COMPLEXO DE VIRA-LATA

Ontem pela manhã, li um texto que encontrei no Blog do Mello que associava Lula a Getúlio Vargas, através da afirmação de que O Globo, jornal carioca da família Marinho, é e sempre foi um jornal golpista. A intenção do texto, presumo eu, seria afirmar que contra presidentes populares e amigos do povo (ou pais, […]

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Ontem pela manhã, li um texto que encontrei no Blog do Mello que associava Lula a Getúlio Vargas, através da afirmação de que O Globo, jornal carioca da família Marinho, é e sempre foi um jornal golpista. A intenção do texto, presumo eu, seria afirmar que contra presidentes populares e amigos do povo (ou pais, como queiram), existe sempre uma tendência ao desagrado da ‘burguesia’, da ‘elite’, dos ‘coronéis’. Cito esse texto por ter feito diversas associações que gostaria de compartilhar.

Nelson Rodrigues, nos idos da década de 1950, definia o povo brasileiro como detentor de um sério problema de auto estima: tínhamos o complexo de vira-lata, uma tendência à subserviência e à crença de que somos inferiores. ‘Cuspimos em nossa auto imagem’, disse à época o escritor. É uma afirmação, antes de tudo, sociológica. Sabe-se lá se ela pode ser levada a sério, se poderíamos generalizar algo de tal magnitude a uma nação de 190 milhões de pessoas. Mas irei partir do pressuposto de que, sim, portamos um complexo de inferioridade histórico e, de alguma forma, sócio-genético.

A afirmação, feita à luz do vice campeonato mundial de 1950, quando a seleção uruguaia derrotou o Brasil em pleno Maracanã, fazia um certo sentido. Faz mais sentido ainda quando outra analogia futebolística é feita: a conquista da Copa do Mundo de 1958, oito anos mais tarde, nos afagou o ego. Éramos, pela primeira vez na história, os melhores do mundo em algo. Tínhamos, enfim, motivos para sentir orgulho.

A história se reproduziu. Em 1970 fomos o primeiro país a conquistar o tricampeonato mundial e alçamos à condição de mito o (negro) Pelé, maior atleta do século XX. Hoje, somos o país com mais títulos mundiais no mundo todo, e podemos nos gabar de dizer que enfrentamos qualquer um sem medo.

Pois bem, qual a relação disso com Getúlio e Lula?

A ideia que tenho é que Getúlio foi o primeiro político brasileiro a empunhar a bandeira nacionalista. A CSN, a industrialização nacional, o café brasileiro, o incentivo getulista para que tivéssemos orgulho (ou, pelo menos, não tivéssemos vergonha) de ser brasileiros era incansável. Leiam a carta de renúncia da vida do sujeito e verão! “Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano” ou “Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero”. E eis que o brasileiro é muito suscetível a isso. Talvez seja este o trunfo de Lula.

A força de dizer que o Brasil foi o único país (não foi, mas ainda assim dizem) a resistir incólume à crise mundial que derrubou as principais potências mundiais tem um poder imenso num povo magoado e endurecido pela vida. Isso, potencializado por uma melhora de vida da população, um ligeiro ganho social, tem o efeito de se dizer ao brasileiro que nós passamos por uma revolução nunca antes vista. Mesmo que os dados não endossem minhas especulações, podemos manipulá-los levemente para perceber que a crise inchou a popularidade do presidente, que passou de 55% em março de 2008 (números que já eram impressionantes, seja dita a verdade, mas não eram… bem… os números de um ‘herói da pátria’) para 84% em dezembro de 2008, próximo ao ápice da crise.

Meu ponto aqui é: Lula entrou para a história. Da mesma forma que Getúlio entrou para a história. Os dois serão reconhecidos como grandes estadistas. A auto afirmação é a principal característica comum dos dois, dois sujeitos que sabem dialogar com o povo, que mostram aos usurpadores dos direitos do povo pobre, cabisbaixo e subserviente desse país que eles têm quem os defenda. Eles podem dizer, hoje, que além de serem os únicos pentacampeões mundiais de futebol, eles também não deixam que qualquer um chegue no país e usufrua de suas riquezas e explore sua população como bem entenderem. Além disso, enquanto o mundo bate cabeça, podemos nos levantar e dizer que nós passamos incólumes e conseguimos distribuir renda (nunca, na história deste país!). Fatos que depõem contra nossa imagem de povo subjugado.

Lula também vende a imagem, bem como Getúlio, de que luta contra os próprios inimigos internos do povo: o patronato, a ‘burguesia’. Ele é o defensor do trabalhador, não permitindo que a elite se aproveite de sua boa vontade e dignidade. O ‘pai’ dos pobres, como Getúlio. Um povo consciente de sua grandeza não cede a esses apelos.

Um povo consciente de sua grandeza questiona se o que recebe é o que ele merece. Nós não.

Para finalizar, um exemplo cabal: Lula foi ao Santos parabenizar Neymar, Ganso e a diretoria santista por terem recusado a oferta do Chelsea de 35 milhões de euros pela jóia do futebol brasileiro. Lula foi lá para associar a imagem de seu governo e do Estado brasileiro à imagem de alguém que não aceita se vender, que recusa os milhões dourados europeus para honrar o país. Uma típica atitude de quem quer inflar o orgulho de ser brasileiro ese auto afirmar.

Lula tem sim muita coisa em comum com Getúlio Vargas, só nunca pensei que o PT fosse se orgulhar disso.

COMPLEXO DE VIRA-LATA,  pelo viés do colaborador Alexandre Branco Pereira, que mantém o sítio Mais que o Usual.

Para ler mais crônicas acesse nosso Acervo.

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  • quemsera

    Bom texto; esperamos, então, que o final da ‘era Lula’ não seja igual ao final da ‘era Getúlio’; mas, de qualquer forma, dadas as circunstâncias e ainda que em acontecimentos aparentemente repetidos, seria e está sendo algo inédito.

  • http://catherinedejupiter.wordpress.com Júlia Schnorr

    Comparar Lula a Getúlio é uma análise que é rebatida por vários historiadores, mas não vou entrar nesse debate.
    Getúlio Vargas foi o primeiro presidente brasileiro a empunhar a bandeira nacionalista, entretanto, poucos lembram da ditadura do Estado Novo..ou a tem no imaginário com pouco autoritarismo. Não consigo imaginar uma ditadura com mais ou menos liberdade. Ditadura é ditadura. Se ele disse aos brasileiros que não tivessem vergonha de serem quem eram, ele antes definiu o que ”era para ser”. Definiu o brasileiro, legitimou, após uma ”assepsia identitária”, o samba e a capoeira.
    A imagem que o brasileiro tem de Getúlio é a de seu segundo ”mandato”. A figura ditatorial fica de lado, em algum porão da década de 1930.