QUEDA LIVRE

Sempre detestei aquele trabalho. “Enfadonho”, tossiria o meu avô. Por Renato Tardivo

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Parte da pintura "O velho, o rapaz e o burro".

Sempre detestei aquele trabalho. “Enfadonho”, tossiria o meu avô.

Eu não sabia o significado daquela palavra estranha. Na escola, era mediano por excelência: jamais fui reprovado, jamais obtive um oito. Mas bobo eu não era e, de cultura tossida, como o legado do meu avô, eu nunca quis saber.

Havia coisa mais importante. E era a convicção de que aquele trabalho guardava a minha grande oportunidade.

Comecei boy. “Muito bem”, disse o avô, “o trabalho dignifica o homem, meu filho”.

Nunca entendi bem as razões, mas o dono do cartório, para quem eu prestava diretamente a maioria dos serviços, sempre apostou suas fichas em mim.

Em pouco tempo, passei a chefe de outro boy; coordenava, atrás de uma mesa, o seu vaivém pela cidade. Estava ficando mais confortável pelo menos.
Quando concluí os estudos, o patrão me chamou em sua sala. Veio com uma conversa esquisita, tinha real interesse em bancar os meus estudos na faculdade, desde que em um curso noturno. “Faculdade?” – eu levei um baita susto.

Em casa, meu avô, que já não tossia, balbuciou convalescente um viva às pessoas de bem.

Entrei em Ciências Contábeis.

Minhas atribuições no cartório foram encorpando à medida que eu avançava no curso. Quando dei por mim, estava formado e era, depois do meu chefe, a pessoa mais importante naquele estabelecimento enfadonho.

Casamentos, contratos, balancetes. Era a mesma chatice de sempre. No entanto, havia uma coisa, esta sim, de que fui gostando mais e mais com o tempo. Via os casais chegarem com a criança. Às vezes eu mesmo fazia o registro e, nessas ocasiões, me regozijava com tamanho poder. A pessoa passava a existir para o que, no fim das coisas, importa nessa vida depois daquele registro. O meu registro.

A certidão de nascimento tinha, para mim, poder parecido com mágica. Simples: uma folha de papel, alguns dados, o nome e só.

Mas tinha mais.

Um dia, o fascínio por certidões de nascimento exorbitou. E eu tive uma grande ideia. A ideia que me salvaria.

Eu podia criar uma pessoa. Bastava digitar uma página. Poucas palavras. Um nome. Data e local de nascimento. Avós. Pai e mãe.

Mãe. Eu não tenho muitas lembranças da minha. Restam apenas três imagens e a mesma tristeza nos olhos. Eu devia ter uns nove anos quando comecei com essa história. Dizia à minha mãe (eu só tinha nove anos) que, para mim, havia uma única solução: morrer e nascer de novo. Ficava desconsolada, a pobre. Quem morreu foi ela. Acho que de desgosto.

Desde então, vivi obcecado pelo grande feito: morrer e nascer de novo. Mas jamais vislumbrara uma possibilidade real para isso. Para mim. E posso dizer que me resignei. Até o dia em que tudo mudou.

Assim que registrei o meu nascimento, eu saltei para a morte. Este era o grande segredo: de fato não conseguiria morrer e nascer de novo. Eu não era bobo e descobri que precisava primeiro nascer de novo para, em seguida, morrer.

Foi o que fiz. Joguei-me ao encontro de pontos distantes. Luzes, corpos, vultos. Lá embaixo, um emaranhado de signos.

E fui dar nesse breu em que não se sabe direito quem é quem. Em que não há chão. Onde as palavras voam, à procura de si mesmas, para aterrar em areia movediça. Eu crio pessoas.

E, como mágica, reverto a tristeza da mãe. Transformo o avô no meu leitor principal; às vezes penso que ele e o dono do cartório sempre foram a mesma pessoa. Enfim escritor, eu sigo a forjar vidas – a minha e a dos outros.

QUEDA LIVRE, pelo viés do colaborador Renato Tardivo*

* Escritor, psicanalista e professor universitário. Tardivo é autor de Porvir quem vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica e do livro de contos Do avesso, do qual faz parte este conto.

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