O CRIME DE CESARE BATTISTI

A vinda de Cesare Battisti ao Rio Grande do Sul, sua vida, sua obra. Pelo viés do colaborador Eliézer Oliveira.

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Em Pelotas.

 “A verdade é uma gota de chuva que vai cair

                                                     Cesare Battisti


O terrorismo simbólico da mídia

A imprensa fala de um personagem que eu não conheço e não quis conhecer” Battisti

A imprensa oficial de Pelotas provou que é a caixa de ressonância da grande imprensa brasileira (PIG – Partido da Imprensa Golpista). Os dias que antecederam a vinda de Battisti à cidade foram momentos de intensa reprodução acrítica do preconceito disseminado pela indústria cultural burguesa. Os jornais e rádios da oficialidade pelotense, em sua disputa pelo símbolo construtor da realidade, pintaram o escritor italiano como “criminoso”, “bandido”, “assassino”, “terrorista” e termos afins.

Ainda que as redes sociais nacionais e locais tenham colocado a questão em outros termos, ainda assim, não tiveram forças suficientes para criticar e desfazer o mito criado pela versão das elites italianas e brasileiras. As próprias mídias alternativas reproduziram o grande discurso produzido pelo jornalismo oficial, que ainda tem muita força sobre a constituição da opinião pública. Contar apenas com o poder das novas mídias (redes sociais, rádios comunitárias, panfletos de grupos críticos) não adianta, elas não são instrumentos suficientemente potentes para enfrentar o discurso dos grandes jornais (Folha de São Paulo, Estadão, O Globo, no Rio Grande do Sul a Zero Hora) e grandes emissoras de TV (sobretudo a Rede Globo).

O Caso de Battisti é revelador. Apenas a versão contra-Battisti teve espaço; seus advogados não ganharam sequer uma linha nos jornais; as reportagens eram (e ainda são) produzidas sem levar em conta o confronto de versões – um lado foi silenciado e o outro propagado; a reflexão da realidade cedeu seu espaço para a mera descrição fria, pretensamente neutra, imparcial, objetiva, impessoal, sem subjetividade, meramente funcional (ao bom estilo estadunidense); a totalidade histórica foi ignorada, a grande indústria jornalística reduziu o caso ao julgamento de Cesare Battisti, à crise diplomática gerada entre os dois países, passando uma borracha em todo o passado dos anos 70 do século passado na Itália fascista e seus desdobramentos – dentre os quais, o de Battisti.


Outra versão é possível, urgente e necessária

                                                       “Não sou esse monstro que a mídia criou.    

                                                        A mídia tem responsabilidade nessa imagem.

                                                        Eu venho falar do verdadeiro Battisti”.

                                          O próprio.

Daí a importância de grupos diferenciados como o IMA (Instituto de Estudos Políticos Mário Alves) em promover o evento a fim de entender tais conflitos a partir de sua principal fonte. O Instituto pelotense encontrou Cesare Battisti no Fórum Social Temático de Porto Alegre e, a partir de contatos com a sua editora (Martins Fontes) e com o próprio autor, articulou (com o apoio direto do Sindicato dos Bancários e do vereador Ivan Duarte que marcou a audiência pública na Câmara de Vereadores) a sua vinda a Pelotas.

Juntamente com Battisti o IMA convidou o jornalista formado pela UCPEL (Universidade Católica de Pelotas) Edu Jaques para que apresentasse o seu Trabalho de Conclusão de Curso que abordou a forma como a imprensa italiana (www.larepublica.com.it sobretudo o artigo de 14 de janeiro de 2009) tratou o caso Battisti, sem deixar de lado os comentários dos brasileiros no referido site e a abordagem da imprensa brasileira. Edu apresentou basicamente o que tratei acima. Além de outros assuntos, fez uma distinção entre a contradição personificada pela imprensa italiana (Serra X Tarso) e a forma unilateral da imprensa nacional tratar da questão (falando somente de Battisti, Lula e Tarso).

À espera do terror noticiado

Credo! Era só o que faltava: um criminoso palestrante…. mas para alguns doentes, criminoso de esquerda (terrorista) é bonito.” Anônimo na internet.

