O CRUCIFIXO

“O crucifixo”, um conto pelo viés da colaboradora Fabíola Weycamp.

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Asco: foi o que tentou sentir. Sentiu uma repulsa crescer dentro de si. Um bolo enorme em sua garganta se formava. Sentia nojo de si. Nojo e culpa. Era a sua primeira experiência, seu primeiro contato com aquele tipo de situação. Não se sentia nervosa. Mantinha postura firme. Era firme. Cresceu assim. Desde pequena, algo que parecia nojo lhe corria pelas veias ao invés de sangue. Pele fria, mãos cautelosas e precisas. Também decidida. Ainda menina trocou o azul claro do céu do interior pelo tom melancólico do céu da capital. A menina com atitudes de gente grande – todos diziam – foi estudar num colégio de freiras, ela mesma decidiu. Gostava das roupas limpas, cheirando a sabão. Lençóis de sua cama perfeitamente esticados, sem nem ter marca dos dedos calejados, grossos como os de sua mãe. Igualmente desligada de afetividades, cuidava da casa, do gado, da plantação de arroz: não tinha tempo para criar laços, enraizar ternura; cortava o mal pela raiz e, por falar nisso – no próprio ventre. Paria e aquilo era tudo que haviam lhe contado sobre o amor. Uns cuidavam dos outros, a matriarca, essa não, cuidava da casa, do que lhes forrava o estômago no fim do dia.

A menina cresceu. Talvez até tenha agradecido, do seu jeito, a madre pelos anos em que lhe acolhera. Amor era uma palavra que desde sua chegada ao colégio ouviu dizer. Porém, sabia que era diferente das demais meninas – não sentia aquele calor no peito como lhe costumavam narrar, frenéticas e tão tediosas. Asco. E perto de seu sapato excessivamente lustrado, o chão umedeceu. Sua primeira cuspida. Asco e enjôo. Enjôo do quê afinal de contas? Que dedos grossos e calejados eram aqueles que mal conseguiam segurar o terço? Que pretensão era essa em amar? O quê? Como? Uma menina, sou apenas e ainda uma menina. Enojada por ser diferente de suas companheiras de classe e quarto, ou seria por todas serem iguais? Enojada, ria-se assombrada na tentativa de manter esquecida essa dor no estômago que lhe causava arrepios, fazia-lhe ver vultos, ouvir vozes, muitas vozes, cujas quais as freiras, incluindo a madre, tratavam logo de calar ajoelhando a menina no milho, mergulhando seu corpo enfraquecido, e, no entanto, tão firme, em banho de água benta. Água santificada, destruidora de todo mal, gritavam enquanto, debaixo d’água, a aluninha lutava para respirar.

Ainda que não mantivesse firme o terço em seus dedos, ela cresceu. Cresceu e foi embora. Herdou um pequeno apartamento de uma tia que nem mesmo sabia que existia. A menina, para a tia, era tudo o que de sua família lhe restava, por isso investiu em seus estudos, mas tampouco lhe olhou nos olhos. De que cores seriam? A quem puxei olhos tão grandes assim? Simplesmente crescera. Descobriu mundos novos, seus mundos; interagia, revela-se firme em momentos de insignificante ternura para consigo própria. Um mundo só seu, que não lhe causa náuseas nem repulsas; onde sorrir era lembrar vagamente das mãos de sua mãe arando a terra, tocando o gado e ajeitando a coluna curvada com as mãos rudes e argilosas apoiadas a cintura. Era tudo de que se lembrava. Não ouvia as vozes que percorriam a plantação de café, as que ouvia não lhe eram familiares, eram sofridas, desesperadas e horripilantes.

