“AMIGA, SÓ QUERO POUSO/ NO POUSO DO CHICO REY”

No coração de Ouro Preto, fragmentos da história Modernista e Contemporânea de nosso país. O Pouso do Chico Rey e sua guardiã, Lilli, convidam para o encontro de nobres personagens que um dia ali repousaram Paralelepípedos. Ladeiras e declives. Casario. Janelas de todas as cores e tamanhos. Pelourinho. Museu da Inconfidência. Escola de Minas. Guias […]

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No coração de Ouro Preto, fragmentos da história Modernista e Contemporânea de nosso país. O Pouso do Chico Rey e sua guardiã, Lilli, convidam para o encontro de nobres personagens que um dia ali repousaram

Paralelepípedos. Ladeiras e declives. Casario. Janelas de todas as cores e tamanhos. Pelourinho. Museu da Inconfidência. Escola de Minas. Guias turísticos. Carros. Caos. Igrejas. Dezesseis delas. Uma para cada 4 mil habitantes. Sem contar as capelas. Encravada nas montanhas, Ouro Preto guarda parte das origens do povo brasileiro. Histórias. Estórias.

À Rua Brigadeiro Musqueira, bem pertinho da praça central onde, dizem, Tiradentes foi executado, um pouso. Uma plaquinha azul pendurada na fachada indica: Pouso do Chico Rey. Assim, com Y mesmo, bem como mandavam as regras gramaticais vigentes no Brasil Colonial.

A casa de número noventa é quase inteiramente branca e de paredes grossas. A porta azul de madeira de lei é precedida de dois degraus de pedra de 1800. Os sinais da ação inexorável do tempo são visíveis nas oito janelas coloniais, igualmente azuis, da frente do sobrado. Neste momento, todas estão abertas. O telhado que deve ter sido um laranja vivo está agora um tanto desbotado. Afixada na parede da entrada, uma placa metálica esclarece:

MUSEU ABERTO, CIDADE VIVA

Sobrado do século XVIII, foi propriedade do desembargador Honório Hermeto Carneiro Leão, marquês do Paraná, que aqui residiu por volta de 1832. Posteriormente pertenceu ao brigadeiro Antônio Luís Botelho de Magalhães Musqueira, que dá nome à rua. Possui no seu interior portas com pinturas de Alberto da Veiga Guignard.

Chico Rey nos convida a entrar. Em seu interior, o Pouso reserva surpresas. O corredor a que a porta de entrada dá acesso expõe alguns momentos de um curioso passado. Ali, estão relíquias pregadas na parede, como um poema manuscrito a lápis de uma famosa hóspede, Elizabeth Bishop. Em seguida, vê-se um outro, com o nostálgico título “12 éramos nós”, escrito por Carlos Bracher. Ao lado, um quadro em que foram coladas lembranças de algumas personalidades que por ali passaram. São retratos de João Bosco, Roberto Burle Marx, Henry Kissinger e dedicatórias de Sônia Braga e Fernanda Montenegro.

“Essa senhora clara ao lado do Burle Marx é minha avó. Ela que era dona daqui e gostava muito dos artistas”- antecipa, saudoso, Ricardo Correia de Araújo, atual proprietário do Pouso. Ele parece ansioso para contar sobre o passado nem sempre conhecido do lugar.

Lilli das artes belas

Foi Lilli Correia de Araújo a fundadora do Pouso do Chico Rey. Nascida em 1907 em Copenhague, na Dinamarca, Lilli Ebba Henriette era uma senhora de tez muito branca e olhos profundamente azuis. Ainda mocinha, encantou-se pelas artes plásticas e, por indicação de amigos, foi a Paris tomar aulas com o promissor artista brasileiro Pedro Luiz Correia de Araújo. Apaixonaram-se e começaram a traçar juntos uma vida de devoção à arte. Casaram-se em 1929 e logo se transferiram para o Brasil num efervescente Rio de Janeiro modernista. No lar carioca, o casal abriu as portas para os círculos vanguardistas da cidade. Pedro Luiz vinha de uma família tradicional e bem relacionada no Rio. “Meu avô era conhecido dos descendentes da corte, conviveu em Paris com a Princesa Isabel e era grande amigo de muitos artistas no Rio”, relembra Ricardo, olhos claros como os da avó brilhando de orgulho. Anos depois, Lilli conheceria o balanço contemporâneo da bossa nova com Vinicius, Tom, Toquinho, Bosco, e tantos outros.

