A CONTRACULTURA DO MUNDO SUBTERRÂNEO

A “sociedade zineira” que persiste ao tempo. Pelo viés da colaboradora Gabriela Gelain.

A+ A-

Difícil falar de fanzines impressos nos dias de hoje, momento de ‘boom’ tecnológico e globalização, onde a internet acaba por aproximar e distanciar as pessoas, para muitos tentando acabar com o amor tátil da informação impressa. Mas eles ainda existem, por incrível que pareça (a prova viva são os que ainda recebo, na caixinha do correio, ainda em 2011). Você sabe o que é um fanzine (ou zine, como costumam ser abreviados)?

As ‘revistas’ contraculturais do mundo subterrâneo

Os (fan)zines são publicações alternativas, geralmente com poucas tiragens xerocadas, periódicos do tipo ‘do-it-yourself’ ’(faça você mesmo). Eles têm formatos variados, com ausência de cunho comercial, normalmente direcionados a públicos específicos, geralmente críticos e amplamente voltados ao universo o qual chamamos underground (nosso querido mundo subterrâneo ). Os produtores de fanzines ou melhor, os ‘zineiros’, não esperam obter lucro com seu trabalho, muito pelo contrário: passam a tirar do próprio bolso o dinheiro para ver o resultado do seu projeto passar de mãos em mãos. Para desenvolverem suas publicações, seguem a regra número um dentro do “manual de diagramação de um fanzine”: não ter regras, a chamada liberdade de expressão. E isto basta.

Zines separados por Carla (Faz o Histérica zine, True Lies zine) para uma exposição durante shows no Rio de Janeiro.

 Sem um formato preestabelecido, os assuntos que abrangem os zines são diversos, conforme a “regra número dois” do manual que nunca vai existir: a anarquia de conteúdos. Nos zines você poderá encontrar um pouco de tudo: bandas independentes (bandas de garagem, punks, eletrônicas…), subculturas no geral, charges (humor negro, irônicas), resenhas de filmes (apresentação de filmes B, desconhecidos), mas a característica dominante (baseada na minha vivência com os fanzines brasileiros que tive, do final dos anos 90 e início do século XXI) certamente é a contra-hegemonia dos seus textos, leituras que não encontramos em jornais diários ou revistas que sempre estão nas bancas, destinadas ao público massivo. Característica esta que certamente instiga a curiosidade em seus leitores, já que em uma publicação podem surgir temas de hardcore a  hip-hop, de culinária vegetariana até o movimento straight edge, de relatos pessoais a debates feministas, entre outros assuntos que abrangem política, sociologia, cultura, música. São pautas que às vezes até surgem, superficialmente, nos cadernos culturais de jornais diários (não é a toa que muitos jornalistas que trabalham nestes cadernos já foram zineiros), mas certamente já foram publicadas muito antes pelos (fan)zines.

Os zineiros contam com a ajuda de amigos e leitores (boas e dispostas almas ainda existem) que encontram em suas publicações um espaço para divulgar idéias, bandas (através de entrevistas, resenhas, críticas, endereço para contatos), ilustrações, quadrinhos e também tem seus fanzines divulgados: os zineiros anotam todos os endereços de pessoas conhecidas que também os produzem, fazem um breve relato sobre a publicação, sua temática, os assuntos abordados e depois divulgam para que outras pessoas entrem neste círculo de amizades e conheçam outras publicações.  Sem dúvida alguma, as amizades surgem devido a isso, já que a troca é bastante comum nessa “sociedade zineira”, que conta com shows e amostras independentes para distribuí-los (infelizmente, é difícil ver um zine ser distribuído em shows nos dias de hoje). O correio também é bastante utilizado para trocar e divulgar os zines, foi um meio de distribuição amplamente utilizado no passado (porém todos os anos surgem, misteriosamente, zines na caixinha do correio de minha casa, prova de que as pessoas ainda utilizam os correios,mesmo nos tempos de e-zines,ou zines virtuais). Se há um valor definido para adquirir o zine, geralmente o preço cobrado para recebê-lo é para custear a postagem, nada mais justo para quem já tem bastante gastos com xerox e tempo produzindo.