Chegava a hora de Battisti falar, os lugares da Câmara estavam todos preenchidos, o povo chegou a ocupar as cadeiras dos vereadores e boa parte das pessoas ficou de pé. Foi uma noite chuvosa de semana, quinta-feira (14 de junho de 2012), e mesmo assim os apoiadores de Battisti (mais ligados à esquerda, movimentos sociais e estudantis, professores, acadêmicos, sindicalistas, comunicadores comunitários), curiosos, cidadãos que suspeitam da grande mídia e dos desembargadores do STF, descontentes com as versões oficiais das mídias do Brasil e da Itália, alguns sem conhecer detalhes da história foram ouvir a versão da boca de Cesare Battisti.

Todos, consciente ou inconscientemente, aguardavam pela palestra do “guerrilheiro com mãos encharcadas de sangue”. Pessoalmente, faço aqui a minha confissão. Por mais que eu soubesse, antes da palestra, que:

•          Cesare B. é uma vítima da mídia capitalista que fora julgado à revelia em sua pátria, sem qualquer direito de defesa e sequer sabia que estava sendo julgado;

•          O seu caso fora reduzido ao momento presente sem levar em conta o contexto histórico de sua luta;

•          Ele fora eleito o símbolo da política de boa-vizinhaça entre Berlusconi (Itália) e Chirac (França);

•          Ele vivera por 14 anos na França graças ao refúgio oferecido por Mitterrand, onde se tornou um escritor de grande expressão, reconhecido por intelectuais e artistas que até hoje o querem na França;

•          A sua luta na Itália era legítima visto que se colocava contra a direita fascista e mafiosa e contra o Partido Comunista da Itália de cunho stalinista que era totalmente corrupto;

•          Os seus companheiros presos colocaram a responsabilidade dos crimes (mortes de torturadores e assassinos de extrema-direita) sobre as suas costas (delação premiada) porque o julgavam seguro na França e, portanto, não seria preso pelo governo italiano (velha tática dos presos políticos e tática de advogado: o culpado sempre é o morto ou o refugiado);

•          Se ele fosse extraditado à Itália seria jogado à prisão perpétua (sem qualquer direito de defesa) por fatos ocorridos nos anos 70;

•          Se o mandássemos novamente para Itália estaríamos atualizando a injustiça que Vargas cometeu com Olga Benário ao entregá-la aos nazistas;

•          A sua revolução juvenil moralmente justa mesmo que tenha sido ele o matador dos inimigos do esquadrão da morte, que tinham uma força desigual a dos grupos revolucionários (porque tal como o filósofo-teólogo Santo Tomás de Aquino do século XIII, julgo legítima a revolução que pretende derrubar a tirania);

•          A decisão do Brasil é legal, soberana, garantida pela Constituição e que, portanto, não feria em nada a democracia;

•          O Presidente Lula não auto-comprometeria a sua imagem de estadista internacional de maneira juridicamente infundada para defender quem ele desconhecia;

•          O caso dele é comparável aos casos de tantos brasileiros que fizeram parte da luta armada e que hoje gozam de liberdade civil e ocupam importantes cargos, inclusive políticos, tal como a presidenta Dilma;…

•          Cesare Battisti já conquistou a simpatia de boa parte dos brasileiros que lhe conhecem pessoalmente, exerce uma enorme atração sobre os transeuntes, que sempre param em busca de uma foto, uma conversa, um autógrafo (povo do qual já se acha integrado e sobre o qual escreve);

•          Ele conseguira importantes amigos no meio dos movimentos sociais, intelectuais, sindicalistas, acadêmicos, advogados, membros do governo, Direitos Humanos, grupos artístico-culturais, políticos de importantes, etc.

•          Sua libertação da prisão e não-extradição é fruto, em grande medida, da militância social que pressionou os poderes responsáveis em prol da liberdade de Battisti;

•          O seu julgamento pelo Supremo fora um jogo de cartas marcadas, pressionado pelo poder midiático da grande imprensa brasileira e italiana, carregado de mentiras, ilegalidades, farsas (tanto do material enviado ao Brasil que fundamentava o pedido de extradição, bem como o material aqui produzido). Sobretudo, o voto do relator, no qual foram apontadas 20 falsidades; grandes contradições internas; e certamente o principal: NENHUMA PROVA CONTRA BATTISTI. Todo réu é inocente até que se prove o contrário, se não há provas, juridicamente Cesare Battisti é inocente;

Ainda que soubesse tudo isso, ainda que me considere medianamente informado, ainda que me considere marxista de esquerda, ainda assim, vacilei. Percebi que também eu estava contaminado pelo produto midiático, também reproduzia em meu microcosmos interior os preconceitos disseminados no senso comum e me perguntava por dentro: “terá ele matado alguém?”, “lutou contra os grupos extremistas de direta ou contra as instituições de estado?”; “se ele é tão inocente como afirma, então porque o perseguem tanto?”, “estarei eu dando ibope a um monstro?”.

