SUBJETIVIDADE E PALAVRAS

Será possível dizer que as pessoas do presente pensam melhor que as pessoas do passado, dadas as nossas diferenças simbólicas? Ensaio de Bruno Ramos Mendonça.

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E como são complicados esses que se empenham em traduzir (!) seus pensamentos… pois a palavra já não é o próprio pensamento? Acaso algum de vocês já experimentou pensar sem palavras?” (Mario Quintana, “Traditori”)

De fato é comum, embora não seja nem um pouco inocente, pensar de nossas palavras e símbolos que eles são meras traduções de nossos pensamentos. Afinal, de que outra forma as coisas poderiam se passar? Não parece correto afirmar, como Quintana diz acima, que os pensamentos são as palavras. O pensamento de uma casa verde não se identifica com a expressão “casa verde”. O pensamento é algo mental, que pode ser expresso por diversas palavras (entre os falantes do português se expressa por “casa verde”, enquanto entre os ingleses “green house”). Assim, parece que na verdade o pensamento é independente das palavras e – por que não? – por vezes talvez até não possa ser de qualquer maneira comunicado.

Mas será que isso é verdade? Observações comuns parecem rechaçar tal opinião. Em primeiro lugar, diversas operações conceituais só podem ser levadas adiante com recurso a símbolos. Tomemos como exemplo o ato de calcular. Faça o experimento de dividir 647 por 14 sem qualquer uso de símbolos – sem imaginar símbolos também, é claro! O fato de essa tarefa ser difícil para você, muito mais difícil do que calcular usando o sistema arábico de contagem, revela em que medida nossa cognição pode ser dependente de nossas palavras.

Mais ainda, ao que tudo indica, a própria capacidade de formar certos tipos de pensamento está vedada para aqueles que não possuem familiaridade com símbolos adequados para expressá-los. Um outro exemplo, também de filosofia e de história da matemática, corrobora essa tese: gerações de filósofos tentaram explicar em que consistia o pensamento de um número negativo. E qualquer pessoa com estudo básico de matemática já se defrontou com os apavorantes números imaginários. Aprendemos as propriedades desses números sem saber muito bem o que eles são.  O interessante é que, apesar da natureza obscura desses tipos de quantidade, encontramos nos símbolos um intermédio seguro para pensar sobre essas coisas.

Também E. Cassirer notou a importância da aprendizagem linguística na formação do intelecto humano.

“O homem não pode fugir à própria consecução. Não pode deixar de adotar as condições da própria vida. Já não vive num universo puramente físico, mas num universo simbólico. A linguagem, o mito, a arte e a religião são partes deste universo. São os vários fios que tecem a rede simbólica, a teia emaranhada da experiência humana.” (Cassirer, Antropologia Filosófica, p.50)

Em Cassirer se encontra um relato muito bonito sobre a importância da alfabetização nesse processo. Cassirer chama atenção para o fenômeno da aprendizagem do abecê por crianças surdas mudas. Pessoas que até então só conheciam “sinais” específicos para um conjunto reduzido de coisas descobrem no conjunto de letras que formam a língua a chave universal que dá acesso a tudo que pode ser pensado.

Diante dessas constatações, passa a ser curiosa a persistência da concepção comum sobre a relação entre linguagem e pensamento. A linguagem é mais importante para o pensamento do que imaginamos. Mas eu comecei esse ensaio dizendo que a ideia de que o pensamento é independente da linguagem é comum mas não é inocente. Ela serve de razão para as mais variadas decisões que tomamos. Por exemplo, agora é comum dizer que não importam os ritos e símbolos tradicionais, que eles são meras convenções, que o que importa é o que pensamos e sentimos de fato, e que sendo esses ritos ridículos, e por vezes maldosos, eles devem ser, portanto, abandonados. Essa opinião está presente não apenas no ateísmo que quer um mundo livre das religiões, quanto na religiosidade que invade a esfera das instituições laicas. Qualquer um desses casos pode ser corretamente descrito como eliminação ou deturpação simbólica. A questão que fica, no entanto, é se não são os próprios sentimentos e pensamentos, junto com seus símbolos, que assim vão se perdendo – ou talvez apenas vão se modificando…

As ideias podem subsistir sem seus símbolos? Uma parcela da filosofia contemporânea sugere, pelo contrário, que as ideias se modificam com seus símbolos. Será a física aristotélica comparável conceitualmente com a física contemporânea? Será nossa compreensão numérica igual, apenas gradualmente mais elevada, à compreensão numérica das pessoas antigas, que não calculavam com algarismos arábicos? Será possível dizer que as pessoas do presente pensam melhor que as pessoas do passado, dadas as nossas diferenças simbólicas?

A linguagem é mais importante para o pensamento do que estamos acostumados a imaginar. Talvez a sugestão de Mario Quintana esteja bastante correta: não passamos de traidores, mas de nós mesmos. Aprendemos a pensar com símbolos e palavras que tomamos de outros. A certa altura da vida, começamos a suspeitar que essas não são as palavras mais adequadas. As recusamos, transformamos, trocamos. Trocamos nosso pensamento, os abandonamos.

SUBJETIVIDADE E PALAVRAS, pelo viés do colaborador Bruno Ramos Mendonça.

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