Grrrl zines para exposição em show em São Francisco – EUA. Foto: Larry Bob

 Onde e quando afinal teria surgido o primeiro fanzine?

             A resposta gera controvérsias. Zineiros de carteirinha afirmam, sem dúvida alguma, que o zine que conhecemos teria surgido no final da década de 70 (sim, com o movimento punk dos britânicos). Nada incomum se tivesse surgido em meio ao movimento anti-qualquer coisa, independente e anárquico-contra cultural do século XX, não é mesmo? Costuma-se dizer que o primeiro zine tenha se chamado “Sniffin’glue’ e teria sido editado em 1976, na cena do punk inglês (God save the queen, aquele ambiente onde todo mundo queria o pescoço da rainha, ao som dos Pistols). Não é de se duvidar, não é mesmo?

           Entretanto, existe uma outra versão da história dos zines, tão verossímil quanto a primeira do punk na Inglaterra. Os fan(zines) teriam surgido nos Estados Unidos, na década de 30 do século XX. Sim, na grande depressão americana. De acordo com essa versão, o primeiro fanzine da época era conhecido como fanmag (fanatic+magazine), teria sido publicado por Ray Palmer para o Science Correspondnce Club, em maio de 1930. O tal “fanmag” chamava-se The Comet e abordava como temas o cinema e a literatura de ficção científica.

           Eis então,as duas versões sobre os zines. Não importa se a origem foi nerd ou punk,o que importa é que a liberdade de expressão continua sendo a “regra” número um. Mesmo que muitos zines tenham se tornado versões online em blogs (os e-zines), nada substitui o papel, este amor palpável, que nos dá inúmeras opções de colagens, montagens, impressões, versão de bolso, enfim, é aquela velha história de que a TV substituiria o rádio, mas isso não aconteceu. Claro, muitos zines saíram do papel e viraram blogs, mas não acabaram. Os fanzines impressos existirão até quando existirem pessoas querendo fazê-los, afinal, aquele cheirinho de xerox novo é ou não é viciante?

A CONTRACULTURA DO MUNDO SUBTERRÂNEO, pelo viés de Gabriela Gelain*

*Gabriela Cleveston Gelain tenta ser zineira nas horas vagas e é acadêmica de Jornalismo na UFSM. Escreveu também para revista o Viés os artigos ZINES, VÍDEO, MÚSICA, ARTE, SKATE: SESPER e ASSASSINATO NA PACATA HOLCOMB

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Print this pageEmail this to someone
  • Demetrio

    Muito interessante a matéria. Eu também quis fazer um zine um dia, mas… a idéia ficou só na cabeça.

    :(

    Mas pelo menos acabou tendo uma versão virtual (use um navegador diferento do explorer para vê-lo):

    http://fornicarepreciso.blogspot.com/

    :)

  • http://ugrapress.wordpress.com Leandro Marcio Ramos

    Gabriela,

    Parabéns pelo texto, já tínhamos divulgado na página da Ugra Press, mas só agora liguei o nome ao seu zine.

    Um abraço.

    L.

    • Gabriela Gelain

      Leandro,

      Obrigada pela divulgação e por gostar do texto, certamente a Ugra Press é um incentivo a todos os zineiros que enfrentam as dificuldades do underground e que usam a internet a favor da contracultura! o Anuário de vocês é uma grande iniciativa e tenho orgulho por ter feito parte deste no ano passado.

      Abraços,
      Gabriela

  • Daniel Hogrefe

    Massa o texto Gabi, desconhecia completamente essa história dos anos 30!

  • Zé Colmeia

    Vida longa aos skinzines!
    http://www.vontadeluta.blogspot.com