MANIFESTO PUTANHEIRISTA – INTRODUÇÃO

Aqui dorme Bocage, o putanheiro: Passou a vida folgada, e milagrosa: Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.

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Fornicar é preciso, viver não é preciso! A frase que abre este manifesto poderá talvez chocar aquele sujeito que, acostumado ao torpor individual do seu ego cotidiano, crê singelamente que para fornicar é preciso estar vivo… Ora, isto é um truísmo! Uma indecência intelectual! É evidente que para fornicar é necessário estar vivo. A vida biológica tem exigido amplamente, para se reproduzir pelos milênios afora, a prática da fornicação constante e continuada. É fora de dúvida que para fornicar deve-se estar vivo. Não é disso que se trata.

O que o três vezes néscio e mentecapto se esquece é que, se considerarmos que o indivíduo social é muito mais que a sua realidade orgânica e que, para se constituir como tal, deve necessariamente entrar em contato e se apropriar de uma imensa variedade de manifestações de vida forjadas pelo gênero humano, podemos concluir que esta vida vivida no interior da sociedade burguesa, na qual todos estamos apartados de praticamente tudo aquilo que é produzido pela coletividade, não é de fato uma vida.

Sim! Acreditamos que viver solitários e isolados, sem a possibilidade de desfrutar da produção humana em todos os âmbitos de sua atividade e submissos a uma estrutura de controle impessoal e hierarquicamente estabelecida sobre nossas ações, parece tudo, menos uma vida genuína. Parece-nos que isto, em verdade, se assemelha mais à morte. É contra esse tipo de existência que nos insurgimos e é esse tipo de “vida” que tomamos como objeto de negação. Por tal razão, segundo crêem os autores deste manifesto, “viver” – isto é, viver da maneira que realiza as exigências do sistema do capital – não é preciso.

Situados nesse contexto, os homens e mulheres contemporâneos encontram-se submetidos à lógica degradante daquilo que alguns sociólogos chamaram de racionalidade instrumental. Cada pensamento, sentimento ou gesto em nossa sociedade está fortemente influenciado por tal fenômeno. Um exemplo que se pode dar para isto é o movimento dos indivíduos andando pela rua. Qualquer um pode comprovar: vai-se sempre a algum lugar, sempre apressado para acertar um negócio, dirigindo-se para o trabalho ou para casa. Não há nada de gratuito na maioria absoluta dos comportamentos que exercemos em vigília nesta sociedade específica em que vivemos.

Este sistema, no interior do qual estamos aprisionados, nos coloca, individual e coletivamente, inúmeras pressões, imposições, prazos, compromissos, disciplinas, padrões aos quais devemos nos adaptar, modelos a seguir, medos e inseguranças, disciplina, ordem, etiquetas, tarefas maçantes, práticas monótonas e repetitivas, competição, concorrência, um complexo de atividades que presentifica a lógica de relações preponderantes na dimensão mais geral da sociedade no nívelparticular da nossa existência cotidiana. O sentido de tudo isso é o fetichismo: um conjunto de processos que se desenvolve automaticamente, que foge do controle das pessoas, que passa a controlá-las e que cria uma mística em torno de si que faz crer os incautos que ele, o sistema, constitui uma realidade eterna, imutável, indestrutível e natural. O resultado disso é, na maior parte das vezes, uma melancolia completa e renitente, uma solidão quase que absoluta, um pessimismo totalitário que nos domina, uma descrença na própria capacidade humana e uma atitude na qual reproduzimos, no plano do micro-cosmo das nossas relações inter-subjetivas, a destrutividadeimperante no macro-cosmo social – destrutividade esta que é vivenciada, não raro, no mundo íntimo, como auto-destrutividade.

É na contramão desses fenômenos que surge em Santa Maria (RS) – uma cidade periférica de um estado periférico de um país periférico do sistema mundial -, como expressão de um conjunto de práticas sociais noturnas compartilhadas pela juventude oriunda das classes desfavorecidas da região, uma manifestação cultural no plano da literatura que, depois de rondar pelas sombras por muito tempo, resolveu se revelar e se assumir perante o público local: o putanheirismo.

