NO PALCO COM IGGY POP

Gabriel esteve no show de Iggy & The Stooges no Planeta Terra e conta como foi assistir a este espetáculo da plateia – e, de quebra, subir ao palco e apertar a mão da maior lenda viva do Punk. O início O relógio marcava 00:03 quando o baterista Scott Asheton, o baixista Mike Watt, o […]

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Gabriel esteve no show de Iggy & The Stooges no Planeta Terra e conta como foi assistir a este espetáculo da plateia – e, de quebra, subir ao palco e apertar a mão da maior lenda viva do Punk.

O início

O relógio marcava 00:03 quando o baterista Scott Asheton, o baixista Mike Watt, o saxofonista Steve Mackay e o guitarrista James Williamson subiram ao palco Sonora Main Stage, do Planeta Terra 2009, montado no enorme espaço de entrada do Parque de Diversões paulistano Playcenter, na Barra Funda. Do lado direito, uma grande área vip abrigava jornalistas e personalidades que esporadicamente eram entrevistadas pela equipe jornalística do Terra e mostradas nos telões espalhados pelo festival. Em frente ao palco, centenas de fãs se amontoavam e se empurravam tentando chegar mais perto da grade que separava o chiqueirinho dos fotógrafos do espaço destinado a platéia. Uma chuva fina caía na cidade – nada que desanimasse os roqueiros que presenciavam o evento.

A entrada dos integrantes despertou no público um burburinho de excitação para o que viria a acontecer. Faltava o convidado mais ilustre da noite, a lenda viva do punk, Iggy Pop. O cantor entra vestindo apenas uma calça preta e botas, deixa à mostra a barriga um tanto quanto flácida, mas nada mal pra um senhor de 60 anos. Enquanto a banda toca as primeiras notas de Raw Power, Iggy anda de um jeito peculiar até o microfone, que segura enquanto faz movimentos frenéticos com os quadris, e canta os primeiros versos do clássico, que batiza o terceiro e mais pesado disco do grupo. Outra atração especial da noite é a volta de James Williamson, que não tocava com os Stooges desde a dissolução do grupo , em 1974. O guitarrista não participara da reunião da banda em 2003, e retorna agora para substituir o também lendário Ron Asheton, falecido em janeiro deste ano. Williamson é voraz. Sua guitarra é pesada e seus riffs, contínuos, diferente da clássica wah-wah de Asheton, mas não menos boa.

Iggy está com tudo. Ao final da primeira música, talvez confundindo o português com o idioma italiano (onde usa-se a mesma saudação para o cumprimento de encontro e despedida), diz um “Tchau Paulistas”. Sem pausas, a banda engata na seqüência Kill City, música que também nomeia o disco feito em dupla por Iggy e Williamson em 1975. Mal a música acaba, a banda segue com Search and Destroy, outro clássico lendário de Raw Power. A plateia está atônita, pula, ergue os braços. Iggy corre e se agita pelo palco. Jovens com idade três vezes menor que a de Iggy olham perplexos enquanto entoam os versos do refrão.

Um jovem pula para o chiqueirinho dos fotógrafos, que divide a platéia do palco, e prontamente é agarrado por um segurança que tenta devolvê-lo para a platéia. Outro segurança vê e agarra o garoto de volta para o chiqueirinho. Logo se juntam quatro outros seguranças, totalizando seis, que dão pontapés e, de maneira excessivamente bruta, retiram o garoto do palco pela lateral. Era só a primeira prova da violência desnecessária que os seguranças iriam praticar até o final do show. Iggy vê a cena e ainda cantando se indigna, aponta para os seguranças e diz um “let him off” que é ignorado.

A banda dá seqüência ao show com Gimme Danger, também de Raw Power, e Cock in My Pocket, música dos Stooges presente apenas no álbum Metallic KO, um disco ao vivo não-oficial que contém diversas músicas que provavelmente originariam um quarto álbum da banda antes de sua dissolução: quarto álbum este que acabou sendo The Weirdness, de 2005, com músicas totalmente novas e sem James Williamson no grupo. O álbum não fez muito sucesso entre público e crítica – talvez este seja mais um dos motivos da banda não ter executado nenhuma música deste durante o show.

“Just a few guys”

É então que Iggy convoca as pessoas para subirem ao palco, tomando o cuidado de dizer para subirem “apenas alguns caras”.  A chamada surte efeito, mas o aviso não. Aos poucos os fãs vão subindo.

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“Just a few guys”: Será que alguém obedeceria?

