RIO NA PANELA DE PRESSÃO

Depois que a panela destampou, está cada vez mais difícil controlar o caldo.

A+ A-

“O terceiro mundo vai explodir!”

Esta é apenas uma das falas de “O bandido da luz vermelha”, de Rogério Sganzerla. O filme de 1968 retrata o subdesenvolvimento como uma experiência fragmentária e disparatada, à beira do abismo. Esquivando-se da cultura das vanguardas da época, incluindo aí o cinemanovismo de um Gláuber, “O bandido da luz vermelha” recusa mensagens programáticas para apresentar os trópicos simplesmente como uma bomba relógio. Em vez das contradições internas à formulação de um espaço nacional, nas tensões entre desenvolvimento e emancipação; o cineasta prefere expor a impossibilidade congênita de um Brasil à imagem e semelhança do colonizador (o Estado, o capital, a modernidade). Rejeita, assim, qualquer “Novo Pacto” selado entre as forças populares e a burguesia pátria, por intermediação das esquerdas, bem ao gosto dos mitos civilizatórios do “nacional-popular”.

Diferente disso, Sganzerla oferece em chave oswaldiana a ironia pop, o deboche inteligente contra um Grande Projeto que, ao fim e ao cabo, favorece apenas as elites colonizadoras e colonizadas. No filme, o beco sem saída e a catástrofe não induzem a pessimismos, mas à percepção paradoxal que a única saída do subdesenvolvimento é pelo próprio subdesenvolvimento. É agindo e avacalhando como subdesenvolvido. A inaptidão para o progresso acontece sem nostalgias de uma identidade anterior, de um passado resgatável. À época, o filme não coube em nenhum escaninho, à esquerda ou à direita, extemporâneo.

Hoje, quando matilhas vestidas amorosamente de preto parecem saídas diretamente dos quadrinhos para as ruas, a profecia sganzerliana se confirma. A ação escapa da apreensão civilizada das esquerdas, ainda sem entender nada, entendendo apenas que algo de muito novo sucede – algo que elas não entendem. Em 2013, o Rio explodiu. Saiu dos gonzos o Grande Projeto. Errou quem achava que, com o crescimento econômico e as políticas sociais, em meio à Copa e Olimpíadas, as pessoas se acomodariam politicamente. Foi o contrário. A nova composição social crescida nos últimos 10 anos qualificou o lugar e o tempo das lutas, multiplicando coletivos, assembleias e territórios de organização. Quanto mais as pessoas conquistam e ganham, mais querem, qualificando-se, autovalorizando e expandindo as capacidades produtivas.

Os governos e uma esquerda cujo discurso já era obsoleto em 1968 agora se espantam, atordoadas, mas o monstro que ninaram já havia fugido há anos do laboratório. Os sintomas eram vários, cada vez mais frequentes: pequenas revoltas contra megaobras, remoções urbanas, supervalorização imobiliária, choques de ordem, internações compulsórias e a sempiterna matança de negro e índio, em prol do progresso. O movimento ganhou escala com a pauta dos transportes e na visibilidade da Copa das Confederações, na mais quente festa junina do país. Bateu às portas do Novo Rio, de fato, o futuro. Mas ele não tem nada a ver com o progresso pacífico e pacificador sonhado por essa burguesia/esquerda nacionais e seu “compromisso histórico”.

Passagem do filme "O bandido da luz vermelha", de 1968. Foto: Banco de Conteúdos Culturais

Os descontentes não cansam de repetir que as manifestações voltaram à estaca zero. Repetem inutilmente. Os protestos já deram uma longa volta, transmitindo impulsos, indignações e um sonoro gesto de convocação à mobilização política e produtiva. Eles configuram um autêntico ciclo, com efeitos de curto e longo prazo.  Só quem está isolado em casa assistindo à grande imprensa pode cultivar a impressão que só uma minoria baderneira segue mobilizada. Se a mídia corporativa se ressente de não conseguir pautar os protestos pelo “combate à corrupção” e o visual cara-pintada (o que vingou foi o mascarado de preto contra o Estado e o capital…), o PT, a seu passo, centralizou o entendimento de que os protestos se resumem a grupelhos irresponsáveis com traços fascistas. Sem fundamento nem propósito, teriam como único rendimento imaginável desestabilizar os seus próprios governos e dos aliados, provavelmente sob manipulação da direita golpista.

