DEFENDER A ALEGRIA COMO UMA TRINCHEIRA

A opinião de quem buscou apoiar o festejo e viu uma polícia bater por um boneco da Coca-Cola.

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Defender la alegría como una trinchera
defenderla del escándalo y la rutina
de la miseria y los miserables
de las ausencias transitorias
y las definitivas

(trecho de “Defesa de la alegría”, de Mario Benedetti)


A revista o Viés traz agora um aglomerado opinativo. São frases [e alguns textos] de quem, junto a milhares de outros, resolveu expor sua indignação quanto à truculência policial, e também sobre o ato, ocorridos no Largo Glênio Peres em Porto Alegre.

O ato “Defesa Pública da Alegria”, marcado para ocorrer em frente à prefeitura de Porto Alegre na quinta-feira, 4 de outubro, teve seu início em meio a debates relevantes sobre a privatização que ocorre, neste momento, na capital gaúcha, de espaços públicos antes destinados ao lazer, à cultura e a muitas expressões culturais populares.

Após o protesto pacífico de centenas de pessoas alocadas na Praça Montevidéu, entre música, dança e alegria, um episódio sórdido fez com que a noite terminasse com sangue, literalmente. O ato “Defesa Pública da Alegria”, que ocorreu sem transtornos, conclamando a população a questionar a privatização de espaços públicos, transformou-se em um triste episódio ao fim da noite. Cerca de 20 guardas municipais resguardavam a entrada da prefeitura enquanto outros 19 faziam a defesa do [agora extinto] mascote da copa do mundo, um boneco inflável patrocinado pela Coca-Cola, que permanecia no Largo. Manifestantes saíram feridos, outros foram presos, e muitos voltaram para casa indignados com o que viram, ouviram ou vivenciaram. Abaixo, leia comentários sobre o fato, a opinião contundente de quem vê, tanto no ato pacífico, quanto no sucedido depois, amostras de que há um descontentamento em larga escala com as atitudes tomadas por governos, em parceria com o setor privado, que denigrem o povo e o afasta de seus espaços em comum. Se você escreveu ou quer escrever sobre o tema, envie-nos um email para colabore@revistaovies.comFrases que fortaleceram julgamentos preconceituosos não serão aceitas.

As fotografias são de Ramiro Furquim, do Sul21, e da Mídia Livre Fora do Eixo.

Durante a manifestação "Defesa Pública da Alegria". Foto: Mídia Livre Fora do Eixo

“A Defesa Pública da Alegria ocupou lindamente o centro de Porto Alegre ontem. A resposta veio em forma de violência policial contra os manifestantes, fazendo correr sangue em nome de uma política municipal de privatização, higienização e esvaziamento dos espaços de convívio. A pergunta que fica: que resposta a cidade dará na urnas nesse domingo?” (Atílio Alencar, Gestor do Fora do Eixo, uma rede colaborativa distribuída por todas as regiões do país. Vive e trabalha atualmente na Casa Fora do Eixo Porto Alegre).

“Tão triste ver o que a polícia com toda sua estratégia covarde de repressões sociais tem feito de nossa juventude, que ainda não consigo sistematizar alguma ideia na cabeça sobre o caso do maldito tatu e toda ideologia empresarial que carrega consigo. É de tamanha bestialidade a sequencia de fatos que ocorreu, que me resta, nesse momento, expressar uma tristeza, que abre uma lacuna enorme no coração dos que sonham e lutam por uma sociedade mais livre. Principalmente ao ver a foto de uma companheira, cujas mãos estão lavadas em sangue”. (Luciele Oliveira, militante do Levante Popular da Juventude,  estudante de jornalismo na UFSM).

Ativistas derrubam mascote da Copa do Mundo, no Largo Glênio Peres, e são violentamente reprimidos pela Brigada Militar. Foto: Ramiro Furquim/Sul21

“Amanheceu em Porto Alegre

Hoje pela manhã, não eram muitos os olhares que pareciam compreender o sumiço do balão-tatu-coca-cola-copa que habitava, espaçoso, o Largo Glênio Peres, no Centro da cidade de Porto Alegre.

Gostaria de dizer que não houve feridos ao final do dia de ontem, num desfecho violento da “Defesa Pública da Alegria” que ocupou pacificamente a Praça Montevidéu, em frente à Prefeitura Municipal, das 16h às 23h e 30min.

