QUAL DE MINHAS PALAVRAS VÓS NÃO ENTENDEIS?

Jesus Cristo: o filósofo que esqueceu de escrever e foi traído. Pelo viés de Bibiano Girard.

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"A criação de Adão", pintado por Michelangelo Buonarroti por volta de 1511, que figura no teto da Capela Sistina.

Jesus Cristo é o personagem principal do livro chamado “Bíblia Sagrada”, um texto religioso escrito há mais de dois mil anos, dividido em várias partes, sendo uma obra literária escrita a várias mãos. Cada autor desenvolve em centenas de páginas narrativas fantásticas abarcando passagens acontecidas entre 1600 anos desde o primeiro livro ao último. Uma saga nunca antes vista neste mundo. Em tempos quando nem mesmo o planeta Terra era cientificamente entendido, um time formado por 40 homens quis documentar, às vezes como “historiadores”, outras como meros narradores ficcionais o surgimento do mundo, de Adão – o primeiro e único homem feito de barro – e a vida conturbada de Jesus.

 Em número de vendas a Bíblia é o livro mais lucrativo do mercado seguido por “As citações do comandante Mao”, o qual fica 4 bilhões de exemplares atrás dos 7 bilhões do “livro sagrado”. Tal obra de textos mundanos converteu-se à interpretação alegórica de cunho divinal e hoje é a fonte de estudos sagrados para os mais de 2,2 bilhões de cristãos vivos pelo mundo.

O livro que conta o surgimento fantasioso da Terra e da espécie humana traz também a história do homem nascido na Galiléia, o filho de Maria, mulher que engravida inexplicavelmente de um ser maior de dimensão milagrosa, sublime, o qual regeria a tudo e a todos. Deus, o ser onipresente, despacha para a Terra – já que preferiu morar na cobertura – um anjo, Gabriel, que desce dos céus a fim de anunciar à grávida virgem tal façanha. Maria dá a luz ao único bebê do mundo sem fecundador macho, provedor do espermatozóide, célula a qual a biologia já nos apresentou há centenas de anos, e dá-lhe o nome de Jesus Cristo (na Amazônia, por muitos anos, mulheres engravidaram também sem serem fecundadas por homens, e sim por botos). Não só Maria seria escalada para o quadro de entrevistados de Sônia Abraão. Jesus cresce, vira homem, deixa a barba crescer, coloca sua famosa túnica e sai pelos caminhos do mundo a pregar a palavra de seu pai, no caso, Deus. Eram palavras de fé, paz, união e, principalmente, solidariedade entre os homens.

Jesus, contudo, foi um grande intelectual que não deixou escrito pelas próprias mãos aquilo que disse e pensou. Esquecendo-se de teorizar seus adágios, fora atraiçoado pela imaginação fértil de homens que ainda acreditavam que morcegos eram ratos velhos. ¿As escrituras, caso partissem do próprio filósofo Jesus de Nazaré, poderiam ter inovado o pensamento social da humanidade há milhares de anos, sendo artífices iniciais da corrente intelectual, filosófica, econômica, política e social do que hoje conhecemos por socialismo? Ao terminarmos algum parágrafo de artigo incluiríamos, quem sabe, inúmeros “CRISTO apud MARX”. Contudo, além de não deixar escritas suas capacidades filosóficas de perceber o mundo e as maneiras plausíveis de descobrirmos a serenidade e a igualdade, sendo a primeira quiçá uma consequência da segunda, Jesus morreu cedo, exatamente por força do que pregava, e aqueles que escreveram sobre ele fantasiaram tanto o ser humano Jesus que Harry Potter poderia convidá-lo a estudar em Hogwarts.

O filósofo Jesus Cristo tornou-se, por ensejos de força maior de uma época distante, ainda deitada sobre o véu da existência instintiva frente a intelectual, um messias a ser seguido. Religiões foram criadas para perpetuar seus ideais, mas o caminho encontrado fora universalmente antagônico ao que demonstrara o filho de Maria em algumas transcrições de momentos e discursos de sua passagem pela Terra. O “cristianismo” tomaria o poder político do Império Romano e aboliria a liberdade de religião. O mesmo “cristianismo” impetraria calvários de restos mortais pelo mundo matando milhões de “infiéis”, “hereges”, “feiticeiras” e inimigos de guerra.

