SOBRE A VIOLÊNCIA

Vez que outra, as sutis violências cotidianas resolvem emergir. Uma relação de antagonismo nos é dada como óbvia, de lógica simples e infalível: à violência, opõe-se a segurança; na falta de uma, vigora a outra, e vice-versa.

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Manifestação contra a violência na Praça Saldanha Marinho, em Santa Maria. Foto: Tiago MIotto

Na última segunda-feira, após o assassinato do estudante Ângelo Biazzi, de 23 anos, ocorrido no dia anterior no ponto mais central da cidade de Santa Maria, mais de três centenas de pessoas se reuniram em uma manifestação de  apoio aos familiares do rapaz. Em sua maioria jovens, estudantes como o cachoeirense Ângelo, cuja vida fora encerrada por três outros jovens às seis horas e meia do domingo, pediram por paz, segurança e pelo fim da violência.

Quantos sonhos serão interrompidos? Em tom de justificado rancor, a frase inscrita em uma das faixas exibidas no ato dava aos traços de comoção, indignação e perplexidade que se percebia nos olhares um caráter inquisidor. Qualquer vida interrompida é uma perda inestimável, irrevogável. Quando se trata de uma vida jovem, entretanto, o choque é ainda maior: a transição brusca da vitalidade plena ao estado de reminiscências choca, sacode, subverte a sequência lógica da vida e nos põe a pensar.

A violência, e em especial a violência urbana, nunca foi novidade – ao menos, não para a geração que hoje constitui a juventude do país. Esta que cresceu já acostumada com o advento das guerras ao vivo, das filmagens de explosões e tiros que se assemelhavam aos filmes e aos video games, com a sutil – e aparentemente, dispensável – diferença de que na tela da TV o jogo era real. Presente nos noticiários, distribuída entre um palpite de cosmética, os gols da rodada e uma dica de como investir na bolsa em tempos de crise, a violência surge como uma realidade inevitável, provavelmente intrínseca à natureza dos agrupamentos urbanos ou, para os mais fatalistas, à natureza humana, de índole incontestavelmente competitiva.

Por esta razão, uma relação de antagonismo nos é dada como óbvia, de lógica simples e infalível: à violência, opõe-se a segurança; na falta de uma, vigora a outra, e vice-versa. Nestes termos, a segurança é o contraponto lógico da violência, equação simples que, em pressupostos imediatistas – e, não esqueçamos, também eleitorais – tem como resposta efetiva em políticas públicas o aumento da repressão policial. Que nada mais é do que a mesma violência, mas exercida sob o monopólio do Estado.

A violência oficial não somente nos aparece como necessária, mas também como legítima – se o Poder Público foi eleito democraticamente, é mais que seu direito, eventualmente, usar a força para proteger a nós, cidadãos. Embora os meios democráticos, que de dois em dois anos saciam e amortizam nossa necessidade prática de cidadania, baseiem-se teoricamente no preceito de igualdade e paridade entre os cidadãos – o voto de nenhum vale mais que o de outro – os procedimentos de rotina das rondas policiais, que nos põe “seguros”, estão longe de tomarem-nos como iguais: sabemos todos que eles têm cara, cor, local e hora preferenciais, e o suspeito padrão não é branco, nem é bem vestido, nem mora no centro.

Será que não podemos nem mais andar seguros no centro da cidade? É uma pergunta relevante. Mas não menos relevante do que é perguntarmo-nos: por que nos importamos tanto com o centro geográfico, comercial e imobiliário da cidade em que vivemos? Por que o fato de termos cerceada pelo medo a liberdade de andar no centro da cidade nos é naturalmente tão mais relevante do que, por exemplo, o perigo de circularmos em outros pontos da cidade? Será que é porque não temos interesse de ir lá ou, talvez, porque a população que lá reside não faz questão de segurança? Ou será que, na verdade, não nos preocupamos com a segurança de quem vive nas zonas periféricas da cidade por crermos que, naturalmente, é de lá que vêm os que inibem a paz do “nosso” centro? São questões que não podem ser analisadas nem compreendidas separadamente; são parte do mesmo problema.

No dia 16 de julho deste ano, no bairro Alto da Boa Vista, o serralheiro Fábio Batista Mota do Amaral, de 30 anos, foi morto com um tiro na nuca, efetuado por um policial militar durante uma perseguição. Embora tivesse antecedentes policiais, não há indício de que estivesse em débito com a Justiça. Na versão oficial, veiculada amplamente na mídia local, ele teria ameaçado disparar com uma arma de brinquedo enquanto fugia da polícia na carona de uma moto. Um dos policiais disparou com sua arma particular; a moto teria, então, perdido o controle e ele teria caído na água – de onde os policiais tentaram, sem sucesso, resgatá-lo e socorrê-lo. Ele faleceu a caminho do hospital. Ao lado do corpo, além da pistola de brinquedo que teria justificado a reação policial, a Brigada Militar (BM) teria apreendido cinco cartuchos de pistola calibre 38 e um carregador de munição do mesmo calibre. O condutor da moto, preso na ação, seria um foragido da Justiça.

