ONTEM EU SONHEI COM NOVA YORK

Diziam que era culpa da neve. Era o inverno. Era minha culpa. Pelo viés da colaboradora Bruna Maria

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Amanhecia. O céu naquela cidade nunca ficava claro. Diziam que era culpa da neve. Era o inverno. Era minha culpa. Afinal, era eu quem tinha decidido que chegaria ali exatamente no inverno. No rigoroso inverno.

Nas primeiras semanas eu limpava as privadas de um posto de gasolina. De certa forma, aquilo era um alívio: o tipo do trabalho em que eu não era sequer notada. Meus passos com pesadas galochas de borracha; minhas mãos com luvas amarelas, também de borracha, carregando os baldes e os esfregões. A transparência, pelo serviço. E, ao final do dia, a certeza de ter desfeito a sujeira de uma centena de norte-americanos que passavam por ali para reabastecer seus carros, sem ao menos saberem que eu silenciosamente os observava.

Os dólares que eu recebia como pagamento ficavam dobrados em um bolso, escondido no interior da minha roupa especial contra o frio que uma prima, que tinha voltado ao Brasil, me deu dias antes de eu embarcar em busca de uma busca sem nome e sem endereço. Daquilo que eu guardava do dinheiro não sobrava muito quando vinha o dia de pagar pelo aluguel do quarto em que eu dormia. Dividido com um boliviano, o quarto ainda me custava caro. E foi por isso que em um dia de centrada razão eu decidi abandonar aquele lugar e ir tentar abrigo em uma igreja protestante de subúrbio – tudo para economizar, tudo para fazer com que o pouco dinheiro rendesse.

Passei algumas semanas na certeza de que, em algum momento, eu seria aceita por algum bondoso pastor. Eu me oferecia para limpar suas igrejas, para passar o cadeado no portão ao cair das noites ou, simplesmente, para ajudar na organização dos cultos quase diários. Mas poucos pastores chegavam a me ouvir até o final das minhas súplicas. E, os que ouviam, alegavam que já tinham alguém que fizesse tais serviços para eles.

Quando percebi que tinha se passado quase um mês desde que eu abandonara a metrópole em busca de abrigo no subúrbio, e nada tendo conseguido, decidi voltar para a cidade e tomar de volta o emprego no posto de gasolina, que eu havia largado. Mas o chefe, me vendo voltar inesperadamente, foi categórico e ríspido. Coisa de americano. Com aquele jeito muito objetivo e claro, sem medo de ofender qualquer orgulho, ele disse, entre outras coisas, que não tinha nem conversa; que ninguém que fosse sério teria largado o emprego da forma como eu larguei. Então, agora, o problema era todo meu, e eu devia me arranjar longe dali.

Eu tinha apenas vinte dólares àquela altura. Já não podia fazer refeições, tampouco voltar para o quarto alugado com o boliviano. Decidi que guardaria o pouco dinheiro para alguma emergência.

Sem poder dormir pelas ruas, já que os policiais eram sempre muito severos, decidi sair da cidade andando, até chegar a alguma highway onde eu pudesse, esticando o polegar, pedir carona aos carros, para chegar ao interior. Lá encontraria gente simples, mais amena, que pudesse me oferecer serviço e moradia sem a pressa e a competição, naturais da cidade grande. Parecia ser a minha chance.

Consegui a ajuda de três sujeitos. Eles me ofereceram carona em diferentes partes da estrada e um deles ainda pagou um pernoite para mim em um motel, enquanto ele também dormia para descansar e pegar a estrada novamente, no dia seguinte.

Com a ajuda desses sujeitos, e após alguns dias, me afastei definitivamente da cidade e cheguei a um rancho. Logo me instalei pelos celeiros e fiquei por lá mesmo, beliscando comida de animal e me escondendo toda vez que o fazendeiro, dono daquele local, se aproximava. Em uma semana, consegui descobrir que aquele fazendeiro era um sujeito idoso e que o rancho não tinha grandes movimentações além das rondas dele. Supus que o velho morava sozinho e achei que me seria fácil abordá-lo implorando por um serviço qualquer.

No cair de uma tarde mais gelada que o comum, me arrastei até a entrada do rancho e chamei pelo senhor que, com pesados casacos, touca e luvas, jogava calmamente sal na neve. Hey, hello!, eu gritei com custo. Sentia-me muito fraca àquele instante, a ponto de desmaiar.