O putanheirismo nasce como uma postura de resistência e protesto contra o atual estado de coisas na nossa sociedade, e parte da assunção de verdades simplíssimas, expressas magistralmente pela pena do venerável Bocage, que tomamos agora como santo padroeiro – ou santo putanheiro – do movimento nascente:

Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi-gratia – o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:

Não quero funeral comunidade,
que engrole sub-venites em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:

Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:

“Aqui dorme Bocage, o putanheiro:
Passou a vida folgada, e milagrosa:
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.”

Aí está resumido o núcleo duro da filosofia putanheirista! Comer, beber e foder sem ter dinheiro: a essência da vida boêmia em Santa Maria.

Diariamente, observamos, em nossa cidade, as queixas dos sujeitos que reconhecem a miséria de sua condição social, econômica, política e cultural. Tudo lhes falta! São esquecidos! São marginais! Todos os que chegam, oriundos de várias partes do estado e do país, que deixam, às vezes, situações mais áridas que a nossa, vem com a intenção de adquirir conhecimento, de expandir sua cultura, de obter melhores condições de vida, uma existência mais digna para si e para os seus. No entanto, uma vez aqui residindo, deparam-se não raro com situações extremas, necessidades de todo tipo, tarefas, obrigações, pressões, carências, que fazem suas vidas ganharem contornos dramáticos. Não têm oportunidade de expressar suas melhores potencialidades: devem seguir ordens. Não encontram meios de desenvolver suas amplas capacidades: têm apenas de sobreviver. Não podem ao menos soltar aos céus um grito de protesto: até a palavra lhes é negada. Sentem na carne a dureza absoluta de uma sociedade fria, cruel, embrutecedora e fútil.

Por causa disso, esses milhares de anônimos, ávidos de valor, de respeito, de consideração, de afeto, de consciência e de ser, encontram apenas no putanheirismo sua luz e seu amparo. Comer, beber e foder sem ter dinheiro, e encontrar alguma forma de fazer sua vida repleta de cor, sabor e sentido.1

(1. Não reivindicamos originalidade sobre o comer, beber e foder sem ter dinheiro. Como se sabe, essas práticas são milenares e têm a idade mesma da humanidade. Damos apenas um significado político e estético a esses atos dentro de uma conjuntura histórica concreta. Mas é claro que se pode dizer que, quando os putanheiros de hoje nasceram, o putanheirismo já era velho. Paradoxalmente, quando os putanheiros de hoje forem velhos, o putanheirismo ainda será… jovem.)

O putanheirismo não é uma fuga deste mundo, é apenas uma maneira de driblá-lo. Comer, beber e foder sem ter dinheiro não é para os putanheiros um entorpecente. Nada disso. É uma maneira de re-encantar a vida, ou, ao menos, de tentar fazer florescer outra vez em nossa existência os momentos mágicos que o sistema do capital busca incessantemente apagar: a poesia, a paixão, a imaginação, a magia, o maravilhoso, o sonho, os afetos sinceros e desinteressados, a camaradagem plena, a revolta, a utopia, a revolução e todos os tipos de relações humanas em que o outro aparece não como um meio, mas como um fim. O putanheirismo é, assim, o movimento de negação radical de um conjunto de processos degradantes e de afirmação de um novo encantamento que se desprende de toda e qualquer prática em que o outro – ao contrario do que acontece hoje em nossa sociedade – aparece como sujeito e não como objeto para si e para nós.

É nesse sentido que os putanheiros afirmam, de peito aberto, em alto e bom som, para quem quiser ouvir: Fornicar é preciso, viver não é preciso! Fornicar sempre! Mas fornicar com este significado preciso de re-encantar a vida. O putanheirismo se converte assim em poética boêmia e em boemia crítica.

