O ESPARTILHO DO SÉCULO XXI

Até onde vai a opressão? Do “Rodeio das Gordas” ao “Manual do Calouro”, as opressões no ambiente universitário.

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A sociedade cria espaços e, neles, recria seus inventos; estuda seus próprios costumes, analisa conceitos adventícios ao habitual àquele ambiente, cunha ideias, e desenvolve opiniões, sempre refletida em importâncias relativas ao subjetivo e ao objetivo dos seres que a constituem. A sociedade institui a universidade e necessita dela. O mundo acadêmico insere-se como propulsor do debate sobre as relações humanas, assim como a própria academia deve ser discutida. A academia é a sequência do homem e, assim, é movida por arquétipos pré-estabelecidos de seus pertencentes.

Contudo, ressalvemos: o ambiente de ensino, mesmo que delegadas estruturas físicas e imateriais para a concepção de tal, não é um mundo à parte. Tida como espaço de produção de conhecimento, a universidade é considerada, no cerne primordial, local de discussão e de pensamento crítico. Esse universo, por vezes cerrado entre fronteiras físicas, não está afastado da coletividade social, embora, por engano, seja adotado – em certas circunstâncias – como um nicho totalmente autônomo e independente de reflexos sociais.

A universidade, como sequência de seus integrantes – funcionários, professores e alunos – reproduz nossas particularidades na essência da coexistência e do raciocínio humano em grupo. Não obstante, discriminações e julgamentos preconceituosos, enraizados em parte dos atores sociais atravessam as fronteiras entre a cidade e a universidade, a rua e a sala de aula. Como consequência, dentro das instituições de ensino, as opressões violentas e repressivas apresentam-se como “do lado de fora”. Assim como nas relações humanas apresentadas fora dos muros da academia, o caos também se apresenta dentro da sala de aula.

Na instituição do conhecimento, opressores e oprimidos revelam-se e eles são, em sua maioria, portadores e transmissores de conceitos e julgamentos deléveis estabelecidos, há algum tempo, na sociedade. Isso, fruto do incógnito, do convencionalismo e dos ajuizamentos que a história mostra ser antiga e que a atualidade demonstra estar ainda enraizados em parte dos homens. Homens jovens, comprovantes da sequência das variadas culturas, da busca pela emancipação intelectual e cultural da sociedade, até os submissos à miserabilidade do conservadorismo. Esse “ambiente de sabedoria”, preservado no imaginário e travestido de láureas e prestígio, deixa de ser, por completo, um dos motores para a reforma da sociedade.

Os elaboradores da opressão estão fundamentados em julgamentos arcaicos e preconceituosos estabelecidos na sociedade há muito tempo. O estudo “Gênero, Sexualidade e Educação”, da Doutora em Educação e Professora Titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Guacira Lopes Louro, corrobora que “o processo de ‘fabricação’ dos sujeitos é continuado e geralmente muito sutil, quase imperceptível”. Fruto do incógnito e do convencionalismo, o repúdio social doentio estabelece a face das opressões psicológicas e/ou físicas. O filósofo e educador Paulo Freire exibe-nos a desumanização dos oprimidos não como destino – sociopolítico ou econômico – mas claramente como resultado de uma resolução injusta [e enraizada no imaginário de alguns] que gera a violência por parte dos opressores. Não é a situação do homem que o fará oprimido, mas sim o juízo ilusório do opressor sobre seus rejeitados. A opressão é a forma que a classe dominante encontra para evitar que a classe trabalhadora emancipe-se, continuando, assim, a dominá-la ideologicamente.

Ao mudar a relação da mulher frente o machismo, cria-se a ideia de que, aos poucos, a igualdade de gêneros começaria a trazer profundas transformações ao cotidiano. Entretanto, por jogos camuflados impetrados por todos aqueles que se sentem ameaçados por essas mudanças, a sociedade estabeleceu erroneamente a opinião sobre o que seria a luta de gêneros contra o machismo e o sexismo machista. O grande erro foi estabelecer que o oposto ao machismo seria o feminismo. “As mulheres com as axilas sem depilar, feias, sujas e sapatonas”, criava o fantasioso popular. Quer dizer, a ideia era uma corroboração do machismo: para serem mais fortes, tinham que se parecer com homens.

