ENSINO À DISTÂNCIA NA UFSM

Palco de polêmicas como a criação de cotas e a adoção de um novo vestibular, a Universidade Federal de Santa Maria torna-se novamente espaço de conflito: agora, Reitoria e comunidade universitária divergem sobre os rumos da educação na instituição. Uma proposta de criação de um espaço de execução das atividades ligadas ao Ensino a Distância […]

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Palco de polêmicas como a criação de cotas e a adoção de um novo vestibular, a Universidade Federal de Santa Maria torna-se novamente espaço de conflito: agora, Reitoria e comunidade universitária divergem sobre os rumos da educação na instituição. Uma proposta de criação de um espaço de execução das atividades ligadas ao Ensino a Distância – EAD – criou divergência entre os diretores dos Centros de ensino da UFSM.

O termo “EAD” designa modalidade de ensino que não somente permite ao aluno estar fisicamemte distante de um ambiente formal de ensino-aprendizagem, como o de uma sala de aula tradicional, mas também permite que o estudo seja feito em tempo distinto ao restante dos colegas da turma em questão. Designa a separação espacial e temporal entre o professor e seu aprendiz, através da limitação do contato interpessoal, em detrimento de interfaces tecnológias, principalmente as telemáticas, com ênfase na internet e suas hipermídias. Por esse motivo, o sistema de Educação a Distância também pode ser conhecido como teleducação.

Por muito tempo, o ensino a distância foi adotado por alguns cursos profissionalizantes e de formação básica que ofereciam diploma nas mais variadas áreas, em pouco tempo de curso. Um exemplo desses cursos, é o Telecurso 2000, criado pela Fundação Roberto Marinho e pela Fundação das Indústrias do Estado de São Paulo – FIESP em 1995, que consiste em tele-aulas de quinze minutos de duração, dividas em matérias e temas específicos, exibidas na Rede Globo de televisão. O público-alvo original era a parcela da população que não havia completado o ensino fundamental e médio ou que não tinha uma formação profissional.

Com o passar do tempo, o ensino a distância se estendeu a formação universitária, através da criação da Universidade Aberta do Brasil – UAB, por meio do Decreto Federal 5.800, de junho de 2006. Decreto esse, que criou uma nova Universidade através de um sistema integrado por universidades públicas que oferece cursos de nível superior através da adoção da metodologia da educação a distância, para “o desenvolvimento da modalidade de educação a distância, com a finalidade de expandir e interiorizar a oferta de cursos e programas de educação superior no País”. Assim, muitas universidades passaram a adotar a integrar o sistema, como é o caso da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM, que não só oferece alguns dos seus cursos a distância, como visa ampliar o espaço do EAD dentro da universidade.

Antes das políticas de universalização do ensino, nunca antes a educação havia sido acessada por tantos. Hoje, são milhões de pessoas nas universidades através dos diversos programas criados pelo governo, como REUNI, PROUNI, sistema de cotas, Universidade Aberta e tantos outros. Porém, enquanto ganha-se índices numéricos frente às outras nações, perde-se em qualidade.

Em um acordo com a Coordenadonaria de Educação a Distância (CEAD), a Reitoria da UFSM, lança uma proposta aos centros da universidade: a criação do Instituto de Tecnologias Educacionais – ITE. O ITE surgiria como um local em que as atividades de educação a distancia seriam alocadas, juntamente a outros programas, como à Universidade Aberta do Brasil, o Programa de Administração Pública (PAP) – que também existe a distância – ,   o Rede Gaúcha de Ensino a Distância (REGED). Ou seja, todos esses processos seriam gerenciados pelo Instituto de Tecnologias Educacionais. Além disso, incluiria outras atividades, como as de pós-graduação, de educação continuada e principalmente as de fomento à pesquisa através do uso de novas tecnologias de informação e comunicação, aplicadas aos processos educacionais. O uso destas tecnologias seria incluído também nas salas de aula de ensino presencial, bem como em todo o processo de capacitação dos servidores, em processos de melhorias das didáticas e metodologias dos cursos atuais. Em outras palavras, o Instituto de tecnologias educacionais seria um centro para dar suporte às atividades do EAD.

Segundo o reitor da UFSM, Prof. Felipe Martins Müller, o ITE se faz necessário pra que possa haver articulação entre ensino, pesquisa e extensão, por meio do uso de tecnologias educacionais e principalmente de tecnologias da informação e Comunicação (TICs). O reitor afirma que é necessário organizar esse órgão, que hoje existe na verdade como Coordenadoria de Ensino a Distância. Felipe diz, ainda, que o que motiva a criação do Instituto é principalmente o fato de o uso de novas tecnologias de educação e comunicação extrapolar a capacidade da plataforma atual de Educação a Distância na UFSM. O Instituto de Tecnologias Educacionais se mostra, portanto, como um auxílio e ampliação da Coordenadoria de Educação a Distância já existente.