Mas as pessoas também fornicam no capitalismo – dirá o néscio, arrogante e prepotente. Ora – respondemos -, é claro que as pessoas fornicam no capitalismo. E fornicam muito! Mas o que está se propondo é um novo tipo de fornicação, não “coisificada”, não comandada pela mortífera lógica mercantilista, não dominada pela racionalidade instrumental, não submetida ao etos do consumo e do espetáculo que predominam em nossa “civilização”. O capitalista fornica sem ternura. Os putanheiros, ao contrário, acreditam que é preciso fornicar, mas sem perder a ternura. Jamais!

O putanheirismo possui, enfim, um posicionamento político e, enquanto movimento cultural e literário, não é nada mais que, como dissemos, uma expressão de certas práticas sociais noturnas compartilhadas década após década pela juventude boêmia de Santa Maria. Diante disso, afirmamos que todos, homens e mulheres, sem distinção, podem ser putanheiros. O putanheirismo possui asas amplas e generosas capazes de abrigar a todos que desejam se assumir como tais. A condição de putanheiro não é, segundo cremos, dada pela natureza, e sim obtida pelaescolha consciente dos sujeitos envolvidos e pelo exercício contínuo da putanheiragem no dia-a-dia.

Quem até hoje não foi atacado com a pecha de putanheiro? Quem até hoje não sofreu discriminação, ofensa, censura, preconceito por algum gesto de putanheirismo que eventualmente tenha praticado? O teor de putanheiricidade de um ato se avalia pela quantidade e qualidade de alegria e gratuidade a ele subjacente. E é isto o que esta sociedade condena: os putanheiros rompem com a forma de felicidade comprada em lojas, com a felicidade advinda do universo das mercadorias, com a felicidade-fetiche. Sua felicidade é artesanal, produto do mais genuíno contato inter-subjetivo entre as almas e os corpos. O putanheirismo é, dessa maneira, o movimento cultural que em Santa Maria resiste a ser subsumido aos imperativos da ordem vigente. É prazer, arte e alegria gratuitos. Imbuídos desse sentimento, os putanheiros denunciam, por exemplo, o sacrilégio cometido com o vinho, a sua mercantilização, e projetam um futuro onde esta preciosa bebida será patrimônio de todos, não fagocitada pelos mecanismos do mercado, e sim emancipada, propriedade comum da humanidade, produzida pela coletividade e consumida em conjunto. Distribuída generosamente em todas os lares por vinodutos que a engenharia putanheirista do futuro irá conceber.

Os putanheiros não se alimentam do desejo de fazer do outro um meio. Também não querem ser, eles mesmos, meios para o outro. É isto o que a cultura hegemônica preconiza: transformar pessoas em objetos, alijando-as de tudo aquilo que é produzido pelo conjunto da humanidade. Mas os putanheiros lutam contra isso, e, nesse movimento, encontraram um modo de resistência e de crítica cultural: a composição coletiva embriagada, o princípio que os faz transcender o individualismo mesquinho da sociedade contemporânea, superar o ego costumeiro, e realizar uma experiência de comunhão dionisíaca com o outro.

Mas que fique claro: o putanheirismo não nega o indivíduo, não o sufoca, não cerceia a sua liberdade e autonomia relativa. Mas também não o eleva a um pedestal, não o coloca no céu. Deixa-o em seu lugar. Respeita o indivíduo pois o considera uma expressão do coletivo. Contudo, nunca despreza nem diminui a coletividade: ele a toma como seu princípio, seu alfa e seu ômega. O putanheirismo rompe com o antagonismo existente em nossa sociedade entre indivíduo e coletivo.