Foi uma tarde intensa de reflexão e questionamento coletivo, de escuta aos participantes do ato e mesmo a alguns passantes que paravam e, curiosos, buscavam saber qual motivo levava aquela gente a se mobilizar durante horas, enchendo o Chafariz da Montevidéu de cartazes e bicicletas, dividindo o direito à voz com um microfone livre, presenteando uns aos outros com música, dança, poesia ou com o simples convite à participação, à expressão, às trocas.

Foram muitas as falas vibrantes: sobre a incongruente política municipal de remoção, no lugar em que devia haver uma política de habitação, exemplificada pela situação dos (ex?)moradores da Chocolatão; sobre a privatização dos espaços públicos da cidade ou a “adoção’ desses espaços (vide auditório Araújo Viana ou o Largo Glênio Peres com seu balão-tatu-coca-cola-copa); sobre o “fechamento” da Cidade Baixa, reduto de bons encontros, reduto musical, cultural e boêmio da nossa cidade; sobre o encolhimento dos espaços públicos (vide o tamanho do tatu + novo chafariz do Largo Glênio Peres).

Ainda duas falas foram emocionantes. A primeira de uma senhora de 60 anos que fez questão de juntar-se à Defesa Pública da Alegria dizendo que não entendia o porquê de sermos vigiados por PMs e guardas municipais armados, deixando claro que sua única arma era sua voz e fazendo uso dela para dizer que não queria tatu nem chafariz, mas queria mais arte e mais alegria nas ruas, endossando a “coragem” e o “valor” dos artistas e demais presentes. Outro depoimento foi de um senhor que ficou bastante tempo parado, envolto por um mural de papelão, através do qual convidava o prefeito a levar seus filhos para jogar futebol no parquinho de seu bairro, mostrando fotos que mais lembravam um lago: o pedido era por um espaço mais convidativo e possível para as crianças e adolescentes de sua vizinhança.

Enquanto cantávamos, brincávamos, sorríamos, dançávamos e dávamos visibilidade a nossa insatisfação como moradores de Porto Alegre e, em coro, repudiávamos as remoções, a gestão atual na figura do prefeito e o balão-tatu-coca-cola-copa (que até tinha uma cara de Pokémon simpático), a guarda municipal se impacientava com o adiantado da hora e os PMs montavam guarda no Largo Glênio Peres, em frente ao tatu.

Pois bem. Quando falamos em ‘liberdade de expressão’, meus amigos, queremos realmente poder nos expressar. Não é o direito de gritar loucamente que queremos garantir. Queremos participar dos espaços públicos, de sua construção, de sua ocupação, de sua transformação! Não se trata de uma aparente participação na qual somos chamados a escolher um nome para o tatu, mas de podermos intervir quando mais de 50% do espaço público de circulação e palco de diversas expressões e eventos populares, é ocupado por tendas + chafariz + tatu, em um cenário interessantíssimo da nossa cidade.
Inconsequente o quanto possa ter sido o ato desarmado de alguns manifestantes que foram até o Largo, afastaram a barreira protetora e tombaram o balão-tatu-coca-cola-copa, meu corpo ainda tenta suportar a tensão causada pela violência daqueles que deveriam zelar pela segurança e preservar a vida!

A Brigada Militar, barreira do tatu, reprimiu, perseguiu, fez sangrar, atacou cegamente os manifestantes a base de pauladas, chutes, socos, bombas e tiros. Incoerentemente, preservavam a dignidade do balão-tatu-coca-cola-copa e não a da pessoa humana.
Num contraponto extremo à Defesa Pública da Alegria, gostaria de saber em nome de quê, em defesa de quê, exatamente, se deu a ação dos policiais que feriram ferozmente dezenas de pessoas.
O dia de ontem foi um dia de extravasar, de compartilhar nossas frustrações, de transformá-las em algo coletivamente potente, transformá-las em beleza, força, leveza.