Fazia poucos meses que estava trabalhando no hospital público da cidade. Era firme com os pacientes, mas compreendia suas dores e vulnerabilidade. Gentil sem sorrir, de quarto em quarto, andar por andar, rezava o terço em preces sussurradas, dizia amém e partia para o próximo enfermo. Foi assim durante todos os meses que lá trabalhou. Havia um único quarto em que lhe era difícil entrar, mas que sentia enorme e estranha necessidade de rezar por aquele paciente. Mais do que rezas, queria tocar-lhe nas mãos, beijar seu rosto abatido, mas antes de ter coragem para fazê-lo, encaminhava-se para o quarto seguinte. Todos os dias. Essa era a sua rotina. Como pode um homem de feições tão bonitas e suaves sofrer tanto assim? Cadê seus filhos? Será que tem esposa? Família? Por quê meu coração dispara toda vez que chego ao quarto 547? Por quê as orações para ele me arrancam lágrimas dos olhos? Um misto de felicidade e dor em suas poucas e jovens rugas, iguais as minhas. A dor nos uniu. Provocou-me sentimentos nunca sentidos antes. Provocou-me arrepios e um forte calor nas maçãs do rosto. Havia ligeira aflição sem seu rosto, mas quando a ereta jovem entrava no quarto, exalando seu perfume de roupas muito limpas, podia perceber que aquele frágil homem parecia sorrir de satisfação. A jovem, olhando desconfiada para os lados, para que ninguém a visse, sorria ligeiro, satisfeita.

Fazia o habitual, rezava o terço e rumava para o quarto seguinte, todos os dias, sem conversar com nenhum paciente, nem trocar olhares com qualquer pessoa que fosse. O que lhe dava a sensação de não ser tão firme como desejava aparentar ser. Não era, mas fingia ser. O último dia daquela semana começou chuvoso. O céu anoiteceu logo pela manhã, as ruas estavam totalmente submersas, não se via carros e quase nem os telhados das casas. Um caos na mórbida capital. A jovem havia feito plantão na noite anterior, por este motivo é que não havia saído do hospital. Passou parte da noite na capela, evocando todos os deuses e santos que sua memória podia lembrar – por que, se nunca fui religiosa?, nunca sequer evoquei tantos deuses dessa forma. O que estaria me acontecendo, meu Deus? As vozes que tenho escutado… rezo por elas, rezo por mim, por não parecer louca diante de tanta estranheza que me assombra, mas que não me fere mais. Por que, meu Deus, aquele homem, do qual desconheço seu passado, envolve meu coração em um sentimento tão quente, tão terno… tão… Amor? Seria isto o amor que aquelas mimadas insuportáveis do internato tanto falavam? Seria sentir do meu mais profundo ser, minha alma, o desejo de ver aquele homem tão desconhecido e tão familiar abrir os olhos para mim? Amor… amor…

Era o seu primeiro contato com aquele tipo de situação. Tentou sentir asco, e por mais estranho que isso lhe pareça, não sentiu. Não sentiu como de costume. O bolo na garganta desapareceu como se houvesse, finalmente, posto para fora todos aqueles anos de solidão e clausura de sua alma. Ela não era vítima como podia se imaginar. Era culpada, tão e somente a única culpada por reprimir e confinar os desejos de sua alma. Por transformar ternura em olhares frios e fulminantes. Mas, agora, sem saber como e nem por que, agora, tudo estava terrivelmente diferente. Terrivelmente bom e diferente – bom não é bem a palavra, posso dizer que a sensação que me invade é, no mínimo, pretensiosa.

A jovem que, agora, mantinha a coluna curvada – igual a sua mãe antes de endireitá-la enquanto cuidava da terra, da horta – entrou muito vagarosamente no quarto 547 e fechou a porta atrás de si. O homem, ainda de olhos fechados, pareceu sentir a menina chegar; todo o seu corpo relaxou. Parada no pé da cama, a quase mulher sentiu seu coração bater apressado, quase queimando e rasgando-lhe o peito. Aproximou-se lentamente: mais e mais e mais perto da cama. Sabia da gravidade da doença daquele homem, sabia que lhe restavam poucos dias, senão horas para a sua partida para a vida eterna e, talvez, seja este o motivo de toda a sua comoção. Nunca vira alguém naquele estado. O nojo era apenas uma necessidade de fingir que nada sentia, porém, os momentos que passava naquele quarto, ao lado daquele homem de pele acinzentada e ainda com poucas rugas, apesar de agora parecer dez anos mais velho do que é, a fez querer não mais sair dali. A fez passar horas e horas rondando aquele andar; passando a todo instante pela porta do quarto; afligindo-se a cada vez que as enfermeiras corriam urgentes até lá. Aquele momento, no qual estava parada, agora, de pé ao lado da cama, era único. Nunca ficara tão próxima de alguém como desta vez. Nunca, em toda sua invisível existência, nunca se importou tanto com alguém como se importava com aquele homem que lhe era desconhecido, mas tão, tão próximo… tão… seu.