As composições putanheiristas levam desse modo a marca plural da coletividade. E levam também a marca inconfundível da embriaguez. Por esse motivo, tais obras não guardam a harmonia comumente vista nas produções individuais e sóbrias. São, no mais das vezes, dissonantes na sua estrutura, aparentemente sem coesão, esdrúxulas para alguns, porém são coerentes. E é esta, justamente, a técnica do putanheirismo, que, em si mesma, se orienta por um objetivo: criticar radicalmente a sociedade fetichista estabelecida e re-encantar a vida. Este é o princípio que organiza a literatura putanheirista. A composição coletiva embriagada é uma articulação – não unidade, nem identidade – de subjetividades diversas, e é uma mobilização de energias criativas insuspeitas em favor da transformação radical do nosso modo de vida.

Estas são, pois, as bases da estética putanheirista, elementos pelos quais se pretende não fugir da realidade, não fugir do sonho, mas também não se prender definitivamente a algum desses extremos. Os putanheiros visam à superação desses opostos e para isso engajam-se na busca do momento em que realidade e sonho convergem. Isto significa, em outras palavras, que a estética putanheirista é necessariamente uma estética do despertar.

A estética putanheirista deseja, assim, estabelecer uma relação especial com a sensibilidade popular, expressando-a e tornando-se una com ela. São princípios do putanheirismo: não fazer com as palavras aquilo que o burguês faz com as mercadorias; não fazer com as palavras na vida pública aquilo que o sujeito faz com as palavras na privada; não fazer com as palavras aquilo que o pavão faz com as penas. E, além disso, os putanheiros procuram fazer mil outras coisas. Por exemplo: roubam versos e formas alheias de poetas incautos e modificam-nas a seu bel-prazer. Fazem outro uso delas. Subvertem a ordem primeira dos poemas e das técnicas de escrita, tiram-nos de suas relações originais e inserem-nos, já modificados, em outras completamente diferentes.

No afã de levar a cabo seu projeto estético-político, os putanheiros não renegam bebida alguma: cerveja barata, cachaça com butiá, com bergamota, com laranjinha, o popular samba (cachaça com refrigerante de cola), vinhos de fabricação caseira, todo tipo de produção etílica concebida em fundo de quintal e que poderia parecer reles aos olhos do puritano moralista e hostil, tudo isso o putanheiro autêntico transforma em ouro com seu toque de Midas de boêmio.

Esses elixires são o ponto de partida para o bom e velho ritual profano do “caminhão do lixo capotado” – do latim: capotatum est malaio kaminan – a que os putanheiros gostam de se entregar. Trata-se de uma prática milenar, exaltada pelos povos bárbaros da antiguidade – com similares entre as sociedades pré-colombianos da América – que comemoravam um ano de boas colheitas através de rituais nos quais se enodavam em lodo, chafurda, vícios, torpezas e excrescências humanas. Com o crescimento dos grandes centros urbanos, essa prática passou a ser conhecida apenas por “virar o caminhão do lixo”. Embora hoje em dia as cidades contem com sistema de coleta seletiva por meio de contêiner, a essência do ritual não se modificou: vira-se o caminhão do lixo para que a opulência de dejetos, chorume e demais materiais poluentes não contaminem corpo e alma dos envolvidos na liturgia.

Assim, os putanheiros se reúnem à noite para brindar e celebrar. Bebem em memória de todos aqueles que, como eles, foram marginais na história. Os putanheiros não esquecem de nenhum. Pelo mili-segundo em que dura o tilintar de suas taças, recordam em seus corações de todos os escravos, servos, trabalhadores braçais, desempregados, pobres, maltrapilhos, condenados injustamente pelo poder estabelecido, ladrões, prostitutas, discriminados, bruxas queimadas nas fogueiras, todos aqueles que batalharam, labutaram, se organizaram, que planejaram, que cultivaram a expectativa de emancipação, todos os que morreram sem ver seus sonhos realizados, todos os oprimidos por tiranos, todos os que foram escorraçados em prisões, masmorras e celas, todos os desamparados em quartos de pensões e em leitos de hospital, os doentes e os deformados, os paralíticos, os deficientes, os aleijados, todos os que mendigaram pelas ruas, os que sofreram de doenças incuráveis e prematuras, os mutilados, os que morreram na fila do SUS, os órfãos, os torturados, os perseguidos, os que se suicidaram, os que sofreram na carne o ódio e a violência alheia, os viciados em drogas, os que experimentaram a angústia da solidão, a melancolia do abandono, do desprezo, o infortúnio da miséria, da feiúra e da fome, todos os que foram repudiados, denegridos, raptados, desterrados, exilados, todos os que deram o seu melhor e mesmo assim perderam. Numa palavra, todos os párias da humanidade. Durante um átimo, esses desprezíveis e humilhados brindam, em espírito, junto com os putanheiros do presente.