Por mais que eu fosse (medianamente) um ouvinte intelectualmente instruído, ainda assim, meu senso moral (sentimentos) despertavam-me para a audição crítica, desconfiada, duvidosa, carregada de suspeita, com os dois pés atrás.  Talvez a maioria dos que ali se encontravam (curiosos, militantes de esquerda – movimento estudantil – movimentos sociais, professores universitários, lideranças religiosas, acadêmicos, grupos alternativos, comunicadores, escritores, perseguidos pela ditadura brasileira e cidadãos em geral) também se sentiam assim.

Do personagem fabricado pela grande mídia ao Cesare Battisti por ele mesmo

Eu ainda vou me libertar deste personagem que quiseram me obrigar a ser” C. Battisti

Creio que esta minha auto-confissão expresse bem o poder da mídia colocado a serviço da mídia do poder. A grande mídia forma nosso imaginário, age no âmbito do inconsciente, molda nossos sentimentos e pré-juízos sobre a realidade, nos insere numa experiência estética (e, portanto, ética) da realidade. Sinceramente, por mais que o rosto tranquilo e meio sonolento de Battisti aparecesse; que a sua aparência calma, feliz, sofrida e serena resplandeciam; eu não conseguia desfazer a personalidade terrorista que a mídia, de maneira muito eficaz, havia plantado em minha interioridade.

Parecia-me que, ao pegar o microfone, eu ouviria um sujeito carregado de ódio, com olhos sanguinários, voz forte de comando de guerra, proferindo palavras de ordem, com uma carranca azeda e cheia de amargor, prestes a pegar a metralhadora escondida debaixo da mesa. Ainda que não fosse essa a minha expectativa racional, era isso que minhas emoções manipuladas pelo poder mediático aguardavam.

Ao começar a sua fala Battisti já conquistou a todos. O tom simpático, cortês, humilde, cristalino, afável, amoroso, poético de sua charla mansa domou os ânimos e dissipou as suspeitas. Ouvi-lo é uma experiência única que, talvez, páginas e páginas de texto não consigam transmitir com fidelidade a experiência vivida. Sua prosa é o melhor antídoto contra o terrorismo simbólico promovido pela grande mídia e seus patrocinadores.

Despretensiosamente começou um diálogo com a plateia como se fosse alguém falando ao pé do ouvido numa roda de chimarrão. Aos poucos foi descortinando a sua história silenciada pela “sociedade da informação” que desinforma e deforma. Battisti conseguiu desconstruir a oficialidade do discurso promovido contra ele não só por conta da clareza das ideias apresentadas (o que não era novidade para alguns, dentre os quais eu), mas, sim, pela forma como apresentou.

Começou afirmando não ser este personagem que a mídia transformou num monstro, condenou ao silêncio e à execração pública. Ele não se reconhece nesta pessoa descrita, da qual a cada dia recebe determinadas informações que cada vez mais lhe assombram. E ainda: nem faz questão de conhecer tal personagem mítico do qual pretende se libertar, como última prisão pessoal a ser superada.

A trilogia publicada no Brasil

Três livros em fuga

                       Battisti

Falou de seus 30 anos como escritor (tem 17 livros publicados) e sobre o sonho de retomar a normalidade de sua vida, como um ser humano qualquer – tal como ele se considera. Falou de seus três livros publicados em português pela Martins Fontes: “Minha fuga sem fim: Dos anos de chumbo na Itália, de leis ao revés na França, ao inferno do cárcere no Brasil” (2007) livro escrito como diário, sem a pretensão inicial de vir a ser publicado, autobiográfico no qual narra a sua história desde os primeiros dias de fuga da França – onde deixou sua família e 14 anos de trabalho – narra a sua passagem pelo México (onde ficou 10 anos) e a sua prisão no Brasil. Nesta obra Cesare Battisti tenta explicar para si mesmo o que está ocorrendo consigo.

