MUSSOLINI, O OPORTUNISTA VIOLENTO

Ter sido batizado Benito em homenagem ao líder anti-imperialista mexicano Benito Juárez, ele, que seria o campeão do imperialismo italiano, não foi o maior dos seus paradoxos. Talvez o maior foi o de ter sido considerado, em 1915, depois da falência da Internacional Socialista consecutiva à Primeira Guerra Mundial, como o único líder socialista italiano capaz de levar o partido pela via do marxismo revolucionário, por líderes comunistas como Lênin e Bukharin. O mesmo homem que, três anos depois, ao fundar o Partido Nacional Fascista, criou as bases para o primeiro movimento direitista (anticomunista) de massas, modelo para todos os da Europa e do mundo, incluído o totalitarismo nazista (e até o “integralismo” brasileiro). Excepcionalidade? Não, se considerarmos que, à mesma época, líderes de esquerda como o socialista belga Henri de Man, ou o comunista francês Jacques Doriot, passaram também para o campo do nazi-fascismo. Ou que, ao mudar o vento histórico, com o fim da Segunda Guerra Mundial, um contingente de “fascistas vermelhos” (a corrente filo-URSS do fascismo italiano) incorporou-se com armas e bagagens ao partido comunista (PCI). Precursor (no pior sentido do termo), isso ele foi, sem dúvida.

Mussolini nasceu em Predappio, em Emilia-Romagna, a 29 de julho de 1883. Seu pai, Alessandro, era ferreiro e ativista anarquista, enquanto sua mãe Rosa era professora de escola e devota católica. Teve dois irmãos menores, Arnaldo (futuro teórico fascista) e Edvige, também futura fascista. Foi enviado para uma escola interna regida por monges salesianos, onde já deu mostras de um caráter violento. Qualificou-se mesmo assim professor da escola primária em 1901. Em 1902, emigrou para a Suíça para fugir ao exército; chegou a ser preso por vagabundagem e foi deportado para a Itália, onde cumpriu o serviço militar. Na Suíça estudou as ideias do filósofo Friedrich Nietzsche e do marxista-sindicalista Georges Sorel, que fazia ênfase na necessidade de derrubar a democracia liberal e o capitalismo pelo uso da violência, da ação direta e da greve geral, e também no uso do “neo-maquiavelismo” apelando para a emoção das massas (o “mito”). Na Universidade de Lausanne assistiu a algumas lições do economista Vilfredo Pareto. Também conheceu alguns exilados socialistas russos, como Angelica Balabanoff e Vladimir Lênin, assim como entrou em contato com irredentistas (nacionalistas) italianos.

Conseguiu um emprego num jornal em Trento, em 1908, conhecendo logo depois Ida Dalser, com quem teve um filho em 1915, apesar de já casado com Rachele Guidi. Trabalhou para o Partido Socialista local e editou seu jornal L’Avvenire del Lavoratore. Em 1909 foi nomeado dirigente da Câmara do Trabalho de Forli. Transferindo-se a Trento, assumiu o cargo de secretário da Câmara do Trabalho, colaborando no jornal Il Popolo, dirigido por Cesare Battisti (só homônimo do atual exilado italiano no Brasil). Em 1910, de retorno à sua cidade natal, editou o semanário Lotta di Classe. Escreveu breves ensaios e até um romance (A Amante do Cardeal…). Em 1911 lutou, junto aos socialistas, contra a guerra ítalo-turca na Líbia, que classificou como “guerra imperialista”, o que lhe valeu um período de cinco meses na prisão. Livre, foi promovido à editoria do jornal nacional do Partido Socialista Avanti!, em 1912. Sob sua direção, a circulação do jornal passou rapidamente de 20 mil para 100 mil. Mussolini usou, algumas vezes, o codinomeVero Eretico, chegando a redigir uma minibiografia do monge tcheco Jan Huss, líder do proto-socialismo cristão “hussita”. Seu anticlericalismo e antimonarquismo emocional (apreendido em Sorel?) faziam dele um socialista sui generis.