Os putanheiros, os melhores, grandes ou pequenos, mortos ou vivos, mantêm um acordo tácito entre si: comunicar-se e ajudar-se uns aos outros, ler e trocar seus poemas, divulgá-los e espalhá-los aos ventos, como sementes a germinar pelo mundo. Querem inflamar nos outros a fé nos pequenos feitiços cotidianos da poesia, do amor multiplicado e repartido de graça, da alegria espontânea entre amigos, do riso descontraído, da solidariedade sincera e desinteressada, do carinho preciso e do prazer genuíno, do acolhimento, do amparo e da palavra de apoio, do ombro oferecido ao parceiro e da camaradagem plena, da gratidão, da linguagem bem empregada para embelezar as situações corriqueiras, do bom humor, da ironia, da união entre iguais na luta, do respeito mútuo, da coragem, do erotismo autêntico e sem culpa, da abolição das hierarquias, dos sonhos justos e generosos de dias melhores que virão, da assunção da própria vida, da perpetuação da chama da esperança, da fé na virtude e na capacidade humana, da tenaz resistência frente ao inimigo, do aprender com os erros, da experiência compartilhada, do orgulho necessário a quem quer permanecer humano – e se recusa a se tornar menos ou mais que humano -, da memória das lutas, dos anseios mais sinceros por realização, do desejo de superação, da atribuição de valor às pessoas sem status, sem honras, sem medalhas, sem títulos e sem propriedade, da convicção sobre a possibilidade inerente a homens e mulheres de usar a arte para combater os processos de desumanização levados a cabo pelo sistema do capital.

Para isso, os putanheiros possuem uma linguagem especial que utilizam para trocar idéias, mesmo que se situem distantes, em quadrantes ou dimensões diversas. Os mais velhos sempre ensinam os mais novos. Mas seu ar não é professoral. Respeitam a autonomia dos jovens e deixam-nos livres para criar, e até para superá-los, se assim o conseguirem. Um putanheiro não fica triste quando é superado por outro. Ele sabe que é isso mesmo o que deve acontecer. Faz parte de sua visão de mundo a certeza de que mais honra a tradição putanheirista aquele que aprende como superar os mestres.

Às vezes, quando se sente solitário e vencido, um putanheiro tem uma vontade repentina de ir à janela ou à sacada de seu apartamento. Vai até lá, olha para cima por um instante, observa o céu azul ou a abóboda noturna, deixa de lado as preocupações cotidianas, inspira o ar profundamente e sente, nesse momento, o universo inteiro penetrando em seus pulmões. Elementos que viajaram uma distância incomensurável, vindos de galáxias distantes e sem nome, entram pelas suas narinas e começam a trocar elétrons com os átomos de seu corpo. Mas há algo estranho ali, não é só ar que adentra suas vias respiratórias, é um encanto novo, uma energia envolvente, um significado diferente, um afago, um sorriso, uma idéia enviada por putanheiros de todo o cosmos, seus valiosos amigos do peito. Então, de súbito e inesperadamente, ele ouve o som da campainha, dirige-se à porta, abre-a e… eis que é outro putanheiro a lhe convidar para sair e tomar um trago de cerveja!

