O FERIADO QUE OS ESTADUNIDENSES DECIDIRAM ESQUECER

Texto gentilmente cedido pela autora e pelo sítio onde foi originalmente publicado: Viomundo.

Era uma terça-feira de primavera em Chicago. Não sei se ventava muito. Provavelmente sim. Essa é a marca registrada da cidade. Naquela terça-feira, o ar estava carregado. O movimento sindical estava nas ruas com a luta pela jornada de oito horas. Hoje, é até difícil imaginar, mas ninguém trabalhava menos de 10 horas por dia. Folga uma vez por semana, férias remuneradas, aposentadoria? Só rindo! Pois a turma andava entusiasmada com os novos ventos, que sopravam possibilidades de mudança.

Uma greve geral na cidade, que teve início no dia 1º de Maio, mobilizava os trabalhadores. No dia 3 de Maio, quando eles iam de uma empresa a outra para convencer colegas a sairem às ruas e aderirem ao movimento, houve um embate com a polícia que deixou ao menos seis civis mortos. Em sinal de protesto, um novo encontro foi marcado para o dia seguinte no chamado Haymarket, um cruzamento onde as ruas se alargam. Os discursos foram feitos de cima de um vagão de carroça.

Dizem que quase duas mil pessoas apareceram, mas a chuva se encarregou de esvaziar o protesto. Quando algo entre duzentas ou seiscentas pessoas (depende de quem conta) ainda estavam reunidas, a polícia partiu para cima – mandou a turma se dispersar. De algum lugar, não se sabe até hoje de onde exatamente, uma bomba de dinamite foi lançada na direção dos policiais e atingiu em cheio o grupo. A resposta foi um ‘salve-se quem puder’. Tiros para todos os lados. Sete policiais mortos e muitos civis também. Quantos? Não se sabe. O número de mortos do lado dos grevistas nunca foi contabilizado. A identidade da pessoa que lançou a bomba também é, até hoje, uma incógnita. Os jornais da época foram rápidos na hora de incriminar. O New York Times, por exemplo, fala dos discursos explosivos dos anarquistas, dos grevistas bêbados e daí por diante. As autoridades da época rapidamente prenderam, julgaram e condenaram um grupo de suspeitos.

A polícia levou para a cadeia os líderes do movimento: anarquistas, comunistas e socialistas. Eram oito ao todo. Sete foram condenados à morte, um a quinze anos de cadeia. Mas dois tiveram a pena reduzida para prisão perpétua. Ou seja, cinco tinham data marcada com a forca. Porém, um deles se suicidou na cadeia. Os outros quatro foram enforcados. O julgamento foi tão fajuto, sem provas e cheio de acusações vazias, que, seis anos depois, o então governador de Illinois perdoou os três sobreviventes que ainda estavam presos.

Tudo isso aconteceu em 1886. No ano seguinte, contrariando todas as expectativas das autoridades, o movimento sindical estadunidense continuava firme e forte. E manteve a briga pela jornada de oito horas. Em 1889, quando o Congresso Socialista estava reunido em Paris, a Federação do Trabalho Americana (central sindical da época) sugeriu ao Congresso que adotasse uma luta mundial pela jornada de trabalho de oito horas. A ideia foi prontamente aceita e os socialistas decidiram, também, decretar o Primeiro de Maio como o Dia do Trabalho. E, já no ano seguinte, a data ganhou fama e foi celebrada, em vários países, com grandes manifestações populares.

A tradição se manteve e, hoje, mais de 80 países comemoram o primeiro dia de Maio. Por mais irônico que possa parecer, quem não celebra a data são os estadunidenses. O governo dos Estados Unidos temia que o 1º de Maio se tornasse motivo de passeatas, mobilizações etc. Por isso, rapidamente, criou o Labor Day, em setembro. E a luta pela jornada de oito horas continuou até a vitória, cinquenta e dois anos depois!

Fuçando a internet em busca dos detalhes de toda essa história, encontrei o depoimento de um rapaz que, na época, tinha apenas 20 anos, mas ocupou um lugar privilegiado no movimento. Foi encarregado de acompanhar o julgamento dos acusados pela morte dos policiais para fazer os desenhos que seriam publicados em um dos jornais de Chicago. Cinquenta e três anos mais tarde, ele escreveu um artigo que faz a ponte com o passado, com as paixões do momento, as distorções da imprensa e as manipulações das autoridades.

Art Youg trabalhava para o Daily News e contou como se falava, com frequência, nas provas contra os acusados. Que provas eram essas, ele nunca entendeu. Mas percebeu com clareza como eles foram rapidamente condenados, como mostra este trecho do relato:

Editores de jornais e homens públicos em geral clamaram por um rápido julgamento dos acusados e uma execução sumária dos culpados e havia toda razão para acreditar, de acordo com as notícias publicadas, que os acusados mereciam ser enforcados. A opinião pública era formada quase que exclusivamente pela imprensa diária e, em suas colunas, as provas se empilhavam contra estes agitadores dos trabalhadores. Parsons (Albert Parsons) tinha desaparecido na noite da bomba – a polícia do país inteiro estava procurando por ele; sua fuga não era confissão de culpa? Rudolph Schnaubelt também tinha sumido; ele foi detido duas vezes e interrogado brevemente, mas fora solto – e o Capitão Schaak estava furioso com a ‘estupidez’ dos detetives que o soltaram.

Schnaubelt fugiu do país. Mas Parsons, ativista conhecido e um dos que fizeram discurso no dia do massacre de Haymarket, entrou no tribunal durante o julgamento para se juntar aos acusados. Ele foi um dos quatro enforcados, em novembro de 1886. Art Young ficou impressionado:

Mas quando o julgamento começou, no dia 21 de junho, Albert Parsons entrou no tribunal e anunciou que queria ser julgado com seus companheiros, minha empatia balançou um pouco na outra direção. Ele estava escondido em Waukesha, Wisconsin, trabalhando como carpinteiro e vivendo na casa de Daniel Hoan, atual e por muitos anos ex-prefeito de Milwaukee. Se Parsons fosse culpado, pensei, ele não teria voltado; ele não precisava voltar; a polícia não conseguira encontrar pista alguma dele.

Art Young, já com mais de setenta anos ao escrever o artigo, terminou o relato se referindo à condenação e execução dos ativistas:

Eu era jovem e fui enganado pelo clamor de tantas vozes que se ergueram para justificar um feito obscuro.

Segundo testemunhas, antes do enforcamento, August Spies, um dos ativistas condenados, ainda gritou: “Virá o tempo em que nosso silêncio será mais poderoso do que as vozes que vocês estão estrangulando hoje!”

Bem, a estátua erguida em homenagem aos policias mortos no dia do Massacre de Haymarket não sobreviveu em praça pública. Depois de vandalizada e explodida mais de uma vez, foi recolhida ao Departamento de Polícia. Mas a estátua que representa o vagão de onde os ativistas fizeram seus discursos naquele dia está lá, na mesma esquina onde tudo aconteceu. 

O FERIADO QUE OS ESTADUNIDENSES DECIDIRAM ESQUECER, pelo viés da colaboradora Heloisa Villela*

*Villela é jornalista correspondente da Rede Record em Washington, nos EUA


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