Estou próximo à grade do público, frontal ao palco. Pessoas me empurram para tentar subir e outros incentivam e ajudam os corajosos que se arriscam. Meu amigo resolve subir. Com minha ajuda e a de outros fãs que estão na mesma área, ele consegue passar a grade e ir em direção ao palco. A banda toca o início de Shake Appeal. Uma atmosfera de caos, rebeldia e êxtase toma conta do concerto. Os fãs que chegam primeiro ao palco pulam, dançam e tentam chegar perto de Iggy, nesta hora cercado por dois seguranças. Resolvo ir também. Me apoio em fãs que estão ao lado e consigo aos poucos transpassar a grade e cair meio de lado no chão do chiqueirinho. Iggy tenta cantar a música, mas já são tantas pessoas que ele mal consegue segurar o microfone. Os seguranças ajudam e Iggy se recompõe e recomeça a cantar. Corro até a escada que leva ao palco. Seguranças bloqueiam a entrada e tentam evitar com que mais pessoas subam. Neste momento, já são diversos fãs por ali. Algumas poucas garotas se arriscam na aventura. Vejo fãs subindo pelas caixas de som do lado direito. Corro até lá e vejo um segurança tirar uma das caixas que serviam como escada para o palco. Consigo pular até uma caixa de som maior, apoiar o pé e encostar a mão na beira do palco. Fãs de cima ajudam os de baixo a subir. Finalmente estou em cima. Olho para a multidão na platéia. Dezenas de jovens dançam e pulam no palco. Vou até o baixista Mike Watt e agito os punhos, demonstrando estar realmente gostando daquilo. Ele se anima, faz uma cara de êxtase e se agita enquanto toca. Vou até o baterista Scott Asheton e o chamo. Ele continua tocando com seu boné e óculos escuros e não me dá a mínima. Ia pedir uma baqueta, mas desisto. Percebo que o guitarrista James Williamson foi para o fundo do palco e toca protegido por seguranças. Iggy canta a música enquanto diz várias vezes “thank you” e literalmente abençoa os paulistas com um “bless you”.

Decido que preciso ir até Iggy. Quase que irracionalmente corro na direção de onde a voz surge. Não consigo vê-lo pelo número de pessoas que estão em sua volta. Abro caminho no meio da multidão do palco com empurrões e desvios de ombro e logo estou perto de Iggy. Tudo isso dura poucos segundos. Me sinto nervoso e emocionado. Vou até Iggy, onde seu segurança pessoal faz uma barreira humana para que ele consiga cantar sem ser constantemente abraçado e ter o microfone arrancado de suas mãos. Alguns jovens tentam se aproximar a todo custo. Estico minha mão para Iggy para cumprimentá-lo. Ele retribui o aperto de mão e me arrepio. Estou apertando a mão de uma lenda viva do rock. Estou apertando a mão do cara que rolou sobre cacos de vidro e andou sobre as mãos da plateia lambuzado de manteiga de amendoim no lendário show de Cincinnati em 1970. Hesito em soltar sua mão. O segurança afasta meu braço e solto. Estou extremamente feliz. Pulo do palco em direção a escada comemorando e agitando minha camiseta preta e antiga com uma foto de Iggy e o logo dos Stooges. Pulo no chão e tento voltar para a platéia.

Fãs invadem o palco e se aproximam de Iggy - Foto: Lucas Lima/ UOL

O troféu: registraram o aperto de mão. [ Foto: Lucas Lima/UOL ]

Os seguranças distribuem sopapos e carregam os invasores pra fora com rispidez. Querem esvaziar o palco e abusam da truculência e do excesso de força. Tento voltar para meu lugar antigo, mas é impossível. Corro até o lado direito da grade, um pouco mais afastado de onde eu estava, mas ainda perto do palco. Os fãs me ajudam a voltar, sob meus argumentos de que se continuasse ali acabaria apanhando dos seguranças. A música rola a toda no palco enquanto alguns fãs saem por conta própria. O palco vai se esvaziando aos poucos. A música se acaba e o saxofonista faz um solo enquanto os últimos fãs são retirados. Iggy pergunta se pode seguir em frente “como uma sex machine”, parafraseando James Brown. É então que um jovem cabeludo chega perto de Iggy, o agarra e beija. Instantaneamente diversos seguranças o separam de Iggy, e o garoto cai desmaiado. (Mais tarde, em uma comunidade do Orkut, descobri que o jovem desmaiara por fingimento, para não apanhar dos brutos seguranças).