O velho, ao me ouvir, veio em minha direção com a mesma pá com que espalhava o sal na neve. Veio com a pá em riste e com a cara fechada. Go away, ele imediatamente resmungou, sem ao menos olhar para mim; e, em seguida, fez menção de me espantar com aquele instrumento ameaçador.

Food, please. Job. I need help, no where to go, eu murmurava, tentando projetar a fraca voz que me escapava da garganta. Mas o velho parecia irredutível e repetia com amarga revolta seu Go away ácido, terrível…

Nesse momento, comecei a pensar se não teria sido melhor ter ficado pelos celeiros, comendo a comida dos bichos e mal me esquentando na serragem. O velho nunca poderia ter sabido da minha presença. O estúpido senhor teria me ajudado sem ao menos saber de sua nobre ação. E quando a primavera chegasse, eu já não precisaria lhe importunar. Simplesmente partiria em busca de outro modo de sobreviver, melhor que fosse.

Após tal devaneio, percebi que, na verdade dos fatos, eu não teria onde dormir naquela noite que prometia um frio ainda mais intenso. O velho agora sabia de minha existência por perto. Me colocaria rapidamente para correr dali. Alguns flocos de neve começavam a cair e, para o meu mal, o velho tornou a insistir em me mandar embora, sem ao menos me dar alguma atenção.

Diante daquele impasse, algo na minha suposta humanidade começou a me transtornar. Como o velho podia ignorar daquele jeito um pedido de ajuda?

Conforme ele levantava a pá para me expulsar qual se expulsa animais intrusos, a sensação de fraqueza que me vinha acompanhando subitamente começava a se transformar em uma bruta raiva e em uma demorada e fundamentada revolta. Eu era tão humana quanto ele. Eu estava rogando por ajuda, apenas. E ele permanecia irredutível. Como podia?

Assim, com o ímpeto de revolta que me surgiu, pulei a cerca que me separava do velho, e parti para cima dele. Ele logo tombou, fraco. Caiu no meio da neve, espraiado e ridículo, digno de uma boa gargalhada. Vendo seu desajeito completo, eu me joguei em cima de sua barriga estufada. Tomei de sua mão a pá com que ele salgava a neve, enquanto ouvia, em seu repentino acesso de tosse velhaca e rouquidão, aquele desprezível Go away ainda ecoando, desumano e infinito.

I was only asking for some help, you bastard, esbravejei com forças vindas de um orgulho desastrosamente ferido; e cuspi-lhe bem no meio da cara.

Ainda com a pá em minhas mãos e sentada sobre sua barriga, pensei em como tudo poderia ter sido diferente. O velho poderia ter sido gentil; ou eu poderia nunca ter saído da cidade. Mas, fora isso, outro pensamento me ocorreu: que, desde que eu havia chegado aos EUA eu nunca tinha escrito para casa, no Brasil, contando o que me sucedera em minha aventura norte-americana.

Mas um relance de possibilidade me surgiu quando voltei a olhar para o velho sob mim – e agora com olhos apavorados e muito humilhados. Aquele rancho não era lá essas coisas, é verdade, mas ali tinha uns bichos e uma sede rústica de aparência bem agradável…

Eu, então, com a pá em minhas mãos e o velho sob mim, não hesitei e lhe dei seguidas coronhadas, lembrando da amargura que seu Go away jogava sobre a minha existência.

Uma semana depois, quando escrevi a primeira carta aos meus familiares, a primavera chegava e eu calçava botas de couro. A neve derretera, mas ainda fazia frio. Ao acordar, eu tomava café forte e comia bacon. O silêncio era predominante. Antes das dez horas da manhã eu alimentava os animais e cuidava, especialmente, dos celeiros.

Um dia, sem que eu esperasse, um caipira chamado John passou procurando pelo velho que eu matara. Convidei-o a entrar e contei a história do Mr. Marshall – eis o nome do velho, como fui saber depois, fuxicando alguns de seus documentos. A John eu disse que o velho era um tio muito querido meu e que, por problemas graves de saúde mental, teve que ser internado em uma clínica do outro lado do país.

Sad, very sad, John disse. O caipira acreditou na historieta, se tornando logo o meu mais novo melhor amigo.