Quem diria a esquerda inventar suas próprias Reginas Duartes! Temerosas de fantasmas de lençol, para reforçar a criminalização das lutas.

Com os desdobramentos de agosto, a convergência criminalizante de direita e esquerda consolidou a teoria do “bando de malucos quebrando tudo”. Presente em todos os noticiários, colunas opinativas e falas de intelectuais orgânicos, não serviu somente para forjar um senso comum, de cuja adesão a população é moralmente cobrada; como também para acionar as engrenagens do poder punitivo, de que a mídia historicamente participa. Além de toda a brutalidade policial nas ruas, imensurável em relação aos danos mínimos causados por manifestantes contra vidraças e muros brancos, se multiplicaram as prisões fundamentadas no vácuo, as intimações por opiniões postadas no Facebook, a proibição geral de máscaras e mesmo ameaças diretas a ativistas. Uma das perseguidas por sua participação nos blacks bloc está em virtual condição de exílio na Argentina, cogitando solicitar asilo político. Isso sem falar na sistemática espionagem das conversas e interações em redes sociais e telefones, no que ainda pode ser o Watergate brasileiro.

Depois que a panela destampou, está cada vez mais difícil controlar o caldo. No 7 de setembro do Rio, a passeata do grito dos excluídos conseguiu juntar os movimentos tradicionais com grupos e dinâmicas brotadas na esteira das manifestações. Talvez, pela primeira vez, se puderam ver os tradicionais carros-de-som e bandeiras, lado a lado com a tática black bloc, as máscaras Anonymous e as muitas mídias ninjas (sobretudo as “genéricas” e não a institucional). A tenacidade em manter-se na luta, em franco enfrentamento, apesar de uma violência e perseguição crescentes é sem dúvida um dado novo. Os grupos de ação direta continuam se organizando e ampliando as redes nos entreatos. Simultaneamente, a condição do transporte coletivo produz revoltas frequentes, às vezes muito fortes, como os tumultos nos trens em 10 e 11 de setembro. Enquanto isso continua a greve de professores da rede estadual, contagiando nos últimos dias os funcionários dos Correios. Tudo isso, com potencial para rapidamente miscigenar e alastrar-se.

Algo de muito sólido na percepção do novo Rio desmanchou no ar cheio de lacrimogênio. As certezas eleitorais estão em pedaços. As promessas redentoras dos megaeventos não convencem mais. Ninguém mais aceita uma pacificação baseada na paz do medo. A imagem da ascensão gloriosa a cidade do primeiro mundo não resistiu a junho e soa falsa, postiça. Sem perder tempo, em meio à perplexidade, partidos e movimentos organizados buscam reconstruir as bases, o discurso e as técnicas de governança, em um cenário ainda imprevisível. Mas as apostas ainda estão na mesa.

Além dos efeitos de superfície, um quê da cordialidade brasileira também foi pelos ares. Uma mudança na dimensão dos gestos. Os fascismos foram forçados a sair do armário, foram obrigados a descer o morro e ocupar os telejornais. A criminalização dos movimentos não é mais assunto só para o “gueto” dos direitos humanos, mas uma pauta incontornável e que positivamente divide a sociedade. O poder está custando caro para quem pretende continuar exercendo-o sem concessões. Ao redor da violência, esse assunto tão polêmico, gira a disputa simbólica e real. Nesse cenário, quem nivela toda a violência na mesma rubrica perde de vista a seletividade racial, de gênero, de orientação política, e trabalha a favor da repressão pacificadora.

Em 2013, a poeira debaixo do tapete acabou por levantar o tapete, despindo a dominação de seu discreto charme e sua altiva soberba. O tic tac de Sganzerla, pelo menos no Rio, vai continuar perturbando. 

RIO NA PANELA DE PRESSÃO, pelo viés do colaborador Bruno Cava*

*Bruno é autor do site Quadrado dos Loucos.

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Print this pageEmail this to someone