Depois tratou do segundo livro publicado no Brasil, cujo título é “Ser bambu” (2010). Neste, ele volta ao seu gênero preferido, a ficção, para contar o pesadelo da fuga; remontar a vida de clandestino; o drama de ter que se esconder; a intranquilidade permanente; o misto de tédio, coragem, ousadia e medo; num dinamismo repleto de coisas incríveis, tais como: humor e ironia, vividos por sua personagem Áurea (a qual ele se apaixonou e pretende utilizar em livros futuros) que desdramatiza a vida de refugiado e ensina a lógica do bambu (resistência e flexibilidade).

 Por fim falou de seu último livro, publicado neste ano, causa principal da sua vinda a Pelotas: “Ao pé do muro”, seu livro preferido. Esta obra foi escrita na prisão (Battisti ficou quatro anos e meio preso no Brasil), onde se encontrava impossibilitado de falar e até mesmo de escrever. Por conta destas condições o livro demorou dois anos para ser escrito. Para tanto, contou com a solidariedade dos presos que lhe conseguiram uma caneta (instrumento proibido na sela onde há escritor) e faziam uma parede de presos diante dele, a fim de que pudesse escrever nas costas das folhas de seu processo judicial sem ser visto. Escrever torna o preso num homem perigoso. Um preso silenciado jamais será um grande problema porque não repercutirá para fora dos muros as questões que podem ser resolvidas internamente.

A solidariedade dos colegas de prisão (eram 10 numa sela feita para 2) não parava na construção do escudo humano e nem no jeitinho de conseguir a caneta, mas ia além, afetou o próprio conteúdo do livro. Neste há uma visão sobre o Brasil segundo o relato dos apenados misturada com os flashes que Cesare relembrava de sua própria história. A sua voz mescla-se com a voz dos presos e se expressa por Augusto, personagem do livro, um foragido internacional que vem para o Brasil em busca de refúgio. Cesare Battisti caracteriza pela imaginação as regiões, situações, costumes do país de acordo com os conhecimentos comunicados por aqueles que se encontram ao pé do muro de uma prisão, postos contra-a-parede pelo sistema.

Este último livro foi acolhido pela crítica literária como uma obra bastante madura, comparada (ao menos em alguns trechos) aos verdadeiros clássicos da literatura mundial. Depois de escrevê-lo, Battisti descobriu uma frase de Nelson Madela que consagrou ainda mais a sua obra. Segundo o líder sul-africano, a melhor maneira de se conhecer um país é contar a sua história a partir dos presídios. Ao ler isso, Battisti percebera a grandiosidade do ato que ele e os presos que lhe foram solidários (a verdadeira esquerda europeia dos anos 70 caracterizou-se por estas qualidades: solidariedade e gratidão) fizeram: um verdadeiro serviço à humanidade.

Através daquela caneta proibida, os sem-voz (inclusive ele, impossibilitado de falar); os jogados nos porões da sociedade brasileira; solidários entre si; ganharam voz e ofereceram à sociedade um conhecimento do Brasil por outra perspectiva. Para Battisti, esta é uma obra que reúne história e amor, constitui-se como um “diário de amor” e culmina a sua fala bastante emocionado: “é por isso (o amor) que estou aqui”.

Quem foi ver o terrorista descobriu o escritor

Sou escritor, tenho 30 anos de profissão

                                                  C. Battisti

Parece estranho, para quem tem o personagem Cesare Battisti em mente, imaginá-lo falando de amor. Pois não só falou como trouxe, no dizer de Vinícius de Moraes (em Operário em Construção) a dimensão da poesia para luta; uma espécie de reencantamento revolucionário pelo mundo; algo que ele credita à influência latino-americana presente em sua literatura e o que o tornará, aos olhos da Europa, um autor híbrido, a saber: a dimensão da utopia.

Cesare Battisti descobre em meio ao sofrimento do povo latino-americano o princípio utópico do sonho e da imaginação. Os autores e movimentos sociais da América Latina afetam diretamente a sua literatura ao ponto dele se auto-denominar como “autor latino-americano”, já que foi no Continente Sofrido que ele foi formado nesta nova forma de fazer literatura.

