
Madri, domingo, 24 de julho de 2011 – O presente.
Tomados já estavam a Puerta Del Sol e o Paseo Del Prado. Cenários habitualmente tranquilos, pontos turísticos pelos quais milhares de pessoas, espanhóis ou não, passam diariamente, seja para contemplar os monumentos, para visitar os museus ou para se deslocar em meio de um dia normal de trabalho. Tudo tão comum. Mas não, a Espanha, com certeza, está fora de seus padrões de normalidade.
Quando que se poderia imaginar, desde os tempos da Guerra, que, no território espanhol, milhares de pessoas estariam nas ruas, sem teto, sem comida, sem emprego? Sim, um cenário de guerra, na qual os soldados vitimados são os aposentados, os professores, os desempregados e os estudantes.
Acampamentos montados por toda a cidade, principalmente em frente a nobres construções, como o Museo Del Prado e a sede do governo da Comunidad de Madrid. Um cenário realmente chocante, cujas imagens dispensam qualquer juízo de valor sobre as condições dos cidadãos espanhóis frente à crise. Já sem uma residência fixa e sem condições de comprar seus mantimentos, os “soldados” se organizam em cabanas, com um modelo organizacional similar aos comunas em tempos um pouco mais remotos de nossa história mundial. Comem o que plantam, enquanto os restaurantes de toda a cidade permanecem repletos de vento e moscas, inclusive com cardápios super apropriados para a ocasião: Menú de la Crisis – 4,99 Euro. A situação não é diferente nas lojas e no comércio em geral. As tradicionais “rebajas” estavam ainda mais “rebajadas”, com descontos que rondavam a casa dos oitenta por cento nos mais diversos produtos. Nada adiantava. A presença de consumidores nas zonas de comércio era inversamente proporcional ao desconto oferecido.
Gente de todo o país, apelidados de “os indignados”, peregrinaram (a maioria a pé) das mais diversas regiões da Espanha em direção a Madri, onde diariamente exalam as piores conseqüências do sistema neoliberal. Centenas de milhares de quilômetros caminhados, movidos e guiados pela esperança. E ainda sobrava disposição para caminhar pelo centro de Madri levando apitos, bandeiras, faixas e muita voz para criticar o sistema. A polícia local, no momento da manifestação daquele domingo ensolarado em Madri, calculava pelo menos 10 mil pessoas nas ruas. Os organizadores arriscavam dizer que havia mais de 20 mil. A imprensa local, simplesmente milhares. A imprensa do restante da Europa contabilizava 200 manifestantes, enquanto que a imprensa dos demais continentes nem se dava o trabalho de noticiar o acontecimento. Deixando de lado a questão meramente imprecisa e fria dos números, o fato é que o mar de gente e o fervor humano impressionavam.
Madri, domingo, 15 de maio de 2011 – A origem.
Toda revolução tem uma data que marca seu início. Ninguém esperava que na pacata e estável cidade espanhola, sede do governo e de grande parte da ostentação da família real, um grupo gigantesco de pessoas se rebelaria contra o sistema. Diferentemente da maioria das manifestações que presenciamos em nosso País – que acabam apenas servindo como um festejo democrático – esta não tem um motivo específico. Não querem vetar ou estimular um projeto de lei. Não querem que Fulaney saia do governo. Não querem legalizar a maconha. Querem, sim e por fim, uma revolução, um novo sistema, que não marginalize e polarize as camadas sociais. Para isso, contam com o apoio de parcela significativa da população, e com uma esperança que contagia e anima a todos.
Surpreendendo a todos, em 15 de maio de 2011 as ruas de Madri foram tomadas pelos indignados. Pessoas de todas as idades imagináveis e das mais diversas partes da Espanha mostraram, finalmente, a não concordância com o neoliberalismo e seus efeitos devastadores. Desde então, os indignados não abrem mão de seus acampamentos em frente à sede do governo da Comunidad de Madrid (Estado de Madri), contrariando decisões judiciais e a força da polícia, que, somadas, chegaram a proibir as manifestações e os acampamentos por entender que a manifestação “não tinha causa e motivo justos”.
“O Movimento começou quando conseguimos reunir estudantes, desempregados, aposentados e demais vítimas do sistema que perceberam que esse sistema de governo já não dá conta. Não tem mais comida para todo mundo, a maioria teve muitos problemas com a hipoteca, não temos mais onde morar, nem o que comer. O governo já não consegue mais saciar as necessidades básicas do povo” – dessa maneira, um dos milhares de espanhóis indignados explica o movimento, e conclui: “Você ouve alguma coisa disso no Brasil? Não? Pois agora nos ajude a divulgar o movimento então, faça o que eles (a imprensa internacional) não querem fazer.”.
Mundo, 15 de outubro de 2011 – O futuro.
“Estávamos adormecidos, mas o 15-M nos despertou”
“Greve geral, essa é a solução”
“Não somos mercadoria nas mãos de políticos e banqueiros”
Os dizeres contidos em algumas das milhares de placas da manifestação do dia 24 de julho refletem com exatidão a essência do espírito dos indignados.
Com uma enorme convicção na mudança, no fim do neoliberalismo e de suas conseqüências desastrosas, os incansáveis soldados já conseguiram disseminar seus ideais por outras localidades do Velho Continente. As manifestações começam a ocorrer de forma coordenada em importantes cidades européias e o movimento passa a crescer e tomar dimensões que preocupam banqueiros, políticos e a imprensa, que tentam minimizá-lo a poucas e más palavras.
Entretanto, não há maneira de ignorar a situação instável política e social que assola a Europa. Os indignados já planejam uma manifestação gigante em toda Europa para o dia 15 de outubro, convocando todos do mundo inteiro a tomarem as ruas.
Caros Amigos, a Revolução Espanhola está mais próxima do que muitos imaginam. Um movimento que não pára de crescer, apartidário, que já domina a Espanha e estende seus horizontes para o restante da continente e talvez do mundo.
Parece provável que o dia 15-O se torne para a Europa aquilo que o 15-M foi para a Espanha. A partir daí, uma grande mudança será apenas questão de tempo. A revolução apaixona.
A REVOLUÇÃO APAIXONA, pelo viés de Luis Fernando Prado*
*Luis Fernando é acadêmico da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie – SP (6º semestre).