O feminismo não é a busca pela imposição do gênero feminino, pela tomada das atividades e do poder dos homens como uma guerra entre vencedores e perdedores. “Esta luta só tem sentido quando o ser menos, o gênero oprimido [grifo nosso], ao buscar sua humanidade, não se sinta também um opressor, mas sim um reconquistador da humanidade em ambos (ser mais e ser menos); sendo aqui a grande tarefa humanista e histórica dos oprimidos, se libertar a si e aos opressores”, escreveu Freire.

A concepção de uma dicotomia sexual nas relações cotidianas é a tarefa mais árdua a ser alcançada, e esta é a essência da manifestação popular de igualdade de gêneros. Esses reflexos podem ser vistos, semestralmente, no período de recepção dos calouros das universidades, os chamados trotes. A prática surge nas primeiras universidades, ainda na Idade Média.

Os universitários mais antigos recebiam os calouros, os quais tinham seus cabelos e pelos cortados e, ainda, eram obrigados a beber urina, comer excrementos e a masturbar seus veteranos. A própria etimologia do termo “trote” remete ao andar do cavalo. A troteada é mais rápida que seu passo e mais lenta que seu galope. O movimento é aprendido pelo animal após ser duramente chicoteado, significando, então, que os “bixos” eram educados por seus veteranos. O neologismo “bixos” também carrega, em si, uma origem de opressão. A grafia com “x” relaciona-se à marca feita nos rebanhos: os calouros estão marcados pelos seus veteranos, sendo considerados mais do que um animal, porém menos do que um ser humano. Nesse contexto, as minorias históricas, como as mulheres, os negros e os homossexuais, acabam sendo o grupo que mais sofre com a garra da opressão.

Um expoente claro da reprodução da opressão de gênero é o “Manual do Calouro”, produzido por alunos de Direito da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que compõem o chamado Partido Democrático Universitário, no início do ano letivo de 2012. Dentre as brincadeiras, o manual prevê o comportamento que um calouro deve ter em relação a situações de integração com seus veteranos.

Nelas, está explícita a tentativa de legitimação e a naturalização de condutas machistas dentro do ambiente universitário. As piadas provocativas, as quais debocham da constituição brasileira, colocam a mulher como um ser subordinado às vontades do homem. É nítida a discriminação com que as meninas são tratadas no trecho retirado do manual. “A garota foi com você ao quarto, prometendo mundos e fundos (principalmente fundos), mas o máximo que você conseguiu foi um beijo: Código Civil, art. 233- obrigação de dar: ‘A obrigação de dar coisa certa abrange os acessórios dela embora não mencionados (…)’”.

Outro fragmento que reforça a obrigação de transar a qual é deferida à mulher: “ela prometeu e não cumpriu. Disse ‘vamos com calma’: art.252,§ 1º Código Civil: ‘Não pode o devedor obrigar o credor a receber parte em uma prestação e parte em outra’. Ela vai ter que dar tudo de uma vez!”.

Nestes trechos, é possível perceber a posição da mulher, não como um indivíduo, mas como um objeto sexual que deve sujeitar-se à cobiça masculina, independentemente da sua ontade.

Esta concepção, da mulher enquanto uma coisa, é uma cicatriz histórica de nossa sociedade, sustentada cultural e ideologicamente pelo machismo. O manual é claro: quem manda é o homem; à mulher, cabe apenas a obediência.

Segundo a lógica do senso comum, se a menina não professa os padrões impostos de beleza, estuprá-la é dar-lhe uma oportunidade; se ela usa roupa curta ou bebe demais em uma festa, praticamente “pediu” para que o estupro ocorresse e, cometer o ato é considerado direito do homem.