O resultado imediato de sua breve exposição sobre essas obras foi um bombardeio de perguntas centradas na sua condição de escritor e uma longa fila de autógrafos no final do evento. A partir das perguntas, respondeu que pretende concentrar-se na ficção; ela é o seu gênero preferido; não pretende ficar remoendo o seu passado, do qual deve libertar-se para retomar a normalidade da vida interrompida; e falou também de suas leituras, sobretudo de seu autor proferido, Graciliano Ramos (e sua obra preferida: Vidas Secas), e segue uma longa lista de autores, eis alguns: José Lins do Rego, Erico Verissimo (com quem aprendeu sobre o Rio Grande do Sul), Castro Alves (que descobriu na Bahia pensando que não fosse um autor famoso), Dostoievski, Émile Zola, Nietzsche, Kafka, Kant, Bíblia e como não poderia faltar ao bom comunista que se preze, Karl Marx.

Na fila dos autógrafos a maioria das pessoas se encontrava com mais de um livro de Cesare Battisti em mãos, e, inclusive, com livros repetidos para presentear amigos. O autógrafo era apenas um momento, juntamente com ele ocorria uma mini-entrevista registrada com muitas fotos.

Na fila na direção do autógrafo eu repetia internamente um refrão que se deu a conhecer naquele momento “deve ser impossível aguentar a fuga e a prisão sem literatura”. Na Conversa com Battisti descobri que seu gosto pela literatura vem de berço e que as voltas da vida apenas temperaram um pouco mais, com sabor de luta e vida, o alimento cultural que já lhe apetecia – a partir de então a literatura ficou-lhe irresistível.

De política não falarás

Com restrições devido à condição de refugiado, Battisti não pode falar ou fazer política. Não participará da Marcha de Abertura do FST 2012.” Site Sul 21

Mais de uma vez a plateia foi comunicada de que Cesare Battisti não poderia falar diretamente sobre política por conta de sua condição de migrante refugiado. Ele mesmo alertou o grupo com isso, quando iria chegar num tema político dizia “isso não me interessa”. Tal procedimento é necessário para que não se dê motivos para que surjam pedidos de deportação da parte de seus inimigos que não cessam de tentar de todas as formas expurgá-lo do país e devolver-lhe ao sedento governo italiano.

Na falta de pretexto este poderia ser um e, quanto a isso, Battisti ainda deve se manter vigilante, suas análises políticas devem ficar presas em sua cabeça. O lado bom é que essa repressão se vinga, depois, do silêncio imposto, ela expressa-se de forma simbólica pela arte literária. As obras de ficção de Cesare Battisti tratam mais do Brasil real do que a linguagem pretensamente realista-factual da grande imprensa que constrói uma verdadeira ficção para a população. A ficção é a realidade e a suposta realidade é a ficção.

A atitude de Cesare Battisti visa a protegê-lo de possíveis acusações de militância política, envolvimento com partidos políticos, dos quais ele não pode participar por conta de uma Lei de 1980, criada pela ditadura, que servia para evitar que os perseguidos pelas ditaduras dos outros países não se tornassem militantes políticos no Brasil. Por isso é prudente que Battisti evite pronunciar-se (escrever, palestrar, marchar) publicamente sobre qualquer tema político, visto que sua opinião poderá ser escancaradamente distorcida e tomada como militância política de estrangeiro, passível de extradição (Cesare Battisti já viveu algumas tocaias para aprender do que seus algozes são capazes – tal como a Capa da Folha de São Paulo: Battisti gargalhando com uma cerveja na mão e o título “La dolce vita ‘clandestina’” e outras safadezas na mesma reportagem).

Ao silenciar sobre política, Battisti ganha ao evitar incômodos pessoais. Entretanto o Brasil perde uma enorme oportunidade de enriquecimento de sua democracia. Battisti poderia ser um elemento a mais no cenário político do país, contribuir com a sua experiência pessoal e histórica, ser uma voz conflitiva entre tantas outras vozes igualmente importantes (tanto de direita quanto de esquerda), ajudar a formar politicamente militantes da esquerda, sindicalistas (que tanto deve à imigração italiana), movimento estudantil e movimentos sociais.

A sua dimensão literária não precisaria ser anulada para que a dimensão política aparecesse. Ou melhor: para que ele aparecesse no palco político do país. Porém, para tanto, ele deveria ter maiores garantias jurídicas. Até lá deveremos ler os seus contributos intelectuais para a política nacional e internacional, através das peripécias de seus inteligentíssimos personagens.

Censura na Atenas Riograndense

Se houvesse uma oposição organizada e atuante, esse criminoso não ousaria nem colocar seus pés sujos de sangue em nossa cidade. Vergonha para Pelotas no ano do seu bicentenário!”

