MICROCONTOS

Micro é a essência. É a sutileza. É o namoro de palavra com palavra. Uma seleção de microcontos do colaborador Calvin Furtado.

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Micro é a essência. É a sutileza. É o namoro de palavra com palavra. Microcontar é um exercício para a mente. De preservar o que se deve preservar, e deixa a imaginação fazer o resto.

Trânsito

Aquele monte de latas metálicas multicoloridas de quatro rodas circulando. O som emitido. Os postes, pedestres, coletivos. Era pra fugir disso que acelerava, cada vez mais.

Pé na bunda

Com o coração partido ela tentou se vingar. Tomou um banho de loja, se perfumou, bebeu e dançou. Mas era tão infeliz que não conseguiu dar.

Janela de Asilo

De fora só se via as calcinhas das velhinhas penduradas na janela. Ficavam lá, sem filhos nem netos. Às vezes a morte vinha e levava uma delas pra fora do asilo.

Humanos

Todos os dias era a mesma coisa. Dormia e acordava. Comia e cagava. As vezes fodia, mas sabia que nunca poderia voar.

Fakes

Era um twitteiro de plantão. Toda sua vida era dada em 140 caracteres. Ele pensou em twittercídio, como o Bonner, mas todos seus contatos deram unfollow, e ele voltou a se sentir um fake de si mesmo.

Escova de Dentes

Quando a mandei embora batendo a porta eu estava decidido. Jamais voltaria atrás, como não o fiz. Na pia do banheiro, um vestígio, a escova de dentes escabelada, a única coisa que me fez lembrar o início, o fim, e derramar lágrimas pelo que foi o meio.

Trajetória

No canto vazio, recluso, descansava o poeta. Da vida soube muito, da experiência compôs sua obra. Aprendeu muito sobre valores. Morreu pobre, o poeta.

Bicicleta

Quando abria os olhos, Ramiro já sabia o que queria. Queria montar nela. Queria acariciar todas as suas partes. E montava sempre com amor. Como amava aquela bicicleta, pensava.

Mistérios

Delirava na solidão do pampa longínquo. Bob se sentia apertado, nessa vida, haveria algo mais. Queria conhecer os mistérios do corpo. Os mistérios do corpo que ali se escondia.

Psicótica

Romances efêmeros. Era tão boa que nunca conseguira se apaixonar de verdade. Tornou-se uma fábrica de corações partidos, a menina psicótica.

O Poeta

O menino descobriu que era poeta. A própria dor e frustração eram inspiração. A inquietude transbordava em lágrimas, e ele escrevia. Escrevia e crescia, longe de tudo, perto de todos.

Ressurreição

Entrou em trabalho de parto no velório do marido. O pranto nunca fizera tanto sentido, e o sorriso nunca foi tão oportuno. Enterrava a infidelidade, e estava pronta para Omar novamente.

O Derrotado

A vida ensina. Olhou-se no espelho e não reconheceu o semblante. Olhos vermelhos, respiração ofegante e a sensação de derrota. Há tempos que perdia pra si, e o saldo eram lágrimas e vômito.

Game

Jogar baralho, jogar sinuca, jogar tarô. Jogar a vida fora. Jogar o jogo da vida, e só perder. Desejar coisas ao céu, e só padecer.

Vazio

-É que toda vez que fico perto de ti, eu sinto um vazio. E eu só posso preenche-lo com teu beijo. Quando penso nesses lábios, me afasto do resto do mundo. É bom.
Aí ela desligou o telefone.

 

O vidro

Por mais que minha mãe tentasse esconder, eu sabia que estava do outro lado do vidro. Todos os meus colegas estavam na vitrine, eu era os olhos que os invejavam.

 

MICROCONTOS, pelo viés do colaborador Calvin Furtado*

*Calvin Furtado é jornalista. Leia mais de Calvin Furtado na revista o Viés

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