Assim, em outubro de 1914, segundo um informe policial, “encontrando-se em oposição à direção do Partido Socialista Italiano, porque advogou um tipo de neutralidade ativa por parte da Itália na Guerra das Nações contra a tendência de neutralidade do partido, retirou-se da diretoria do Avanti! A 15 de novembro de 1914 iniciou a publicação do jornal Il Popolo d’Italia, onde apoiou – em contraste com o Avanti! e em meio a amargas polêmicas contra o jornal, a tese da intervenção italiana na guerra contra o militarismo dos Impérios Centrais. Por esta razão, foi acusado de indignidade moral e política e o partido decidiu expulsá-lo. Posteriormente, encarregou-se de uma campanha muito ativa em favor da intervenção italiana, participando de demonstrações em praças e escrevendo artigos bastante violentos em Il Popolo d’Italia”. O informe era correto quanto aos fatos, sem suspeitar de sua projeção histórica.

Em 1917 serviu no exército na Primeira Guerra Mundial. Narrou suas experiências militares em seu Diario di Guerra. Mussolini foi enviado à zona de operações bélicas, onde foi seriamente ferido pela explosão de uma granada, com 40 pedaços de metal no corpo. Convalescente, foi promovido ao posto de cabo “por mérito em guerra”. Recebeu alta em agosto de 1917 e retomou o cargo de editor-chefe de Il Popolo d’Italia. Segundo Peter Martland, o jornal de Mussolini era pago pela inteligência britânica para fazer propaganda favorável à guerra, de modo que Itália permanecesse no conflito. Há evidências de pagamentos semanais no valor de 100 libras feitos pelo MI5 (serviço secreto britânico) a Mussolini, em 1917. Finda a guerra, e depois dos decepcionantes resultados (para a Itália) da Conferência de Paz de Versalhes (1918), em 1919 Mussolini fundou os Fasci Italiani di Combattimento, organização que seria a base do Partido Fascista.

O manifesto inicial deste foi apoiado (e, pelo menos em parte, redigido) por importantes intelectuais, como o futurista Filippo Marinetti e o filósofo Giovanni Gentile, que anteciparam a adesão, até hoje objeto de controvérsias, de boa parte da intelectualidade italiana ao fascismo. O fascismo cresceu apresentando-se como um “anti-partido”, usando as suas milícias de squadristi, chamadas decamicie nere (camisas negras) para instigar o terror e combater abertamente os socialistas, alinhados majoritariamente com a Internacional Comunista, há pouco fundada na Rússia soviética. O terror diante de uma possível revolução socialista (operária), a greve geral dos operários de Turim, levaram o empresariado italiano a dar apoio crescente ao fascismo, que atraía camponeses arruinados e pequeno burgueses citadinos aterrorizados pela perspectiva da miséria. Mussolini guindou-se a chefe do partido (Duce). Em 1921, a cisão do Partido Socialista em Livorno criou o Partido Comunista (PCI), dando forma a uma cabeça visível da revolução proletária. No mesmo ano, Mussolini fundou o Partito Nazionale Fascista (PNF). Nessas condições, em 1922, Mussolini organizou, juntamente com Bianchi, De Vecchi, De Bono e Italo Balbo, a “Marcha sobre Roma” dos fascistas, um golpe de propaganda (o próprio Mussolini sequer esteve presente na marcha, tendo chegado a Roma de trem). “O nosso programa é simples: queremos governar a Itália”, disse. O golpe surtiu efeito e, nas condições de absoluta crise política reinante, Mussolini foi nomeado primeiro-ministro da Itália pelo rei Vittorio Emanuele III. O antigo antimonarquista chegava ao poder pela mão da monarquia: faltava só a Igreja para “reconciliar” o antigo anticlerical.

A coexistência do fascismo no governo com o parlamento foi de curta duração. Nos dois anos seguintes, a Itália continuou uma monarquia parlamentar, mas os fascistas não deixaram de usar meios violentos e mortíferos contra seus adversários, chegando ao assassinato do porta-voz parlamentar socialista Giacomo Matteotti, sequestrado por um carro do diretor do Corriere della Sera (jornal publicado até o presente) e encontrado depois torturado e assassinado. Em discurso histórico, Mussolini assumiu plena responsabilidade pelos fatos, e, em 1925, estabeleceu um regime ditatorial (“Pedimos plenos poderes porque queremos assumir plenas responsabilidades”), suprimindo o parlamento, os partidos políticos e os sindicatos de classe, e tornando-se Duce do país. Nascia o “Estado Fascista”, que inspiraria regimes semelhantes no mundo todo, desde o Estado Nacional-Socialista de Hitler até o Estado Novo de Getúlio Vargas, que dele copiou sua legislação trabalhista, a Carta del Lavoro, que inspirou a CLT brasileira. Sua condição de líder continental anticomunista, por outro lado, agradava às potências ocidentais, como França e Inglaterra.