Finalmente a multidão é controlada. A coisa toda dura menos de dez minutos, mas parece uma eternidade. Com o palco livre, a banda começa Loose, também de Raw Power. Na seqüência atacam de 1970, do segundo álbum dos Stooges, Funhouse. Os versos iniciais da música dizem “Out of my mind, Saturday night”. É exatamente o que acontece naquela noite de sábado com todos esses fãs. E Iggy continua: “Baby oh baby, burn my heart, fall apart, all night ‘til I blow away… I feel alright, I feel alright”. É a música perfeita para descrever o que acontece naquele show.

A banda continua com Funhouse, do segundo disco, e Night Teme. Na seqüência Skull Ring, música do homônimo disco solo de Iggy de 2003, e Johanna, outra das músicas que estão no Metallic KO e não saíram em nenhum álbum oficial.  O show continua com I Got a Right, que não consta em álbuns de estúdio, mas pode ser encontrada em discos ao vivo dos Stooges e da carreira solo de Iggy. Em seguida, ele puxa o microfone e diz que a próxima música será para o falecido Ron Asheton, e então grita “DOG!” bem alto; o suficiente para todos perceberem que a próxima música seria o clássico absoluto dos Stooges – I Wanna Be Your Dog – única música do primeiro disco tocada no show. A banda inicia a música e a platéia se inflama. Iggy incita o público e corre pelo palco. É uma grande apoteose do rock.Wanna Be Your Dog é um verdadeiro hino punk. Iggy canta e, na hora do refrão, aponta o microfone para a platéia cantar junto. Ao meu redor, diversos jovens pulam. Garotas sobem nos ombros dos amigos e namorados e mãos seguram câmeras que registram o momento histórico. Iggy se ajoelha e continua cantando. Joga o microfone e rola pelo chão. Levanta as mãos e anda de quatro enquanto a banda toca e incendeia o palco. A platéia volta a cantar alto conforme Iggy aponta o microfone para eles. A música desacelera, e Iggy canta alguns versos como se estivesse pregando, para na seqüência dar vazão a um estouro sonoro que dura do último refrão até o final, com a batida nos pratos de Scott Asheton. O público grita “Iggy, Iggy” e o Iguana soca o ar e anda pelo palco enquanto faz pose. Aos poucos, a banda sai do palco e os roadies chegam para arrumar as coisas. Era muito óbvio que haveria o bis: cerca de três minutos depois, a banda retorna e a platéia vibra. Iggy diz “I Love You” e distribui beijos. A música da seqüência é Five Foot One, canção da carreira solo de Iggy presente no disco New Values, de 1979.

Gran finale

A música acaba e Iggy berra para os Stooges tocarem a “maldita” Passenger. Williamson dá os primeiros acordes e o público parece não acreditar. A música faz parte de Lust For Life, segundo disco solo de Iggy, feito em parceria com David Bowie. A platéia delira. Percebo que estou realmente emocionado por ouvir uma das músicas mais bonitas da história executada ao vivo por uma lenda. Todos olham com atenção e cantam trechos da música. O público canta em uníssono com Iggy no clássico refrão (“la la la la la la la la”). A música acaba e Iggy bate com o pedestal no chão do palco, enquanto grita e anuncia que a próxima canção é Death Trip, última faixa do Raw Power, mas não a última do show.

gran finale fica por conta de um dos maiores clássicos de Iggy em carreira solo, e ele faz questão de berrar e anunciar “Lust for life” a plenos pulmões. A bateria e o baixo iniciam os acordes e Iggy canta sobre “Johnny Yenn com a bebida e as drogas”. Sua calça já está quase toda caída, na altura dos pelos pubianos. Sua bunda está praticamente inteira de fora e seus famosos cabelos loiros na altura do queixo estão completamente molhados, como também está ele, enquanto canta seu “tesão pela vida”.

Esse provavelmente também era o pensamento de cada um daqueles fãs presentes ali naquele show de sábado, 07 de Novembro de 2009. Era esse o sentimento geral após a banda tocar a última nota da noite e fechar a série de shows do festival Planeta Terra com chave de ouro. Iggy anda pelo palco com as calças caindo, agradece ao público de braços abertos e saí de cena, seguido pelo resto da banda. As drogas e a bebida podem ter diminuído ou cessado, mas Iggy Pop com certeza ainda tem muito tesão pela vida.

NO PALCO COM IGGY POP, pelo viés do colaborador Gabriel Daher que é estudante de jornalismo.

Texto reproduzido de: www.vitroleiros.org

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