Da próxima vez, se possível, pra variar, quem sabe, os homens de farda consigam dissolver também as suas frustrações tentando sorrisos! Prometemos retribuir com abraços! Seguimos na Defesa Pública da Alegria! Muito amor para todos!!!” Cicero Melo é morador de Porto Alegre, é ator e estava fazendo uma intervenção de clown durante a “Defesa Pública da Alegria”)

“Tem algo que não podemos negar, mesmo os que estão se posicionando contra a manifestação de ontem. Há algo de muito errado acontecendo. O povo está desgostoso, a polícia está violenta, e os governantes corruptos. Opa, mas espera um pouco, isso não é nenhuma novidade. Estamos no erro há muito tempo”. (Raíra Bohrer é aluna de Ciências Sociais na UFSM)

“A grande vítima nas manchetes de hoje é o tatu inflável. O resto é aceito com naturalidade. E os manifestantes? Ora, os manifestantes merecem ser saco de pancada da polícia mesmo. Há tempos eles dizem para nos resignarmos. Infelizmente, há quem ainda diga amém”. (Marlon Dias, estudante de Jornalismo na UFSM)

A fotografia da violência. Foto de Ramiro Furquim, do Sul21.

 

“O que aconteceu ontem à noite em Porto Alegre é o que acontece quando um governo de centro-esquerda chega ao poder sem o compromisso de transformar o Estado. Fazem-se mudanças específicas, tomam-se medidas progressistas (outras nem tanto), mas não muda-se a estrutura estatal, mantém-se o Estado burguês que é, por natureza, truculento, violento e anti-democrático.
Quem agrediu de todas as formas os manifestantes na noite de ontem foi a Guarda Municipal de Fortunati, mas foi também a Brigada Militar, cujo comandante maior é o governador Tarso Genro.

Aparentemente alguns manifestantes provocaram o confronto, sabiam que ele aconteceria com a polícia acuada em torno do boneco. Foi um erro grave, que custou a integridade física de várias pessoas. Sou a favor de derrubar o boneco, mas junta-se 50 pessoas, corre-se até o largo, derruba-se o boneco e acaba tudo bem. Não precisava ser feito justamente quando havia tantos policiais quanto manifestantes. Entendo o simbolismo da ação, mas colocou em risco não apenas a integridade física, mas a vida de todos que estavam ali.
Foi um erro.
Mas não justifica, de forma alguma, a ação da BM e da Guarda Municipal. É um modelo de policiamento herdado da Ditadura, e que mesmo os governos progressistas não mexem uma palha para modificar. A BM de Yeda matou o sem-terra Élton Brum, a BM de Tarso por pura sorte não matou ninguém na noite de ontem. A truculência, o militarismo e o desrespeito pelo ser humano continuam. E continuam porque o Estado não foi modificado, continua com preceitos e estruturas que em nada tem a ver com a alegria ou com a voz e os espaços compartilhados.
A privatização dos espaços públicos de Porto Alegre pela prefeitura de José Fortunati não é a raiz disso tudo, é apenas a tempestade que fez com que alguns ramos desse conflito se quebrassem ontem à noite. Mas uma tempestade que, assim como a árvore, pode ser evitada, e, assim como o boneco da Coca-Cola, pode ser derrubada”. (Alexandre Haubrich é jornalista e editor do blogue JornalismoB)

 “A Coca é só um símbolo e uma concretude de que os espaços públicos estão à venda. O que importa nas manifestações que estão ocorrendo: 1) organização, mobilização e articulação popular real em defesa da cidadania plena; 2) repúdio ao tipo de política municipal que sitia, coloca toque de recolher e proíbe manifestações públicas e artísticas em locais públicos (lei deste ano); 3) atitude inteligente é unir as pessoas na rua: ontem o microfone estava aberto e pessoas de diferentes locais, classes sociais falando de sua insatisfação com a higienização da cidade enquanto as necessidades básicas de moradia, saúde, educação e cultura estão sendo postos de lado. Absurdo é a imagem da polícia defendendo um pedaço de plástico”. (Do perfil da “Defesa Pública da Alegria” no facebook).

“Repressão policial: vai se foder esses porco filho da puta que só agem na covardia, e ainda creem que o povo tem que baixar a guarda pare eles. Eles não conversam, não há dialogo, somente covardia. Ao invés de nos proteger, eles nos agridem! Não é preciso amor pra gerar uma vida, mas a falta desse amor muitas vezes nos leva à morte, as histórias são sempre as mesmas por aqui. Quem morreu ontem ou quem foi jurado pra cair? Quem só se esconde ou quem achou um lado pra trair? Para de ver as imagens, lê as noticias. Depois me diz: quem tá errado? Ladrão ou policia? Depois me diz quem é culpado: quem mata ou quem morre? Depois me diz quem é safado: o que ataca ou o que corre?” (sou Letícia Prates, tenho 16 anos e faço parte do Co-rap, Coletivo de Resistência Artística Periférica. E sou protestante, e recebi essa informação do ocorrido ontem em Porto Alegre através dos meus companheiros do coletivo, e assim como qualquer pessoa que é contra qualquer tipo de agressão eu fiquei indignada e compartilhei para que outras pessoas pudessem ver o ato dos policiais, a COVARDIA deles).