A principal e maior instituição cristã, a Igreja Católica, dizimou milhares de pessoas por todo o globo exclusivamente por interesses capitais e de poder. Constituiu-se em uma máquina absurda de fazer dinheiro e perpetuou e ainda perpetua o convencionalismo miserável contra dezenas de homens e mulheres que “não são aceitos por Cristo” vide suas ações e maneiras de vida.

Através do Édito de Milão o então Imperador Constantino autorizou o culto ao deus único cristão e assim se iniciou a perseguição religiosa contra os pagãos. No ano de 389 d.C Teófilo, hoje Santo Teófilo, é empossado patriarca de Alexandria e inicia a violenta campanha de destruição de todos os santuários não-cristãos. Em seguida, no início dos anos 390 todos os cultos não-cristãos são proibidos. Na Germânia dava-se início à matança cotidiana dos hereges que culminaria na Santa Inquisição. Ao passar dos anos, a inquisição, o celibato dos padres e a obrigação do casamento religioso antes de qualquer relação sexual são admitidos. Chegava a obscura e cruel Idade Média. A Igreja Católica veste sua mais tenebrosa tradição: queimar pessoas vivas. O Cisma do Oriente, quando a Igreja Católica se divide em duas, a romana e a ortodoxa de Constantinopla, tem como consequência guerras incentivadas por esta divisão que persistiriam até os anos 1990.

Com as Cruzadas, empreitada idealizada pelos católicos a fim de expandir sua influência além do território já conquistado, Jerusalém é atacada e o governador muçulmano rende-se sob a promessa de que a população civil seria poupada. Todas as mulheres são estupradas e as crianças decapitadas. Por iniciativas papais as cruzadas seguiriam por dezenas de anos.

Jean-Paul Sartre, Alberto Moravia e André Gide seriam proibidos, na história recente, de serem lidos pelos católicos. O papa João Paulo II chega à liderança do Vaticano. Entre suas ações conservadoras esteve a condenação do preservativo como modo de luta contra a Sida, provocando um grande número de mortes pelo mundo inteiro. Com a chegada de Bento XVI ao posto papal a Igreja retrocede ainda mais. Grupos que representam vítimas de casos de abuso sexual cometidos por padres apresentam denúncias ao Tribunal Penal Internacional (TPI) acusando o Papa Bento XVI e três autoridades de alto escalão do Vaticano de crimes contra a Humanidade. Os grupos acusam o chefe da Igreja de “ter tolerado e ocultado sistematicamente os crimes sexuais contra crianças em todo o mundo”. Mais de 10.000 páginas de documentação de casos de pedofilia estão retidas ao processo.

Além de todos estes fatos o mal entendido causado pelos 40 autores do livro deixara de herança aos ditos cristãos o ódio contra outros povos. Gritantemente consentira a aversão a outras religiões do planeta até os dias atuais. Jesus Cristo foi e ainda é convocado em discursos políticos de veemência terrena para que Ele dê graças a militares armados em direção à guerra.

Outras religiões mais recentes, como a Igreja Universal do Reino de Deus, tornaram-se empreendimentos de invento lucrativo que desvirtuaram totalmente um dos mais prestigiosos preceitos do filósofo de Nazaré: a simplicidade e o não acúmulo de bens materiais. Não é novidade para nenhum brasileiro que a Igreja Universal também esteja afundada em denúncias criminais. A Polícia Federal já colocou o bispo Edir Macedo, dono da TV Record e líder da Igreja Universal, na lista de criminosos brasileiros acusados de falsidade ideológica, enriquecimento ilícito, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e fraudes de documentação. Entre outros, o delito-mor da Universal está na arrecadação das doações de fiéis para benefício dos próprios donos. Segundo o Ministério Público (MP), investigações constataram que as movimentações chegam a R$ 1,4 bilhão por ano em dízimos angariados em 4,5 mil templos distribuídos em mais de 1,5 mil cidades do Brasil. Durante o período entre 2003 e 2008, os depósitos para a Igreja Universal do Reino de Deus alcançaram R$ 3,9 bilhões, diz o MP.