John passou e me visitar sempre que podia. Aparecia para o brunch; ficava a tarde toda me ajudando com o rancho. Às vezes, e com o passar do tempo, aproveitava para ficar para dormir também…

Passados os meses, John propôs, com brilho nos olhos, que eu largasse aquele solitário e improdutivo rancho. Contou sobre como ele se sentia sozinho onde morava e sobre como tinha apreço por mim. Convidou-me, assim, para morar com ele, em seu próprio rancho, que ficava ali pelas redondezas.

Não pensei duas vezes: ele tinha empregados e ganhava o seu dinheiro. As instalações de sua casa eram muito melhores do que as da casa em que eu morava. Além disso, o apreço de um homem pode ser sempre muito útil para diversos fins. Então, imbuída de certezas tais, fiz as malas e parti, alegando, contudo, que não poderia vender o rancho de meu tio – o velho Mr. Marshall… –, pois eu tinha fé de que, um dia, ele recuperaria sua saúde mental e retornaria para o convívio com todos nós.

Foram meses tranquilos aqueles com John. Ele era um caipira agradável, que levantava cedo e tomava as refeições na hora certa, cumpria todos os horários. Comigo por perto, ele se sentia entusiasmado por trabalhar mais e as tardes ele dedicava à produtividade de seus negócios, voltando apenas à noite. Durante esse tempo, escrevi minha segunda carta aos familiares.

Em uma dessas tardes de intensa produção, um comprador de carne de porco foi procurar por John, mas ele não estava. Mandaram-no ir falar com a sua senhora, que era eu.

O sujeito se chamava Etan. Etan era jovem, moço vivo da cidade. Disse que estava apenas de passagem, que precisava reajustar preços com John. Mas se John não pudesse atendê-lo naquele momento, então, ele voltaria em uma outra hora, em um outro dia. Assim ficou combinado.

E Etan voltou mesmo. Reajustou todos os preços com John. Foi convidado para almoçar conosco. Passou a tarde contando histórias da cidade. E elogiou as minhas prendas na cozinha.

Tudo havia dado certo. John era um homem feliz e pensava até em filhos. Ele os teria; John os teria: teria seus filhos, os seis, como sonhava. No entanto, Etan passou a voltar ao rancho sempre pelas tardes, com desculpas variadas, bem quando John estava fora, trabalhando.

You’re so pretty…, ele dizia mexendo nos meus cabelos. E eu respondia, com entusiasmo: I’d love to go downtown, you know, to live there, forever!

Em alguns meses, Etan contou sobre um apartamento pelo qual acabara de pagar. Estava em seu nome, era para sempre. Ficava no Bronx, na cidade. Logo lhe mostrei todo meu arrebatamento, e lhe parabenizei por, tão jovem, já ter seu primeiro imóvel.

Até que em uma daquelas tardes de intenso trabalho de John, eu entrei no carro de Etan e nunca mais voltei ao rancho. Fixei residência no Bronx e, dali, escrevi a minha terceira carta aos familiares.

E, depois de um tempo, muitas outras cartas também escrevi…

Os anos em que vivi com Etan me ajudaram a migrar para Manhattan, com a pena de perdê-lo para o mundo que eu deixava para trás. De Manhattan escrevi as minhas últimas cartas; as cartas mais extensas e mais felizes. E, passados os anos, só isso era o que realmente importava: mandar aquelas cartas aos familiares; contar-lhes sobre como eu havia vencido em terra norte-americana.

Fora isso, nada. A vida toda se resume a um sonho…

E o resto, todo o resto, torna-se detalhe, apenas. 

ONTEM EU SONHEI COM NOVA YORK, pelo viés da colaboradora Bruna Maria*

*Bruna Maria: carioca, formada em Letras e atualmente mestranda em Literatura Portuguesa (UERJ). Acaba de escrever seu primeiro romance, que foi selecionado, em 2010, pela Fundação Biblioteca Nacional para receber amparo do Programa Nacional de Apoio à Pesquisa durante o término de sua escritura. Tem alguns contos selecionados em antologias a serem publicadas em 2011. Foi 3º lugar no concurso de contos promovido pela Casa do Novo Autor Editora, em março de 2011. Tem textos publicados em sites da internet, como na Revista Germina Literatura e no Blog do Jornal Plástico Bolha. Além disso, edita o projeto As Variações Literárias, que pensa, por meio de variações de textos originais, o conceito de leitura e de escrita de obras de grandes autores. Enquanto não publica seu romance, ela bloga sobre leituras e afins em seu blog.

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