“Não esqueçam, por favor, que o trabalho da polícia é usar da violência. E, assim como nós, quando em uma situação de tensão, só basta que um deles, ou dos nossos, tome uma atitude errada para que dê merda. A gloriosa infantaria brasileira está voltando a treinar seus cassetetes. Por favor, evitem confronto direto. Não se deixem levar pela adrenalina. Não estou na cidade mas me preocupa ver rostos amigos nessa situação. Responder com só vai aumentar a violência da polícia, que é o braço armado de uma classe de dirigentes corruptos.
Escrevo isso tudo em solidariedade aos que vão agir em resposta a ações truculentas. É a coisa certa a fazer. Mas, por favor, não assumam o papel de inimigos do estado, por mais que vocês, e eu e nós, sejamos isso. Assumir uma postura de combate e não dialogo é assumir que o único caminho possível é de sangue. É justamente aceitar o papel que o jornal do almoço quer que a gente assuma, para invalidar nossos atos e palavras frente a classe média dormente e o povo em geral.
Sorte, coragem e força. Tempos negros se aproximam. A máscara da democracia representativa caiu, e ela está cravando as esporas. Cuidado, meus amigos. (João Kowacs é escritor e agente social. Reside em São Paulo e apoia as ocupações).

Fica aqui meu protesto, no sétimo dia, pelas muitas falas que criminalizaram as vítimas inocentes que resultaram da chamada Batalha do Tatu. O encontro desastroso entre uma polícia despreparada e os interesses eleitoreiros das mais diversas forças, inclusive e principalmente pela força que está no controle da prefeitura, resultou num banho de sangue e numa polêmica que tem colocado os cidadãos envolvidos uns contra os outros: como e por que a manifestação deixou de ser na Praça Montevidéu, conforme o que foi combinado pelas mais de 1600 pessoas que o organizaram e o realizaram tendo como único princípio a alegria? E vejam que eu digo manifestação, não ato como muitos estão a chamar, inclusive eu que usei essa expressão algumas vezes, nos debates, talvez por assimilação. E se chamo assim é por que foi isto: uma manifestação artística-política-cultural. E é assim que sempre me lembrarei daquele momento.

Sem ter a resposta para esse COMO e esse POR QUE, eu me sinto, talvez, como as pessoas que não podem enterrar seus mortos. Para mim, o momento em que essa decisão foi tomada pode ser considerado o momento do óbito da alegria. Há uma semana que perambulo entre gritos e gemidos, e ninguém pode me dar a resposta que fechará o meu luto.

Sei que muitos dos meus queridos amigos e colegas da universidade, companheiros na luta diária por uma educação inclusiva, ficaram chateados comigo pelas posições que tenha defendido. Entendo, pois sei o quanto vocês sofreram com toda aquela violência. Agradeço, e não esperava outra coisa porque conheço vocês, pela postura de respeito que tiveram comigo mesmo não concordando com a minha posição. Sei também que pelo mesmo fato, o de me conhecerem, é que tiveram essa postura. No más, vocês sabem que o que sempre podem esperar de mim é coerência e parceria na luta pela educação.

Hoje, enquanto estiverem no Largo Glênio Peres, eu farei um ritual de fechamento do meu luto pela Alegria, pois não posso encontrar a materialidade que o faça. E estarei também pensando em vocês e desejando que tudo corra bem. Uns, certamente, chamarão isso de acomodação. Eu chamo isso de protesto. A única causa da minha vida é a não-manipulação das vontades. (Rose Rolim)

DEFENDER A ALEGRIA COMO UMA TRINCHEIRA, pelo viés de Atílio Alencar, Luciele Oliveira, Cicero Melo, Raíra Bohrer, Marlon Dias, Alexandre Haubrich, “Defesa Pública da Alegria”, Letícia Prates, João Kowacs e Rose Rolim.

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