Nada mais alegre que uma noite putanheira! Nada mais rejuvenescedor! Nada mais encantador que perambular pela noite santamariense como vagabundos, de bar em bar – Bar do Orlando, Bar do Garça, Bar do Velho Manco, boate do DCE e todos os demais templos profanos de nossas práticas libertárias -, como abelhas coletando o pólen que resultará no mel de nossas composições. Nada mais inaudito que fazer a “rota da cerveja”: atravessar o centro da cidade tomando ao menos uma garrafa em cada bar que se encontrar aberto no caminho, e escrever, bêbados e em conjunto, um, dez, mil, vários poemas durante o percurso.

Numa dessas noites, em que quatro ou cinco putanheiros se encontravam “ao Deus dará”, nasceu o putanheirismo enquanto movimento estético-cultural, e que agora entra para a história literária deste país com a revelação ao público dos seus poemas fundadores:

Meditações putanheiras

Inauguro a palavra rôla
Palavra atada à cintura
Sem bainha que a possua

Rôla – palavra apalpada no escuro

(Palavra roliça,
Roçada,
Rolada,
Jamais encruada.)

Rôla – palavra imprensada
Uma vez infiltrada
Inaugura o retorno

Rôla – palavra dura afeita à cabaça
Uma vez frente aos lábios
Impostada e veiuda
Não há uma que resista muda

A trolha estocada
Não adivinha
A profundidade do gume

Na curvatura da sombra
Não há dedo nem lume.

Rôla, palavra ereta
Palavra maldita
Palavra em pé

Rôla – palavra sem aura
Desencantada
Teu nome é trabalho
Martelo, machadinha
Maçaneta, compasso
Betoneira, picareta

Rôla, palavra picaresca
Quiçá, romanesca
Quando ejacula o discurso
Apresenta o fantástico.

Oh, falo cruel, falo perverso
Desdenhoso falo.
Hermético, herege,
Erótico
E sem freio
Falo, palavra que atravessa.
…………
Copromancia II

Nunca é suspeito
Quem peida de terno.
(Alguém desconfia
Da aparência de eterno?)

Nunca é suspeito
Quem peida de farda.
(Daí, esse fato
Ninguém nunca aguarda…)

Mas quem não carrega
O extrato de um peido?
(Pra assumir o flato,
É preciso ter peito.)

E de terno ou de farda
Alguém peida menos?

(Peida mais, e mais fácil!)

Liberto da farsa,
Liberto do fardo,
Do terno despido,
Da farda privado,
Um peido modesto,
Um peido mui terno,
Se mostra, sincero,
Num vaso moderno…

Ora, o peido é o direito
Da livre expressão;
E a merda é a matéria
Que nos une, irmãos!

Ter fardo é ter peido;
Ter farda, também.
Mas do último cheiro
Não sabe ninguém.
Às vezes, confunde
Ter alta patente:
Faz crer o povão,
Faz crer o vivente,
Ser mais do que tudo,
Ser mais do que gente.

E de odores ingratos
De bostas e flatos,
Não falo mais nada:
Agora, só faço.

Com farda ou com terno,
No mato ou patente,
No verso e no vaso
O peido é corrente.
………….

Sábias e oportunas recomendações ao camarada Uiliam Boff, para que nunca se esqueça nem perca de vista a arte putanheirista do bem-viver

Não lamentes, Uiliam Boff, teu estado:
Pobre tem sido muita gente boa;
Não ter posses, vintém, não ter coroa
Não faz a ti (dos teus) menos amado.

Mais feliz que o burguês é o pé-rapado
Que zomba o capital e vive à toa.
Que a falta de dinheiro não te doa
Nem te faça o coração preocupado.

Goze a vida, tenha amigos porretas,
Coma, beba e foda com galhardia.
Brinde e se regale na companhia
De jovens, macias, garbosas bucetas,

E os louros, posses e as vis etiquetas
Enfie tudo no cu da burguesia.

………..

Prescrição (infelizmente) necessária para que Guilherme Roos dos Santos não se deixe abater e nem seja levado cedo demais pela traiçoeira epilepsia

Diz-se que, desde quando era fedelho,
A buscar fodas Guilherme já se ia.
Curto em tamanho, largo em putaria,
Continha a custo o cabeção vermelho.

