motivado, principalmente, pelo seu ódio ao islamismo e a uma suposta “onda migratória” de muçulmanos para a Europa. Esse não foi o primeiro e com certeza não será o último ataque motivado pela xenofobia.

Mas engana-se quem acredita que esses episódios são fatos isolados. Ao contrário, se analisarmos a história recente da Europa veremos centenas de casos semelhantes e o que é pior, e mais grave: muitos desses ataques são estimulados por governos de países como Itália e França. Silvio Berlusconi e Nicolas Sarkozy tem agido conjuntamente na política de deportações de romenos e búlgaros, principalmente os “rom”, ou ciganos. Na Itália Berlusconi é aliado fiel da Liga Norte, partido confessadamente xenófobo. Desde 2008 que o primeiro ministro italiano e o ministro interior, Roberto Maroni (da Liga Norte), proclamaram que uma das prioridades do governo seria a de expulsar do país as “hordas de bárbaros” que infestam a Itália. Entre as medidas aprovadas estão o fechamento de fronteiras, prisões, deportações e destruição de acampamentos ciganos. Em 2010 o governo de Sarkozy publicou a famosas “circular de 5 de agosto” que instrui policiais a desmantelar acampamentos ilegais “tomando como prioridade os dos ciganos romenos”. Pouco depois a circular foi corrigida, mas apenas formalmente. Seu conteúdo permanece intacto. Tanto é que só em 2010 mais de 8 mil ciganos foram expulsos da França. Partidos da extrema direita como a Frente Nacional, liderado por Jean-Marie Le Pen, na França, tem se proliferado pelo continente europeu. Na Alemanha, na Suécia e na Holanda há partidos da extrema direita que assentam suas plataformas programáticas na xenofobia. O “Democratas Suecos”, que apesar do nome tem DNA xenófobo, elegeu 20 representantes ao parlamento sueco no último pleito. O principal argumento dos partidários da xenofobia é que os imigrantes roubam os empregos dos europeus. A crise econômica europeia, longe de terminar, serve de argumento para aumentar o ódio aos imigrantes. Desemprego, retirada de benefícios sociais, falta de moradia e de assistência médica retroalimentam a tese de que a culpa pela crise é dos “estrangeiros”. Governantes manipulam os fatos para eximirem-se de responsabilidade sobre a crise.

Infelizmente essa tese encontra eco em diversos segmentos sociais. A constante recusa da Comunidade Europeia (CE) em incorporar a Turquia é exemplo inconteste dessa xenofobia. O Papa Bento XVI e Barack Obama usaram a mesma expressão para definir a ação terrorista. Ambos afirmaram que o ataque foi “sem sentido”. Não por coincidência esses dois senhores, ardorosos defensores do atual status quo, tratam de qualificar o atentado como uma insanidade, um ato isolado, sem conexão com a xenofobia patrocinada por seus aliados europeus. Evidente que não estou defendendo a tese de que os governos da França ou da Itália patrocinam ações terroristas, mas é evidente que sua xenofobia estimula, ainda que indiretamente, ações como a de Anders Breivik. A Europa tem 710 milhões de habitantes. A CE, com seus 27 países membros, mais de 500 milhões. A taxa migratória é de 1,48 por 1.000 habitantes. A mais expressiva “minoria” é a dos ciganos, que não ultrapassa os 12 milhões de membros, muitos nascidos em solo europeu. Os números, portanto não corroboram a tese de “invasão das hordas de bárbaros”. O discurso não encontra abrigo na realidade. E é sempre bom relembrar que o colonialismo europeu invadiu terras nos quatro cantos do mundo. Ocupou completamente a América do Norte, a América Central e do Sul, a Austrália e a maior parte do continente africano. A própria Noruega, na era Viking, conquistou a Groenlândia, a Islândia, parte da Grã-Bretanha e da Irlanda (inclusive fundando Dublin). Chegaram até a costa canadense, sendo os primeiros europeus a chegarem à América. A história da Europa não pode ser escrita sem a violenta explosão colonial que conquistou e invadiu boa parte do mundo, logo tem pouca ou nenhuma autoridade para falar em expulsar “invasores”.