Uma escandinava em Ouro Preto

Em 1953, Ouro Preto consolou Lilli num período de dor. Foi quando ela perdeu o marido e, aos 47 anos, se viu sozinha. Lembrou-se da rica vila que tanto havia inspirado o companheiro em suas telas e decidiu para lá se mudar. A antiga capital das Minas Gerais nunca mais seria a mesma depois de sua chegada.

Ela adquiriu então um velho sobrado no centro da cidade e o batizou em homenagem ao escravo das minas, Chico, levado para o Brasil, que em sua África de origem havia sido rei. A restauração não foi problema: a dinamarquesa era exímia na arte da bricolagem. Sobre isso, inclusive, o pesquisador Lloyd Schwartz escreve em artigo de dezembro de 1991 na revista The New Yorker: “Residents talk about methods of preservation in Ouro Preto as being either Before Lilli or After Lilli”2. A observação é confirmada pelo artista plástico Carlos Bracher: “Antes da Lilli, o povo ouro-pretano tinha como cultura que era bonito o que era novo, mesmo o que era kitsch. Com a sua vinda, aos poucos os moradores foram valorizando objetos antigos. A influência dela criou em muita gente uma cultura de preservação.”

Morador de Ouro Preto, Bracher, mineiro de Juiz de Fora, grato a Lilli, recorda a época em que, ainda um jovem sonhador de 24 anos sem dinheiro algum, desejava passar uma temporada na cidade.  “Eu queria retratar suas ladeiras e igrejas. Ouro Preto é inspiração a céu aberto”, disse. Conheceu Lilli, que logo o alojou em uma de suas propriedades na cidade. Ali, Bracher passou das brumas de agosto ao sol alto de dezembro sem pagar nada, vivendo apenas para pintar.

Com o passar do tempo, Lilli foi se estabelecendo como cidadã ouro-pretana. “A Lili foi uma figura mítica em Ouro Preto. Existem certas pessoas que quando chegam a algum lugar, o transformam. Foi isso que aconteceu com a cidade quando ela veio pra cá. Ela vinha de uma cultura no Rio em que as pessoas abriam suas casas para a arte entrar. Então, os artistas frequentavam as casas, o que as transformava em um celeiro de criatividade. Foi uma pessoa que trouxe esse costume para Ouro Preto. Trouxe cultura para Ouro Preto” – relata Bracher com emoção. Ele hoje mora a algumas casas abaixo do Pouso.

Lilli sempre acolheu pessoas ligadas à arte. Quando os quadros do pintor Alberto da Veiga Guignard ainda não haviam ganhado as galerias, ela o recebeu de graça nas dependências do Chico Rey. O pagamento do artista foi o amor irrestrito pela amiga, além de pinturas nos armários e portas do local.

Poesias do Pouso

Na copa da pousada, Vinícius de Moraes, recém chegado do Rio, dedilha seu violão enquanto fuma um charuto – foi por causa de Lilli que começara a frequentar a cidade inconfidente com regularidade. Ao seu lado, uma garrafa quase vazia de whisky. Retrato típico, segundo Ricardo: “Minha avó sempre guardava uma garrafa de Chivas no armário. Ele ia lá e a bebia em uma hora. Ela olhava e dizia: ‘Vinicius, você tomou a garrafa interra!’- ela tinha um sotaque carregado que nunca perdeu -, e ele respondia: ‘Não tem problema Lilli, a gente compra outra”, e aí ela falava: ‘Não…mas faz mal! Não é pela dinherra’.”

Na memória do neto, ficaram guardadas as vezes em que, menino, via escondido o “poetinha” e Baden Powell tocarem juntos no primeiro andar do sobrado. E o caso do dia em que uma ex-mulher de Vinicius batera à porta do Pouso empunhando uma pistola. Ah!, se não fosse Lilli e seu porão! Ele amava o lugar e “Lillylinda”. Para ambos, fez samba e poesia. (Amiga, dizer nem ouso/ De certa coisa que sei/ Desde então acho-me em gozo/ Das coisas que sempre amei/Lá dentro tudo é formoso/ Toda a madeira é de lei/ Lá dentro encontrei repouso/ Lá dentro me reencontrei/ Amiga, só quero pouso/No Pouso do Chico-Rey!”3)