Cresceu, e não mudou depois de velho:
Bebe e fuma, fornica e faz folia.
E se não fosse a vil epilepsia,
Eu não daria aqui o meu conselho:

Corte o fumo, cuide muito a saúde,
Exercite o corpo bastante e amiúde,
E troque a cachaça pela água pura.

Mantenha a mente em paz, e sempre atenta,
Fodendo sem parar até os oitenta,
Vivendo até morrer de pica dura.

……………..

Para Adriano Souza, como sincero agradecimento pelas lições de putanheirismo dadas durante uma juventude vivida no interior do RS, pródiga em noitadas, festejos e celebrações

Meu bom Adriano, eis que é chegado o dia

De eu ir-me embora em busca de meus planos.

Sei que pensavas que eu não partiria

De aqui tão cedo, dentro de mil anos.

Eu levarei a tua sabedoria,

Bem como a luz dos lúcidos insanos,

Que mais se pareciam com mil Adrianos,

Que, à noite, encantavam Santa Maria.

Levarei retrato teu na bagagem.

Mostrarei em outras plagas a imagem

Deste sábio que nunca hei de esquecer:

Um mestre da boa arte de comer,

beber, foder, viver sem um vintém,

e olhar discreto p’ra bunda de alguém.

………………..

Soneto ao seio sorridente

Vocês não acreditam, mas eu vi:
Enquanto a jovem moça se abaixava,
– Que emoção e que estupor eu senti! –
Um seio! Um seio se me mostrava!

Mas não foi por isso que enrubesci.
Aquilo que, em verdade, me espantava
Não era tanto ver o seio em si,
Mas ver que o seio sorria e me olhava.

Pensei, ponderei rigorosamente,
Quis seguir meu caminho novamente,
Mas vi que ele me olhava com desejo.

Então, fui até lá sem mais receio.
Saudei, mui respeitosamente, o seio:
“_Com licença!” – e dei-lhe um belo de um beijo.
………

Tercetos putanheiros

O defloramento do ego cotidiano,
dois pontos:
O Putanheirismo.

Eu quero a brasileirinha
De pentelhos alemães:
A Cerveja.

Abro um debate
Como quem abre
A braguilha.

Eu quero o rubi
Entre suas pernas:
Pedra rara.

Um malandro é um marinheiro
Que dorme de janela aberta
Num submarino.

Asfixia: uma borboleta
Me deu uma gravata.
Presente de grego.

Teu beijo
Saiu
Pela culatra.
………..
Café inverso

No café, estavam seus corpos,
seus copos, seus aromas,
um perfume feminino
e uma semente ávida
a renascer na boca:
a infalível, a inefável,
a lúcida, a louca
semente da poesia.

O gole escuro da poesia,
às vezes, amarga o doce;
às vezes, adoça a morte.
As vezes em que bebo o mundo,
em verso a vida expresso.
…….
Moça do traquejo

Minhas pupilas se embriagam
Com a magia desse traquejo.
Vem…
Aproxima teu corpo
Para a profanação da tempestade.
Abençôo tua pele, teu colo,
Para o decote dos meus olhos,
Para a moldura dos
Espelhos sem pálpebras
Que atravesso.

Teu traquejo,
Pão-de-queijo
Que não como,
Beijo.

Saboreio cada gota dos suspiros teus.
Eu sou boca de lobo
E te sorvo toda.
Eu sou a sombra desejosa
Do calor de tua luz.
Sou oceano em teu umbigo,
em teu mamilo,
Mendigando um sussurro
Da tua voz.

Algo entre o púbis
E
A palavra: orvalho em gozo.
……….
Santa Putanheira

Santa Maria,
Da boca perdida,
Dos montes de beijos,
Dos montes de escombros,
Da rala cultura,
De muitos enigmas,
Prostituta Maria,
Uma santa qualquer
Jogada às ruas.
……..
Diva dos meus sonhos

Oh musa britadeira que trouxeste
ruídos decantados da cidade,
empresta-me um som bruto e ligeiro,
tipo turbina dum 347.