A idéia inicial da reitoria e da Coordenadoria de Ensino a Distância era a criação de um novo centro de ensino na UFSM. Colocada em votação a proposta, os diretores dos centros não concordaram com o projeto ambicionado pelo Gabinete do Reitor. A partir daí surgiu o já mencionado ITE, que seria um órgão desvinculado dos centros e ligado diretamente a reitoria. Com a nova proposta de implementação do Instituto em mãos, os centros pediram mais tempo para analisá-la e a maioria, até agora, preferiu não divulgar seu posicionamento a respeito da questão.

O Centro de Educação – CE, referência em formação de opinião, foi o único que já emitiu sua posição: definitivamente contra o projeto da criação do Instituto, da forma com que está proposto. Segundo o professor do Centro de Educação, Francisco Estigarribia de Freitas, um dos críticos da proposta do ITE, criar um Instituto que valorize o ensino a distância em detrimento do ensino presencial – uma vez que os recursos destinados ao ensino presencial serão em parte direcionados às ações ligadas ao EAD – “significa que a universidade vai capitular ao ensino presencial. Porque já há um dispositivo dentro das políticas públicas que permite que os cursos presenciais façam até 25% de suas disciplinas à distância”.

Opositor declarado do EAD pelo fato de apenas mecanizar o homem, ao invés de ensiná-lo a pensar, humanizando-o, o professor Francisco explica ainda: “quando se fala em educação a distância, está se falando em ensino a distância e não em educação, pois educação requer diálogo e para haver diálogo requer saber escutar e ver o outro. Requer saber juntar esse escutar e esse ver e saber o que isso provoca no outro. E a partir dessas coisas estabelecer uma ação e não uma atuação.” Para ele, é preciso que haja o contato interpessoal para que surjam os conflitos e possam ser resolvidos através da educação. Do contrário, o aprendiz torna-se um mero operante de uma máquina lidando com uma série de fórmulas e questões pré-estabelecidas, sem desenvolver um pensamento aprofundado acerca do que lhe é proposto.

Para isso, ainda conforme o professor, o “sistema S” (Senac, Senai, Seac…) é extremamente eficiente. Porém, a idéia de uma universidade não é bem essa. É, na verdade, a de desenvolvimento universal do aluno, de forma com que o professor não seja apenas um gestor do conhecimento, mas um ente que suscite questionamentos e conflitos a serem resolvidos ao longo do processo educacional; e o aluno não seja um receptor de um conhecimento pronto, que não gere discussões posteriores, “embalado” em módulos educacionais.

Outro fator conflitante na criação de um espaço de ampliação da plataforma de Educação a Distância da UFSM, através do ITE, surge no que diz respeito ao estatuto da universidade. Toda e qualquer unidade que venha a ser criada dentro da UFSM tem de passar pelos conselhos superiores da Instituição, composto por diversos segmentos da universidade, para que haja mudança no estatuto que rege a Universidade. Entretanto, para que uma proposta como essa chegue aos conselhos da universidade, tem antes de ser aprovada pelos centros – o que ainda não aconteceu. Para criar um Instituto diretamente ligado à Reitoria – o que feriria todo o organograma da UFSM – seria necessário propor uma estatuinte, a qual deveria emergir de todos os setores que compõe a comunidade acadêmica, desde alunos, professores, funcionários e até autoridades.

Enquanto transcorriam as ações relativas à proposição do ITE, o Pró-Reitor de Extensão João Rodolpho Flôres declarou, em ato público, ter viajado pela América Latina para visitar outras universidades e conhecer seus estatutos. A partir dos estatutos vistos, o pró-reitor disse estar organizando um estudo que, possivelmente, se desenrolará na proposta de um novo estatuto para a UFSM. Um novo estatuto permitiria as modificações necessárias ao ensino considerado “de qualidade” pela reitoria e seus segmentos diretivos. Porém, considerado contraditório pelo corpo docente e discente.

Quais os benefícios que a Universidade Federal de Santa Maria terá com isso? O que fica, por hora, é uma Instituição que se encaminha para o sucateamento da educação através da adoção de políticas públicas para as quais não está estruturada e para a mecanização das formas de ensino.

ENSINO À DISTÂNCIA NA UFSM, pelo viés dos colaboradores:

Anelise Dias e Luiz Valério Seles, estudantes de Jornalismo da UFSM (repórteres).

 

Gregório Lopes Mascarenhas, estudante de Jornalismo da UFSM (revisor).

Rondon Martim de Castro, Jornalista e professor do curso de Comunicação Social da UFSM (professor responsável).

Para ler mais reportagens acesse nosso Acervo.

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