Num discurso proferido na Câmara dos Deputados (fascistas) a 26 de maio de 1927, disse uma frase que definiu concisamente a “ideologia” do fascismo: “Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado”. Nisso, e em um número variável de frases ocas decoradas pelos seus partidários, resumia-se a “filosofia” fascista. Toda sua “originalidade” consistiu em combinar velhos temas nacionalistas com um pseudo-socialismo mal digerido e um anticomunismo visceral que, em condições pré-revolucionárias, lhe valeu o apoio da apavorada burguesia italiana e internacional (seu futuro inimigo Winston Churchill chegou a qualificá-lo de “grande estadista”). O hegeliano Giovanni Gentile teorizou a política (o Estado) fascista: “O caráter totalitário e ético do Estado fascista permaneceria uma exigência ou uma afirmação teórica se esse Estado não resolvesse em si ou, como hoje se prefere dizer na Itália, não enquadrasse a massa do povo nos seus objetivos, categorias e especificações econômicas e nas suas diretrizes e orientações espirituais e morais”. Destas, pouco se sabia.

Até então, as “democracias ocidentais” pouco se importavam com o fato de Mussolini governar com poderes ditatoriais, eliminando seus adversários políticos e criando um sistema de partido único baseado no corporativismo (com o Conselho Nacional das Corporações e a Câmara dos Fasci, baseadas no conceito de “unidade de nação orgânica”). As lideranças opositoras foram constrangidas ao exílio, quando não detidas e assassinadas, incluídos muitos de seus ex colegas de militância socialista: Antonio Gramsci, principal líder comunista, morreria em uma prisão fascista em 1937, depois de ter sido, junto com Luiz Carlos Prestes, o nome central de uma campanha mundial da Internacional Comunista pela liberdade dos presos comunistas. O grande sucesso de Mussolini na política interna foi a reconciliação do Estado italiano com o papa Pio XII, ou seja, com a Igreja Católica, depois da assinatura dos acordos de Latrão, em 1929, vigentes até hoje, que deram origem ao atual Estado Vaticano. Os romances anticlericais de Mussolini foram, então, oportunamente retirados de circulação. O tratado previa a condenação penal de quem quer que ofendesse a honra e a dignidade do Papa, o que provavelmente fez Garibaldi se revirar no túmulo.

Mussolini foi também precursor no uso do futebol profissional, que já era o esporte mais popular da Itália, como meio de manipulação política de massas. Organizou, para isso, em 1934, a segunda Copa do Mundo, com o beneplácito da FIFA (até nisso Hitler o imitou, organizando os Jogos Olímpicos de 1936). Como demonstrou Simon Martin, em Calcio e Fascismo, o time nacional foi montado como um objetivo do Estado Fascista, recheado de jogadores argentinos (e até algum brasileiro) importados ad hoc, apressadamente declarados oriundi (em que pese as claras origens indígenas sul-americanas de alguns deles). O capitão da squadra azzurra, Luis Monti, o corpulento doble ancho, tinha sido capitão da seleção argentina vice campeã de 1930. O time fazia a saudação fascista ao entrar em campo, saudação que também comparecia na vinheta da Copa, hoje apagada da memória oficial da entidade mãe do futebol-negócio. Itália venceu na final à forte seleção tcheco-eslovaca, com o gol da vitória do canhoto violinista argentino Raimundo (virado “Raimondo”) Orsi, “Mumo”, o Messi da época. O feito seria repetido na França, na Copa de 1938.

A erradicação do desemprego, a secagem de terrenos pantanosos e a repressão à resistência na Tripolitânia (Líbia) por parte do antigo opositor à colonização da Líbia, fortaleceram a posição política interna e externa de Mussolini, que se destacava por sua retórica contundente e teatral. Mas ele estava longe de ser o palhaço caricatural representado pelo cinema hollywoodiano de pós-guerra. Roma viu iniciarem-se as grandes obras de recuperação de seu patrimônio histórico arquitetural, que Mussolini via como antecedente de seu próprio império, e que inspirou a grandiosidade oca da arquitetura fascista, até hoje visível, por exemplo, no terminal ferroviário de Milão. A conquista da Etiópia em 1935-1936, com a prisão do monarca negro Hailé Selassie (que, detido, veio a inspirar o movimento rastafári, conectando estranha e indiretamente Mussolini com Bob Marley), oNegus, representou uma reviravolta na política externa italiana. Itália já tinha sua “Índia”, equiparando-se às potências coloniais que até então invejara. La Faccetta Nera, canção popular da época (a “Lili Marlene” dos italianos), escrita por Giuseppe Micheli e musicada da Mario Ruccione em 1935, era, na verdade, uma pouco inocente celebração do tardio e efêmero imperialismo italiano, oimperialismo straccione (maltrapilho), nem por isso menos brutal, como já bem sabiam os líbios. O teórico das “nações proletárias” (Itália, Alemanha) contra as “nações burguesas” (França e, sobretudo, Inglaterra), a versão nacional/fascista de seu marxismo mal absorvido de juventude, ficara para trás.