                Pedro Marasco (jornal e internet)


É possível imaginar o impacto que a atuação política de Cesare Battisti teria sobre a vida política do país. Os conflitos seriam, certamente, maiores do que são. Se para falar de literatura em Pelotas, Cesare Battisti (e quem pretendeu defender o direito de ele falar) enfrentou uma série de acusações apelativas e infundadas. Pode-se imaginar o que não fariam se ele viesse falar diretamente de política. As acusações contra o evento era de tal grau que parecia que o mesmo seria ilegal, anti-democrático, clandestino e quem dele participasse estaria, no mínimo, sendo conveniente com a sem-vergonhice. Os organizadores do evento começaram, inclusive, a ironizar a situação. Diziam: estamos divulgavam pelos jornais, rádio, rede social, cartazes, panfletos, universidades, vamos passar na TV Câmara… algo que é ilegal!

Todavia, o ápice da falta de democracia da Atenas Riograndense, (o suprassumo da unilateralidade reducionista do único lado que pode falar; o ponto alto da democracia míope apregoada pela elite pelotense; o cume da revelação dos critérios aristocráticos da Princesa do Sul disfarçados de democracia) ainda estava por ocorrer. Durante a audiência pública, na qual debatíamos nós (uma parte considerável da sociedade pelotense) com o escritor Cesare Battisti, as filmadoras da Câmara de Vereadores registravam tudo, tal como ocorre em qualquer outra audiência, seja mais à direita ou mais à esquerda. Contudo, ao final da mesma descobrimos que os primeiros momentos da audiência foram ao ar e logo a seguir saíram para dar lugar a uma antiga audiência pública sobre os pedágios.

Para as “forças ocultas” que interferiram, à distância, na programação ao vivo da TV Câmara de Pelotas; que interromperam uma transmissão que já estava em curso; e que fora cortada do nada; o conflito com as praças de pedágio são aceitáveis, já os conflitos trazidos pela presença de Cesare Battisti na Casa do Povo não o são. Isso só porque ele viera lançar um simples livro, o que não fariam se ele viesse falar especificamente de política? A aristocracia decadente de pelotas achou que um condenado à prisão perpétua em seu país não ficava bem na tela da TV Câmara, ainda mais sentado na cadeira do Vice-Presidente da casa.

Por falar em condenado…:

Qual fora mesmo o crime o de Battisti?

       “Tenho orgulho de ser culpado

                                       C. Battisti

Cada um nós naquela sala da Câmara, tal como também esteja agora o leitor deste texto, estávamos ansiosos pela resposta da questão fundamental. Por que ocorrera tudo isso com Battisti? Por que ele? Pois, foi esta, também, uma questão que o próprio Battisti se colocara: “Por que eu? Eu não era tão importante para incomodar um Estado inteiro!” Battisti não entendia, buscava as respostas, não percebia a realidade e nem a gravidade das ameaças, subestimava o plano que estava montado contra ele, pensava-se como inofensivo e desinteressante ao Estado italiano.

Talvez um exemplo ilustre bem o fundamento de sua despreocupação: o líder de seu movimento revolucionário teve a extradição à Itália negada pelo Brasil, pelo mesmo tribunal que julgou Battisti, e isto sequer gerou uma notinha de jornal, quanto mais um conflito diplomático entre os países. Se o líder do grupo teve a sua extradição negada, quanto mais terá um mero membro do grupo, que, teoricamente, escrevia em nome dos revolucionários.

Por que Cesare Battisti fora escolhido como a vítima preferencial do governo italiano? Por que os outros membros da guerrilha não são perseguidos com o mesmo afinco? Por que perseguir obstinadamente Cesare Battisti e deixar os tantos outros em paz? Por que os outros refugiados italianos que vivem espalhados e livres pelo mundo, inclusive no Brasil (os aqui chegados, sobretudo, nas décadas de 1990 e 2000), não são sequer conhecidos da grande imprensa?

Um amigo de Cesare Battisti o ajudou a entender a razão principal que poderia responder tais questões. Disse seu amigo “A biblioteca italiana tem os seus livros. Você está incomodando”.  O crime de Cesare Battisti foi ter escrito sobre os anos de chumbo da década de 1970 da Itália. Segundo Battisti, o seu país pretende esconder a história recente, marcada pelo fascismo (com o auxílio do Partido Comunista) e suas torturas, detenções arbitrárias, execuções, prisões sem julgamento, caça aos foragidos… que caracterizaram os anos de chumbo de uma “democracia” aparente, governada pela Máfia. Ao escrever nos livros didáticos italianos atuais, apenas um parágrafo sobre o período, o governo italiano insulta a cultura da humanidade e manipula a história escamoteando os crimes estatais do período pseudo-democrático.