Agarrou com força o seu terço e iniciou as evocações. Com estranha ternura e compaixão, rezou por aquele homem durante cinco horas seguidas, sendo interrompida somente por um movimento que ele fez.  O homem, praticamente entregue ao abandono familiar – se é que tinha alguém -, abriu rapidamente os olhos e encontrou com os da menina. Outra vez menina: com feições, surpresa, espanto, dor, felicidade e inocência de uma menina. Manteve seus olhos parados, fixos no semblante do enfermo, que podendo finalmente conhecer quem era dona daquele cheiro de roupas limpas, e que sussurrava orações tão envolvidas pela alma e pelo amor puro, o enfermo sorriu e com sofrida dificuldade, estendeu-lhe a mão magra e trêmula. Com profunda estranheza, dessa vez, pela única e última vez, a jovem crente não hesitou, e num ato apressado e desesperado, com as duas mãos envolveu ternamente a do homem. Afagando-lhe carinhosamente e repousando-as em seu peito. Comovido, ambos comovidos, o jovem senhor – agora que podia vê-lo tão de perto, viu o quanto era jovem, o quanto era bonito e tinha feições tão suaves -, o jovem senhor soprou alguma coisa que parecia ser um agradecimento ou qualquer coisa muito parecida com alguma possível gratidão, fechou os olhos. Entre orações em voz alta, quase gritos, suplicas, cruzes e redenções, a jovem beija-lhe o rosto acinzentado, mas com aparência tranquila; beija-lhe as mãos; deita-se sobre seu peito e, finalmente, agarra seu terço com força, com toda força que tinha. Com toda força que a fez capaz de esconder-se diante dele, esconder-se de sua própria alma imaculada.

Colocou o terço em volta do pescoço, enxugou as lágrimas num movimento bruto – como de costume -, lavou exageradamente as mãos. Em momento algum fitou seu rosto no espelho, não queria assustar-se ao ver seus olhos inchados e o novo tom avermelhado que sua pele adquiria. Endireitou a coluna, espantou a poeira de seu vestido como estivesse espanando para longe toda dor e incompreensão de ter se entregado a alguém que nem mesmo sabia o nome, igual as suas colegas de internato, freneticamente sonhadoras e tediosas.  Ajeitou uma mecha de cabelo que havia se soltado do coque e foi avisar as enfermeiras. Resolvida e enojada consigo mesma, partiu para o quarto ao lado dando continuidade a sua rotina. Até o fim.

O CRUCIFIXO, pelo viés da colaboradora Fabíola Weykamp

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  • Beatriz

    parabéns ao viés pela publicação de textos de qualidade. É bacana ver o filme Narradores de Javé mencionado logo na chamada para um dos textos, e foi com prazer e suspense que li o texto de Fabíola Weykamp hoje. A autora demonstra domínio técnico na construção da trama, no crescimento narrativo da personagem, no tratamento de tema tão delicado. Parabéns à autora e, uma vez mais, parabéns à revista.
    abraço,
    Beatriz Viégas-Faria (escritora e tradutora)

  • Giovana F. Gonçalves

    Bom conto, O Crucifixo, daqueles que aprisionam os olhos, a alma…O detalhamento dado à figura central, via escolha do léxico, e o suspense da última cena são os pontos mais altos. Parabéns à autora.