Edificada por Edir Macedo em 1977, a Igreja Universal do Reino de Deus conta atualmente com aproximadamente 18 milhões de fiéis no Brasil, 4.700 templos em 172 países e recentemente ultrapassou a rede de lanchonetes McDonald’s em número de países onde existem filiais. Segundo a legislação brasileira igrejas são proibidas de serem donas de empresas de radiodifusão. Mesmo assim, em seu nome e no nome de pastores da Universal estão imbricadas 23 emissoras de TV e 40 de rádio. 

O filósofo queria ensinar a pensar mas muitos de seus seguidores continuam mergulhados no barro da insuficiência mental no mesmo grau dos homens de séculos atrás, homens desprovidos das descobertas da ciência, da biologia, da física e de tantos saberes, os quais nos possibilitaram perceber a máquina-mundo por vieses mais palpáveis, o que de certa maneira contesta inúmeras passagens do livro sagrado dos cristãos: andar sobre a água, transformar a água em vinho, fazer enxergar um velho cego são narrativas totalmente acessíveis de serem escritas, lidas e relembradas, desde que seus ledores tenham a compreensão de que somente Mister M. conseguiria enjambrar tais armações. Jesus, se realmente existiu, e se realmente foi o ser humano descrito por quem “o conheceu”, foi um intelectivo mal decifrado.

Desfazendo-nos do misticismo sobre o homem, respeitando que cada um creia em uma forma diferente de Cristo, devemos ressaltar que os dogmas cristãos oferecem a proposta viva de um mundo sem opressores e oprimidos. Os Papas, as Cruzadas, a Santa Inquisição e o domínio capital da Igreja Católica já bastam como exemplares de que a opressão caminha e sempre caminhou junto com a própria instituição dita cristã. Outra passagem bíblica mostra a busca incansável do filósofo messias em repassar os ideais da partilha e da distribuição de renda justa. Ao dividir o pão temos o demonstrativo pleno de que ele buscava fazer-se entender que nenhum daqueles homens a sua frente merecia permanecer faminto. Pois hoje o pão está na mão de poucos e poucos são aqueles que procuram a verdadeira divisão do pão sem incidir na indigência humana da beneficência por obrigação ou por manifestação de benevolência. Além disso, destes poucos que procuram a literal partilha, a grande maioria não se converte à religião alguma profundamente.

Ao longo da história da sociedade pós Cristo, o homem consecutivamente soube empregar o nome de Jesus Cristo para julgar, dominar, massacrar. Ao contrário, para bens sólidos à humanidade inteira, seu nome pouco é citado. O filósofo místico filho de Maria em quase todos os seus sermões alegava que o alicerce de uma sociedade utópica jazia autenticada na não exploração do homem sobre o homem. Thomas Hobbes afirmou que “o homem é o lobo do homem” dezenas de séculos depois da morte de Jesus Cristo. Para Hobbes, apenas um pacto formal, o contrato entre pessoas iguais renunciantes de suas liberdades em troca da tranquilidade, seria a maneira mais acessível de apaziguar a coletividade mundial, pois todos os homens são iguais e todos desejam as mesmas coisas e têm as mesmas necessidades. Entretanto, é difícil fazer o homem capitalista do século XXI entender o intento dos vocábulos “liberdade” e “desejo” em meio ao caos teórico e prático da existência humana moderna, afastada do estudo de pacificação e humildade próprias frente ao que nos é apresentado neste globo dourado de imundície física e mental. “Ame a teu próximo como a ti mesmo e não faça aos outros o que não quer que façam contigo” (CRISTO, Jesus). Infelizmente o mundo, mais precisamente o lado ocidental do mundo, ainda não aprendeu a separar o homem e seus atos mal decodificados das religiões alucinadas que dizem o seguir. Jesus era um cara maneiro, pena que seus parceiros beberam demais do sangue do amigo.

QUAL DE MINHAS PALAVRAS VÓS NÃO ENTENDEIS?, pelo viés de Bibiano Girard

@bibsgirard

bibianogirard@revistaovies.com

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