Invadas no chão o pavio da cidade,
como um velho explodindo os campos,
mas me acuda dessa chuva celeste
de revolveres, fuzis e morteiros

Britadeira! Levantas minha noite,
antes da luz devorar meus cavalos
e ruminar os bois do meu tempo;
acorda no meu braço o infarto
pra ressentir aquilo que não lembro,
pra não morrer a voz do braço esquerdo!
…….
Evoé Poesia!

Evoé Poesia!

Há tempos não te lia e te relia
Mas hoje – quando nos reencontramos
Pude experimentar-te novamente…

Lembra?
O quanto perdemos o tempo
Cantamos as horas,
as mulheres,
fumamos, bebemos, Poesia

Ah! Hoje me lamentei
Se Homero te reconhecesse
(Ódio às Musas, deusas da memória)
não te escreveria, amiga

E olha que não sou poeta, Poesia
Porque se fosse te maltrataria,
te subordinaria
às leis da existência

Foste etérea, foste humana (ainda)
não havia metafísica
Foste à forca. E nós?!
– Enforcamos o Nada

Te reconheci amiga
antes de me ser apresentada a amizade

E que ciúmes tenho de ti, senhora
Minha estranha mania de (querer) te possuir
Pois muitos te usaram à revelia
muitos te desejaram e te materializaram
E, por isso, te confesso…
Matei poetas!
Matei-os por ciúmes de ti, amada
Blake, Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé, Verlaine…
Matei-os por insegurança
Medo de que eles te quisessem mais que eu!

Bobagem…
……
RONDÓ DA PUTA MAIS TRISTE
.
Sentada no meio de feras,
a puta perneta se esmera,
entre vestais e proxenetas,
ao seu lado um par de muletas,
para a galhardia da taverna.

Contudo sua tristeza impera
sobre tudo que habita a terra.
Ousado, um dedo roça sua buceta
e então sorri a puta mais triste.

Nas coxas, a parte interna
escoa a felicidade eterna,
e a cona implora a retreta
pra assentar a bunda perneta
antes que urine na perna…
e então sorri a puta mais triste
……….

Etc., etc. e etecétera. E, assim como vieram muitos, muitos outros, com certeza, virão. Meio pícaro da Idade Média, meio Leonardo Pataca, meio Macunaíma, meio bufão, o putanheiro traz para as noites de Santa Maria o sentimento dos anti-heróis de todos os tempos, imortalizados pela literatura.

Conta-se que os revolucionários franceses de 1789 tinham uma palavra de ordem, que usavam nas suas batalhas de então, para exaltar e elevar os ânimos dos combatentes que saiam às ruas: aux armes, citoyens! Os putanheiros, partindo de pressupostos diferentes, visto que muito mais radicais, transformam esse grito de estímulo à revolta e à insubmissão para adequá-lo aos objetivos de sua luta no século XXI: às palavras, putanheiros! Porque escrever também é uma questão de vida ou de morte.

O que os artistas pseudo-críticos têm feito até o momento é acarinhar com as mãos as bolas dos capitalistas. Mas o que importa é cortá-las fora.2

(2. Advertência: o putanheirismo não é um farol na cena cultural desta cidade. É algo mais próximo de um raio. Quiçá, uma cortina de relâmpagos atravessando estrondosamente a noite santa-mariense e tentando despertar seus habitantes do sono cético e/ou dogmático em que se encontram.)

MANIFESTO PUTANHEIRISTA – INTRODUÇÃO. Assinam este manifesto: D. Che, U. F. “Amante Latino” Boff, Odemir Tex, A. Sousa, G. Roos dos S., Álvaro M&M, Tiago “Chocolate Sensual” Araújo e Teo “Curumilha” Bemgoceha

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