Esta versão, embora conste das informações oficiais da BM, não é a que circula entre os moradores do bairro e foi contestada pelo advogado da família de Fábio. Segundo o tio da vítima – cujo parecer também foi veiculada na imprensa no dia seguinte – no local do crime havia apenas dois policias, e nenhum deles mencionara o fato de Fábio Batista Mota do Amaral estar armado. Além disso, na realidade, seria ele quem conduzia a motocicleta, o que justificaria, inclusive, o fato de ela ter se desgovernado e ele ter caído na água. Segundo o relato de um morador do bairro, Fábio teria saído com a moto para levar um amigo seu, foragido da Justiça, a uma das duas únicas farmácias da região de Santa Marta, perto da meia noite e meia de sábado. Ali, teria se iniciado a perseguição, que culminou na execução de Fábio pela polícia e na prisão do caroneiro. Para apurar as circunstâncias do crime, foi instaurado um Inquérito Policial Militar.

No mesmo bairro, no pesaroso domingo que iniciou com o assassinato do estudante Ângelo, um adolescente de 14 anos foi alvejado com quatro tiros, em casa, por outro adolescente de 15 anos. Para Igor da Rosa Gomes, morador do Alto da Boa Vista, MC e membro do Coletivo de Resistência Artística Periférica (CO-RAP), a violência não pode ser dissociada da falta de perspectiva na vida de muitos jovens. “Eu apoio a passeata. Tudo que tiver a paz como palavra-chave é válido, para mim. Mas será que a segurança que estão pedindo não causa mais insegurança ainda? A paz que eu quero é a paz que beneficia a todos. Para mim, especificamente, a segurança não é ver um cara fardado, mal preparado, mal remunerado na rua. A questão é discutir políticas públicas para a juventude”, afirma. Não por acaso, o CO-RAP realiza um evento cujo nome é Guerrilha da Paz. “O que faz um jovem matar outro jovem? A violência de alguma forma é um ciclo, é uma coisa horrível de parar para pensar. É horrível pensar que ela acontece, que ela existe entre nós. Às vezes a violência está em um olhar, em um gesto de discriminação. E a segurança também precisa ser pensada em outros termos: tu tens que estar seguro nos teus acessos, no sentimento de inclusão, de aceitação na sociedade, de ser ouvido. A juventude precisa olhar para a juventude, nós não somos só o futuro: nós somos o presente também. Dizer que somos só o futuro é uma forma de te fazer não vir para a luta, não questionar”.

Enquanto nos mantemos à superfície, vez que outra, as sutis violências cotidianas resolvem emergir. Uma ofensa, um soco, um tiro ou um corte a fio de faca, pontualmente, podem ser nada mais do que atos vis de seres humanos racionais; mas não seriam, também, o resultado da construção de vidas inteiras? Em tempos em que discutir a própria banalização da violência é assunto banal, é preciso estabelecer um outro contraponto à violência sistêmica: a dignidade humana. Uma questão que nem o simples apelo à segurança nem a retórica assistencialista da responsabilidade social, item indispensável das mais exitosas campanhas de marketing, são capazes de solucionar.

“SOBRE A VIOLÊNCIA”, pelo viés de Tiago Miotto

tiagomiotto@revistaovies.com

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  • Fernanda Machado

    Após o ocorrido com o estudante Ângelo, um amigo e eu conversamos sobre o ocorrido e pensamos de maneira parecida, a violência urbana sempre existiu; qualquer tipo de manifestação é sempre válida, porém, essa sobre a morte desse jovem teve uma razão pela qual foi feita e não pq um jovem foi morto e sim pq um jovem, branco de classe média alta foi morto. Todos os dias pessoas são vítimas de violência, porém ela só é repercutida pela mídia (ou levar as pessoas a fazerem manifestações) qndo a classe média alta eh “atacada”. se for para fazer manifestações , q sejam feitas todas as as vezes que um pessoa for vítima de tal violencia. não importanto classe social, raça, opção sexual…qndo uma pessoa de classe mais desfavorecida é morta não ocorre manifestações e nem revolta da “grande” sociedade, afinal eles mortos ou vivos não fazem falta. Os rapazes mortos no Alto da Boa Vista é tão revoltante qnto a do jovem Ângelo. porém nenhuma manifestação foi feita, sabe-se que após escurecer se você estiver lá no Alto da Boa Vista e precisar da polícia ou até mesmo de um ambulância, seu chamado não será atendido, afinal morrer mais um pobre na periferia não vai fazer diferença nenhuma.
    Penso ser impossível a violência acabar, mas tb esta na hora de pensarmos nela, não apenas qndo uma pessoa de uma classe mais favorecida é vítima e sim sempre que um ser humano perder sua vida de maneira violenta.

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  • Gabriel Lovato

    Concordo com a Fernanda. Não há que se deslegitimar a manifestação ocorrida, mas ela demonstra muito bem como a questão da violência, ou melhor a abordagem da violência veiculada na mídia e a comoção proveniente daí, varia de acordo com a classe social de quem é atingido por ela.
    Se ocorre um crime na “vila” mal se fala sobre o assunto. Crê-se ser “normal” (este é o pensamento dominante), quando a violência não pode ser encarada como algo absolutamente natural, seja lá onde ela ocorra.
    Há um pensamento forte nos setores médios de que a sociedade divide-se em “cidadãos de bem” e “marginais”. Os de bem no centro e os outros na periferia. Portanto,se ocorre um crime no centro a comoção é maior, há manifestações e etc.
    Mas que fique bem claro, qualquer manifestação em prol da paz, segurança é válida, obviamente.