O discurso da oficialidade italiana afirma que não houve anos de chumbo e nem guerrilha e, ainda, de que o país, de tão democrático que era, recebera, inclusive, os exilados da Ditadura Militar do Brasil. Pois bem, Cesare Battisti desmente tudo isso em seus livros. Em seu crime-de-escrever Cesare Battisti pergunta sobre o paradeiro dos desaparecidos até os dias de hoje; acerca das condições atuais nas quais se encontram os presos políticos; provoca a democracia atual resolver os problemas que persistem até a atualidade e a reconhecer o seu passado corrupto, autoritário, mafioso e disfarçado de democracia. Diferentemente do Brasil, a Itália não anistiou os presos políticos, ainda hoje punidos como criminosos comuns, porque sequer reconhece a guerra civil.

Tudo o que a Itália queria abafar o escritor Cesare Battisti manifestava de forma contundente. A gota d’água que iniciou de vez o seu tormento foi quando um vídeo, produzido sobre um de seus livros que denunciava os crimes estatais dos anos 70, teve muitos acessos na internet e interessou ao cinema. Ali entrou em jogo um esquema que visava a desmoralizar o autor dos livros críticos a fim de que os mesmos perdessem a credibilidade que vinham adquirindo e o passado imaculado da pátria fosse mantido. O personagem de ficção chamado “terrorista Cesare Battisti” servia para manter a história fictícia da Itália dos anos 70. Por isso, era preciso reafirmar que ele havia matado, sido julgado, condenado e, portanto, deveria estar preso.

O “Battisti por ele mesmo” nega veementemente tais crimes, afirma que não matou ninguém; que nunca, sequer, atirou numa pessoa; que seu movimento respeitava a vida humana – tanto é que, quando o movimento acabou, seus membros se recusaram a ingressar em grupos mais violentos (Brigadas Vermelhas); Battisti também rejeitou este novo caminho mais sanguinário. Cesare alega que não teve direito de defesa, fora condenado num processo sumário, sem advogado, sem saber que estava sendo processado, sem uma prova sequer; e que, portanto, não pode e não deve assumir a responsabilidade penal que querem que ele assuma.  Diz-se orgulhoso de ser culpado por causa de suas denúncias e assume as suas responsabilidades políticas, para as quais nomeia a história como juíza capaz de avaliá-las.

O caráter perigoso de Battisti reside em seu pensamento, pautado em fatos históricos e práticas revolucionárias, além de ser aberto, graças a influência latino-americana, ao futuro da utopia. Uns viveram tudo o que ele vivera, até com mais liderança e atividade, porém não escreveram; outros escreveram, mas sem conhecimento e atuação de causa; Battisti, por viver, pensar e sonhar a realidade da qual fala, faz com que as versões fictícias desmoronem e a verdade caia como uma gota de chuva na terra sedenta de outras versões.

A crítica contundente de Battisti não poupou, como poderia pensar a direita brasileira, o Partido Comunista da Itália, cujo caráter comunista inexistia. Cesare Battisti o acusa de corrupto, stalinista, protagonista da repressão dos anos 70, caçador dos críticos ao sistema, perseguidor aguerrido do seu movimento revolucionário, detentor dos governadores italinos, partícipe do conluio fascista juntamente com a Democracia Cristã (que nesta época também abandonara o proletariado).

Isso explica porque a revista “Carta Capital” do Brasil se colocou a favor da extradição de Cesare Battisti para a Itália. O diretor de redação da Revista da esquerda brasileira, o Sr. Mino Carta, é amigo de um ex-dirigente do Partido Comunista italiano que recebera críticas práxicas (do movimento revolucionário de Battisti), teóricas (de suas denúncias) e artísticas (de sua literatura) de Battisti. Ao ter no Brasil um amigo-cúmplice, diretor de uma importante revista da esquerda, o velho Partido Comunista continua a sua ferrenha e baixa crítica a Cesare Battisti: o criminoso que utiliza a poderosa arma da caneta. Eis o que revela o caso Battisti: os poderosos italianos temem mais um papel manchado de tinta do que um corpo manchado de sangue!

