LIBERTAÇÃO – A CAMINHO DA REDENÇÃO

Sonhaste com um mundo todo teu. Viveste nas entrelinhas das metáforas. Colaboração de Fabíola Weykamp.

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Sempre foste um menino.

Mesmo quando o destino lhe

impôs responsabilidades que não

deviam ser de um garoto de 15 anos:

foste homem e menino.

 

Homem por alimentar

uma família inteira de muitas

e tantas bocas familiares ─ e agregadas.

Homem na hora do braço firme.

De dar peito e sangue vivo ao batente.

Lutar pelo pão de cada dia.

 

Menino por ter os olhos brilhantes

quando o almoço, com o teu suor, era servido.

Todos os dias, sem falhar, sempre pontualmente.

Menino na hora de receber o pagamento.

Bobo como se ganhasse um brinquedo novo,

mas logo era acometido pela consciência

do homem maduro e sério ─ o investimento

necessário e único: tua família,

e os agregados que também eram teus.

 

 

Sonhaste com um mundo todo teu.

Viveste nas entrelinhas das metáforas.

Trabalhaste e serviste para os outros ─

não para ti. Mas esta era a tua consolação.

O servir em nome de outrem. Para outrem.

Criastes laços de amor. Fizeste tua família.

Ainda jovem, mais e outras tantas responsabilidades.

Encaraste-as no peito. No braço. No coração.

Filhos teus. Tuas meninas.

Todas as três com o teu nome.

O teu sangue.

 

Nunca deixaste de ser menino.

Embora eu seja a tua última:

nunca deixaste de ser o meu menino.

 

 

Acordasses, aquela vez, lembra?,

no meio da noite,

com medo do pesadelo.

Gritasses por mim, pelas tuas gurias com os teus genes.

Fui eu quem acendeu a luz.

E te tirei do medo do escuro.

Ali, com os olhos tristes e a fronte suada:

eras o meu menino.

Dei-te o teu sorvete preferido.

Dei-te meus sorrisos também

para espantar os monstros do

teu maior pesadelo.

Dei-te meu amor,

porque em toda a minha vida,

até o último suspiro,

foi, se não, só amor que me deste.

 

Ali, mais ainda, fosteso meu menino,

 meu guri.

 

 

No meio do pesadelo,

Entre dor e desespero do futuro

que não viria na terra – mas em outra morada,

pedisses meu consentimento para partires.

 

Pedisses em voz rouca, mas alta,

mas lúcida. Todas nós ouvimos.

O pedido foi para mim: liberta-me!

E como se eu detivesse de todos os poderes divinos,

sorri e disse-te em segurança ─ que não costumeira minha:

Eu te liberto! Estás livres!

Formou-se sorriso teu. Lúcido, apesar de.

 

 

Depois de tantas chuvas fecundas –

em limpar e renovar a terra, a alma, a vida –,

já não tivesses o mesmo medo de outrora.

Estavas plácido. Como o céu de hoje.

 

 

Agora,

tens os olhos cerrados do menino que sonha.

Olhos cerrados do homem que nunca

deixará de viver entre nós.

 

Somos tu.

 

O homem que conheci e sempre me orgulhei.

O do embalo. O do canto e encanto:

eu te liberto, nova e mais significativamente dessa vez.

Eu te liberto nestas linhas,

para viveres a vida somente para ti.

Eu te liberto de meu coração ─

inconformado e amargurado  ─

para somente seres feliz

onde quer em que nuvem estejas.

 

Eu te liberto, eu te amo.

Volte a viver!

 

LIBERTAÇÃO – A CAMINHO DA REDENÇÃO, pelo viés da colaboradora Fabíola Weykamp*

*É estudante de Letras na Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Já publicou na revista o Viés com ‘O Crucifixo’.

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