HADDAD: O SAGRADO DIREITO DE SERMOS ENGANADOS [PARTE 1]

A ideia nada tem de revolucionária e esbarra em diversos problemas. A ideia é boa, mas não da forma como foi proposta.

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Fernando Haddad. Créditos: Wilson Dias, da ABr

Em meio às infindáveis promessas de campanha por parte de todos os – péssimos – candidatos à prefeitura de São Paulo, uma me chamou à atenção: A proposta de Haddad de criar um Bilhete Único Mensal.

Os petistas ficaram satisfeitos, entusiasmados, nunca antes na história desta cidade haviam pensado em algo tão revolucionário! Bem, ao menos tão interessante. Mas passa longe disso.

Vamos, por um instante, fingir que a juventude do PT e amplos setores partidários (inclusive vereadores como o José Américo e a Juliana) nunca participaram de nenhum protesto contra o aumento das tarifas (na casa dos absurdos 3 reais) e que ninguém do PT jamais participou, incentivou ou ouviu falar dos debates em torno do Passe Livre. Com esta lembrança de não nos lembrarmos destes pontos, sigamos adiante.

A ideia nada tem de revolucionária e esbarra em diversos problemas. Mas deixo claro que é óbvio que a *ideia* de um bilhete mensal é boa, mas não da forma como foi proposto.

Tido como uma forma de ajudar o trabalhador, não passa de farsa. A tese é a de que podemos carregar o bilhete por mês (ou semana e dia) com um valor pré-determinado e que, então, podemos andar no transporte público de forma ilimitada (provavelmente este “ilimitado” será semelhante ao das empresas de telecomunicações, cujas propagandas vendem ligações e internet ilimitada, mas sempre com alguma pegadinha. Será que sermeos jogados pra fora do ônibus quando o ilimitado chegar ao limite?).

Mas será que este ilimitado é tão bom assim?

Um trabalhador das classes mais baixas, que realmente necessita do transporte público (a classe média em geral prefere se aventurar por 3-4 horas em seus carros pagos à milhões de prestações por valores absurdos graças a impostos abusivos e lucros igualmetne ridículos, cujo governo se recusa a limitar, mas este é outro assunto), terá a oportunidade de, nos dias de semana, aproveitar para viajar de ônibus mais do que apenas para ir e voltar do trabalho.

Contando que ele more, por exemplo, no abandonado M’boi mirim, ele talvez consiga pegar um cinema em algum shopping há 50 quilômetros de sua casa depois de passar 3 horas em um ônibuss. A sessão da meia noite seria uma boa opção.

Claro que a falta de estrutura e de lazer nas periferias não é o problema que importa (ao menos nesta questão) a Haddad, ao PT ou a mãe joana. É problema do trabalhador se ele não consegue usufruir da maravilha do bilhete mensal nos dias de semana.

Aos domingos (e feriados) as vantagens do Bilhete Mensal ficam escondidas pelo fato de que, hoje, já se é possível andar por várias horas com uma só carga de bilhete (com uma só tarifa) por até 8 horas em 4 diferentes ônibus. A não ser que a ideia seja paregrinar pela cidade, não é de todo ruim.

Mas, contando que este trabalhador tenha folga aos sábados (muitos dos reles mortais das classes mais baixas trabalham aos sábados), aí sim poderá usufruir das incríveis vantagens do bilhete mensal. Ok, ponto para Haddad.

Mas vejamos quanto a brincadeira sairá para o trabalhador:

Ida e volta do trabalho = 6 reais
Ida e volta do trabalho 5 dia por semana -> 6×5=30 reais
Ida e volta do trabalho 5 dias por semana, por um mês (4 semanas) -> 30×4=120 reais
Bilhete proposto pelo Haddad = 150 reais. Realmente, uma IMENSA vantagem para o trabalhador. Detalhe, só pode andar de ônibus. Quem não quiser que se f*.

A diferença é de 30 reais. Voltemos aos cálculos:

São 20 dias úteis e 10 de fim-de-semana (esquecendo os feriados), mas no domingo você pode usar o bilhete único por 8 horas, logo, contemos como 5 dias em que o trabalhador precisa usar o bilhete para ida e volta (6 reais) e 5 dias em que precisa apenas uma vez (domingo, 3 reais), temos, então, 45 reais.

Basicamente, contando que o trabalhador saia TODOS os dias de fim-de-semana, ele terá feito a IMENSA economia de 15 reais. É ou não é um presentão? Se resolver descansar aos domingos, o trabalhador irá ter pago a MESMA coisa que pagaria sem o bilhete maravilhoso proposto pelo Menino Malufinho.

Mas lembre-se, tudo isto vale APENAS para os ônibus. Metrô é outro papo. Ou seja, se o trabalhador pegar um metrô e logo depois um ônibus, irá pagar MAIS pelo bilhete do Menino Malufinho que pelo que temos hoje, pois, sigam o raciocínio, se pegamos um metrô e depois um ônibus, pagamos a METADE do valor no ônibus. Com o projeto do Haddad, pagaremos a passagem inteira!

Mas está tudo bem, ele “acredita” na boa vontade do governo do estado para aderir ao seu mirabolante projeto.

Mas os problemas não acabam por aí e seguem em outro post.

Atualização:
Hadda agora fala em bilhete de 140 reais. Mas a lógica permanece a mesma. A diferença de 15, passa a 25 reais desde que o trabalhador saia TODOS os dias de casa. A tarifa abusiva de 3 reais permanece a mesma, a máfia permanece a mesma.

HADDAD: O SAGRADO DIREITO DE SERMOS ENGANADOS [PARTE 1], pelo viés do colaborador Raphael Tsavkko*

*Raphael Tsavkko é Jornalista, Mestrando em Comunicação (Cásper Líbero), Bacharel em Relações Internacionais (PUCSP) e blogueiro. Mantém o endereço Blog do Tsavkko – The Angry Brazilian, escreve (quase) semanalmente/mensalmente a coluna  “Defenderei a casa de meu pai” no portal anticapitalista Diário Liberdade, e autor e tradutor do portal Global Voices. Já colaborou diversas vezes com a revista o Viés, disponíveis aqui.

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