O terrorista norueguês Anders Breivik, um anti-comunista assumido e que militou durante anos no ultra-nacionalista “Partido Progressista”, busca reconhecimento e admiração. Deixou um relatório de 1.518 páginas. Nele faz diversas referências à miscigenação no Brasil. Segundo ele se esse modelo fosse adotado na Europa o efeito seria “devastador” e contribuiria para a “aniquilação” dos “povos indígenas nórdicos”. A miscigenação brasileira, que tanto nos orgulha, seria fruto de uma “revolução marxista” e teria produzido uma “bastardização” do Brasil. Breivik explodiu duas bombas no centro de Oslo, capital da Noruega, matando, ao que tudo indica, 8 pessoas. Em seguida dirigiu-se à ilha de Utoya onde se realizava um acampamento da juventude do Partido Trabalhista. Lá executou a tiros cerca de 70 jovens. Para as bombas usou fertilizantes. Só em maio de 2011 adquiriu mais de 6 toneladas de fertilizantes alegando ser proprietário de uma empresa agrícola. Note-se que desde que Timothy McVeigh matou 168 pessoas e feriu outras 700 em 1995 no estado americano de Oklahoma usando fertilizantes, a venda desses produtos é controlada por autoridades governamentais. No massacre aos jovens usou munição especial com extremidade oca, que se fragmenta ao entrar no corpo das vítimas causando extrema devastação.

Essa munição é proibida em guerras desde 1899 e só é usada em casos especiais, justamente os de operações antiterrorismo. São muito difíceis de conseguir, principalmente em países como a Noruega. A ineficiência da polícia norueguesa, que não conseguiu detectar os inúmeros rastros deixados por Breivik, e que demorou excessivamente no combate aos atos do terrorista, comprova que o país não estava preparado para enfrentar uma ação como essa. Que fazer agora que o terrorismo foi perpetrado por um louro, nórdico e não por um muçulmano barbudo com a cabeça coberta por um turbante? Não há um Bin Laden a ser caçado. Não há “armas químicas” a serem “descobertas”. No Iraque homens-bomba explodem todos os dias, centenas de vidas são ceifadas quase que diariamente, mas isso já não é mais notícia. No Brasil a polícia mata mais de 1.800 pessoas a cada ano, são 5 por dia.

Mas isso não é mais notícia também. Michael Moore, cineasta americano, quando da morte de Bin Laden afirmou: “Matamos mais de 919.000 no Iraque, no Afeganistão, no Paquistão, etc., e gastamos 1 bilhão e 200 milhões de dólares em despesas militares, e, finalmente, conseguimos assassinar mais uma pessoa”. Ironia mordaz, mas que expressa bastante bem a insanidade dos EUA na luta contra o “terror”, que tão bem serve aos interesses americanos pelo mundo afora. A rigor a política dos EUA no médio oriente, na Ásia e na América do Sul não pode ser classificada senão como terrorismo de estado. O terror entrou na sala. O atentado na Noruega, segundo maior do século na Europa (ficando atrás apenas do de Madrid em 2004 que matou 191 pessoas), tem que ser condenado. Mas no banco dos réus não pode ficar apenas Anders Breivik. Há que ter espaço para Sarkozy, Berlusconi e muitos outros que estimulam a xenofobia. O capitalismo se torna cada vez mais intolerante, violento e destrutivo. De nada adiantou colocar um negro na Casa Branca (ela mesmo símbolo maior da segregação racial) se este “negro” segue a risca todos os ditames do império, o racismo inclusive. Só uma sociedade livre das amarras do capital, onde não haja concorrência desenfreada, onde o homem não seja “o lobo do homem” pode de fato eliminar a intolerância. O respeito à diversidade humana, tão linda e tão essencial, precisa de homens e mulheres livres. O mundo do capital, que a tudo mercantiliza, não sabe e não quer respeitar o diferente.

A XENOFOBIA A SERVIÇO DO CAPITAL – O TERROR ENTROU NA SALA, pelo viés de Fernando Carneiro.

Fernando Carneiro é historiador, membro da equipe editorial do Ponto de Pauta e dirigente do PSOL/Pa.

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