A obrigação de transar, além de ser uma prática agressiva à dignidade feminina, incita o estupro, com pena de, no mínimo, seis anos.  O manual naturaliza e ridiculariza a violação do corpo da mulher e o atentado contra a sua livre sexualidade, além de culpá-la. O estupro é um crime hediondo que, segundo dados Conselho Estadual de Direitos da Mulher – RJ, acontece a cada 12 segundos com uma mulher no Brasil – isso sem contabilizar os casos que não são denunciados, pois apenas 10% dos casos de abuso sexual chegam às delegacias, por medo ou vergonha das vítimas.

A “obrigação de dar”, no entanto, não é a única forma de humilhação e depreciação da mulher dentro da universidade. Há ainda os “desfiles das bixetes”, nos quais as calouras apresentam-se em uma passarela a fim de que seus veteranos “apreciem sua beleza”. Essas insinuações sexuais, as quais as novatas são obrigadas a perpetrar nos trotes, também são exemplos que confirmam a concepção de que a universidade reproduz e propaga – em vez de evitar – paradigmas incrustados socialmente.

A recepção dos novatos através do trote não é o único espaço de discriminação encontrado nas universidades. Um caso bastante veiculado pela mídia, que serve como outro exemplo de opressão e avaliação do homem sobre a aparência feminina, é o ocorrido com a estudante de turismo da Universidade Bandeirante (Uniban), Geisy Arruda.

A estudante, na ocasião, foi hostilizada e ameaçada de estupro por mais de 600 colegas por usar um vestido curto em sala de aula, tendo, inclusive, que ser escoltada pela Polícia Militar para sair em segurança de um dos prédios da faculdade. Na ocasião, a reitoria da Uniban expulsou a estudante, mas, após pressão da opinião pública, readmitiu-a.

Percebe-se que é imposta uma classificação machista sob as mulheres: as chamadas “vagabundas”, que serviriam, apenas, para serem usadas e descartadas, e as “santas”, avaliadas como as ideais para casar. Ambos os estereótipos colocam a mulher na obrigação de aceitar os julgamentos masculinos. Já àquelas que não se enquadram nos padrões de beleza, cabe um terceiro papel: o da ridicularização.

O “Rodeio das gordas”, praticado em alguns jogos universitários, confirma a depreciação da imagem de meninas obesas, através do que alguns estudantes julgavam ser só uma brincadeira. Esse campeonato consiste em pular nas costas da mulher e se manter lá por 8 segundos, como se faz em rodeios com touros. Casos como esse ocorrem devido à ditadura da beleza, imposta por uma sociedade machista. O que intuímos nesses dois últimos casos acontece em diversos espaços públicos: o papel da mulher é determinado de acordo com sua aparência. Parece que, para ser valorizada, a mulher deve, primeiramente, corresponder a um ideal estético referido a um modelo de feminilidade, determinando uma situação de subordinação aos desejos e caprichos masculinos.

 Se há mulheres, hoje, na universidade, é porque as que vieram antes reivindicaram – bravamente – o direito à educação e representam hoje 55% do universo acadêmico. Porém, apesar desse número, o machismo ainda deixa suas escarras no ambiente universitário e coloca as mulheres enquanto meras figurantes na esfera pública e social.

Ainda existe o desafio de se romper com a discriminação e os dogmas preconceituosos, os quais não reconhecem as mulheres enquanto protagonistas em pé de igualdade com os homens, no que se refere à produção de conhecimento científico, cultural, crítico e reflexivo. Ao contrário do que muito se propaga, mulheres não são apenas corpos que enfeitam e divertem os homens no ambiente universitário.

O ESPARTILHO DO SÉCULO XXI, pelo viés de Bibiano Girard, Carolina Barin e Letícia Fontoura.

* Carolina é estudante de Jornalismo e militante do Rompendo Amarras.

**Letícia é estudante do 6º semestre de Jornalismo na UFSM.

Texto originalmente publicado na revista laboratório Fora de Pauta. 

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