Convencido da conveniência do rearmamento alemão para fortalecer sua posição internacional, o Duce iniciou uma aproximação com a Alemanha ao constatar a tímida reação das potências ocidentais. A participação conjunta com os nazistas na Guerra Civil Espanhola de 1936 a 1939, a fundação do eixo Roma–Berlim em 1936 e a assinatura do Pacto de Aço em 1939 conduziram progressivamente Mussolini a uma posição de submissão à política externa de Hitler. Em 1938 ocupou a Albânia e enviou vários destacamentos que lutaram ao lado dos falangistas de Franco durante a guerra civil de Espanha. Em seguida, fez os exércitos italianos atacarem a Grécia – apenas para serem expulsos em oito dias. Em setembro de 1938, ainda conseguiu evitar a eclosão da guerra mundial com sua mediação no Pacto de Munique, mas em 1939 suas tentativas para manter a paz nazifascista europeia fracassaram. Com a entrada da Itália na Segunda Guerra Mundial, em junho de 1940, Mussolini assumiu pessoalmente o comando das tropas italianas. O comportamento brutal destas, nos Bálcãs, no leste europeu e no norte da África, contra as populações locais, assim como a adoção de uma legislação racial antissemita “interna” (Mussolini era antissemita) desmentem por completo a lenda de um “fascismo (italiano) de rosto humano”, diferenciado do nazismo, dos italiani brava gente, que até hoje permeia certa historiografia.

As mal preparadas e pior conduzidas tropas italianas invadiram a Grécia, encontrando uma resistência feroz, causando a histeria de Hitler, que se viu obrigado a auxiliar militarmente Mussolini, distraindo parte de suas forças da guerra contra Inglaterra e na frente leste contra a URSS. Depois das derrotas na Grécia e na África (perda da Etiópia em 1941 e da Líbia em 1942), do desembarque dos aliados na Sicília em 1943 e, sobretudo, da impressionante onda de greves operárias do mesmo ano, o Conselho Superior Fascista retirou-lhe o apoio e foi preso por ordem do rei. Foi ainda libertado por paraquedistas alemães de sua prisão no Gran Sasso, fundando no norte da Itália a efêmera Repubblica Sociale Italiana (República de Saló), sob domínio de Hitler e administração de uma burocracia corrupta e degenerada, retratada por Pier Paolo Pasolini no filme Saló ou os 120 Dias de Sodoma. Mas deu-se a ruptura na frente de combate alemã e o Ducefoi capturado, antes do fim da guerra, pelos partigiani italianos, quando tentava fugir com sua amante, Claretta Petacci. Foi sumariamente fuzilado, tendo seu cadáver (de cabeça para baixo) exposto e mutilado no Piazzale Loreto, em Milão, a 28 de abril de 1945. Pouco mais de uma semana depois, em Berlim, Adolf Hitler e sua própria “Claretta” (Eva Braun) se suicidavam, sendo imediatamente cremados pelos seus últimos partidários, provavelmente para não correr a mesma sorte. Sic transit gloria fasci.

MUSSOLINI, O OPORTUNISTA VIOLENTO, pelo viés do colaborador Osvaldo Coggiola*

*Coggiola é um intelectual e historiador. Possui graduação em História pela Universidade de Paris VIII (1977), graduação em Economia pela Universidade de Paris VIII (1979), especialização em História pela Universidade de Paris VIII (1979), mestrado em História pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais/França (1980), doutorado em História Comparada das Sociedades Contemporâneas pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais/França (1983) e pós-doutorado pela Universidade de São Paulo (1998). Atualmente é professor titular da Universidade de São Paulo (USP). Coggiola já foi entrevistado pela revista o Viés (leia aqui).

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