Hoje, após os escândalos de Berlusconi, a Itália vive um governo técnico, que não mudou nada do antigo governo. A esquerda não se encontra no Parlamento e em lugar algum, fora aniquilada nas décadas de 80 e 90 do século passado, ficara sem inteligência política, toda ela exilada, morta, presa, silenciada. A Itália agoniza com toda a Europa, vivendo a sua crise econômico-política sem qualquer perspectiva de uma oposição de verdade.

Sobre a Itália atual, Cesare Battisti diz nada saber, talvez porque não possa falar de política. Se pudesse, provavelmente teria muito a dizer. Ele se mostrou bem desligado de sua terra natal: pensa, escreve e fala mais em francês, espanhol e agora em português do que em italiano; diz-se satisfeito em estar preso no Brasil, este país continental e maravilhoso sob diferentes aspectos; considera-se bem integrado à sociedade brasileira, ao ponto da Itália não lhe fazer qualquer falta.


Há riso

Assim que fui preso, apareceu uma foto minha sorrindo ao lado de agentes federais, bastou para que eu fosse taxado como ‘cínico’ por veículos de imprensa.” Battisti

A foto que Battisti se refere foi tirada no Aeroporto de Brasília e ela correu mundo. Battisti preso, algemado e sorrindo. Aliviado por que acabara o seu pesadelo de viver numa fuga sem fim. Acredita que agora os seus problemas serão resolvidos e, enfim, poderá ficar legalmente no Brasil como tantos outros de seus companheiros. Battisti sorri com os policiais que falam amigavelmente com ele, mal sabem que o governo italiano investirá enormes forças e recursos de toda a espécie para tentar a todo custo levar Battisti novamente para a Itália e trancafiá-lo na prisão, sem que ele tenha sequer direito ao banho de sol.

O processo de Battisti se arrasta, a desinformação é total, ele e seus advogados não conseguem espaço para falar na imprensa nacional e o inicialmente pouco provável ocorre: Battisti fica quatro anos e meio na prisão e, por pouco, não é extraditado. Não foram poucos os seus sofrimentos por fatos que cada vez mais ficam num passado remoto, mas que teimam em não o abandonar.

Cesare Battisti carrega todas as marcas desse processo em sua postura, expressão facial, em seu olhar e fala como cicatrizes de duras batalhas. Mas essa coisa latino-americana chamada utopia que ele aprendeu com o nosso povo, o seu senso humor que ironiza a vida para torná-la mais leve lhe permite tomar um vinho, comer um churrasco com queijo, apreciar uma pinga brasileira, estabelecer boas conversas, contar piadas, descobrir coisas novas, tornar-se amigo de desconhecidos que acompanharam a sua trajetória à distância e, sobretudo, manter aquele riso no rosto, capaz de alegrar os amigos e incomodar os que queriam contemplar o seu rosto triste numa sela de prisão e, não, por exemplo, ao redor de uma churrasqueira gaúcha falando de maneira apaixonada do crime que mais gosta de cometer: escrever livros!

O CRIME DE CESARE BATTISTI, pelo viés do colaborador Eliézer Oliveira*

*Eliézer é Filósofo e professor da Universidade Católica de Pelotas.

 

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  • Luciano Carneiro Filho

    Ridiculo,um velho bolchevique pendurado num pequeno emprego publico empregando um pequeno homem defender um assino quadruplo que ainda colocou um rapaz em cadeira de rodas. Ridiculo,Ridiculo. Felizmente o PT esta nos estertores pois ele se finara junto com o Messias que parara de eleger postes e o lumpesinato entendera que nao forao eles que melhoraram suas vidas e sim fatores internos e externos. O Brasil nao começou com o lulismo e o pt se acabara com ele.

  • JOEL CARVALHO

    Tem que ser extremamente PaTife para defender um criminoso como esse!

    Desde quando assassinar pessoas é crime político? Criminoso, o é em qualquer tempo.
    Aqui mesmo no Brasil, os que assaltavam e matavam na época da Rvolução de 64, continuam assaltando o Erário em plena democracia dirigida pelos assaltantes de bancos de outrora.
    Tanto é verdade que, vários deles estão sendo condenados por crimes cometidos em plena democracia.
    Os militares foram mesmo ruins. Anistiaram esses criminosos dos mesmos crimes, pelos quais esses esquerdoPaTas estão sendo condenados agora.