O endereço da Rua Brigadeiro Musqueira recebeu também muitas cartas de seu mais fiel admirador. Em uma delas, Vinicius escreve: “Mil saudades. Logo que Garota de Ipanema estiver terminada, darei um pulo aí.”4 Em outra, pede um favor a Lilli: “Estude a possibilidade de fazermos (ele, Trio Mocotó, Toquinho e Marilia Medalha) um espetáculo aí no teatrinho de Ouro Preto, a preços bem populares.”5

Mas não foi apenas Vinicius que em versos retratou Lilli e Chico Rey. A escritora norte-americana Elizabeth Bishop, quando se fixou em fins dos anos 50 em Ouro Preto, logo viu na dona da pousada uma grande amiga e dedicou-lhes poemas. Como esta simpática quadrinha de 1960: “Let Shakespeare and Milton/Stay at a Hilton/I shall stay at Chico Rey”6. Ou como o denso e longo “Under the Window: Ouro Preto” (For Lilli Correia de Araújo)7, poema publicado pela The New Yorker em dezembro de 1966, a respeito de trechos de conversas ouvidas pela poetisa da janela de sua casa, que, aliás, também teve um pouco de Lilli: “A Elizabeth Bishop confiava tanto na minha vó que pediu para restaurar a casa que ela tinha comprado, a Casa Mariana, quase aqui na frente do Pouso”- revela Ricardo.

“Tu és tantas, Lilli”

Foi em 2006 que os “claros olhos incendiados” de Lilli Correia de Araújo, Lilli Ebba Henriette, ou simplesmente a dona Lilli, deixaram de brilhar. Foram 98 anos de inúmeras estórias e afetos.  Lilli foi muitas, “a que solda, corta, restaura”, Lilli “das boas conversas e as risadas boas/ noitadas na copa”, “das saladas, das quitandas, whiskies/ ou licores”- como anteviu, com sensibilidade, Carlos Bracher em 1988, naquele poema exposto no corredor. Lilli foi o pouso da cultura, o abrigo da inspiração, o refúgio das belas artes. “São tantas e às tantas Lillis brindamos/ na afabilidade dos corações nossos / para sempre/ Lilli – a irmã nossa”.

No macrocosmo de Ouro Preto de um primaveril setembro, o Sol brilha e sopra uma brisa fresca. A cidade continua seu movimento. Enquanto isso, no microcosmo do Pouso, Ricardo para um momento e junta os pedaços das histórias de sua avó. Lembra-se dela, inteira, com admiração e carinho. Ele foi o único de sua família a assumir a administração da pousada enquanto todos os outros seus, como relata, queriam vendê-la. A herança material deixada pela avó é ainda motivo de intermináveis entraves entre parentes. Loiro, alto e afilado, ele não esconde a ascendência dinamarquesa. Tem 38 anos “mas envelheci dez anos em dois, aqui em Ouro Preto”. Mais importante que manter o patrimônio é manter viva a memória, os princípios de Lilli e seu legado inestimável à cultura ouro-pretana.

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1 (Título) Trecho do poema “Poesia do Pouso” de Vinicius de Moraes, dedicado à Lilli.

2 “Moradores comentam sobre os métodos de preservação em Ouro Preto como sendo antes e depois de Lili.”

3 Dedicado à “Lillynda” a “Poesia do Pouso” foi escrita por Vinícius de Moraes, com “carinho total”, em 23.06.1968.

4 Rio, 17.7.1967

5 Salvador, 16.2.1972

6 Deixe Shakespeare e Milton/ Ficarem no Hilton/ Eu ficarei no Chico Rey

7 Debaixo da Janela: Ouro Preto (Para Lilli Correia de Araújo). Trata-se de criação pouco conhecida na antologia poética de Elizabeth Bishop.

Para saber mais sobre Lilli, Vinícius, Bishop e outros personagens ilustres acesse: http://www.pousodochicorei.com.br/

“AMIGA, SÓ QUERO POUSO/ NO POUSO CHICO REY”, pelo viés da colaboradora Olívia Scarpari Bressan, estudante de jornalismo e letras da UFSM

Para ler mais reportagens acesse nosso Acervo.

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  • http://www.pousodochicorei.com.br Ricardo Correia de Araujo

    Adoramos a Matéria , abraços Ricardo e Lena !!

  • Fátima

    Gostoso de ler. Jornalismo, literatura e história!
    Parabéns!
    Fátima