DISCURSO SOBRE O BUNDA-MOLE

Uma sociedade bunda-mole é, por definição, aquela em que os indivíduos que a compõem são incapazes de sair de casa por motivos que não sejam de interesse exclusivo do seu próprio umbigo.

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Camaradas!

Não é difícil constatar, e a realidade empírica está aí para não nos deixar mentir, que, no Brasil do início do século vinte e um, a figura do bunda-mole se tornou predominante em quase todos os círculos. Progresso econômico, estabilidade da inflação, aumento do poder aquisitivo, fusão carnal entre a esquerda e a direita e onipresença televisiva dos reality shows fizeram do bunda-mole um personagem típico do nosso tempo.

Já há algum tempo se observa, por exemplo, que as ideologias bunda-moles proliferam e fazem grande sucesso nestas terras. Uma ideologia bunda-mole pressupõe, por certo, uma sociedade bunda-mole. Uma sociedade bunda-mole é, por definição, aquela em que os indivíduos que a compõem são incapazes de sair de casa por motivos que não sejam de interesse exclusivo do seu próprio umbigo.

É nesse contexto que florescem as mencionadas ideologias de alto teor bundamolista. Ama-se o que é fofinho e cor-de-rosa, ama-se apaixonadamente a enfadonha estabilidade da vida e tudo aquilo que é incapaz de fazer mal a uma mosca. E essa fofura toda acaba, enfim, por se tornar o padrão de avaliação comportamental de uma época, o ideal de valor e de prática social que todos devem seguir. Enfim, o “politicamente correto” que se tem de aceitar. Que grande ironia da história! O teocentrismo, o antropocentrismo, o etnocentrismo, o egocentrismo, o sociocentrismo – e até mesmo o “especiocentrismo” – foram rejeitados para que imperasse em seu lugar o modo bundamoleocêntrico de olhar e de entender as coisas.

Essa divindade apocalíptica, surgida das entranhas de nosso desenvolvimento histórico tardio, devidamente resguardada pela sombra generosa do anonimato e equitativamente repartida por todos os meandros da sociedade, possui uma existência real, palpável e da qual ninguém mais pode, hoje, duvidar. Apesar da flacidez sugerida pelo nome de bunda-mole, a sua influência é, de modo paradoxal, lamentavelmente sólida.

O bunda-mole está aí, de fato, para quem o quiser ver. Não é difícil reconhecê-lo, seu estilo de viver o denuncia. Jeito inofensivo de ser, meiguice desmedida e concentrada (em alto grau de pureza), maciez de espírito no trato com os conflitos da existência, concepções floridas a respeito do universo, cumprimento rigoroso de horários, respeito absoluto das hierarquias, filosofias de vida água-com-açúcar, culto ostensivo da própria imagem, roupinhas e adornos corporais fashion e bom-mocismo inveterado são alguns dos traços através dos quais o bunda-mole costuma se apresentar.

(É claro que isso é parte, apenas, do potencial de comportamento dessa entidade que capilarmente abunda em nossas plagas. O bunda-mole é, em verdade, um espectro com as possibilidades de um camaleão e sua presença insípida é capaz de assumir as mais variadas aparências, a depender do contexto em que por acaso se insira).

O bunda-mole não anuncia sua presença: ele simplesmente aparece. Está nas revistas, nos jornais, nos programas de TV, academias de ginástica e também – ora vejam – no interior do quarto ao lado. Mora em todos os lugares, anda por todas as avenidas, vagueia em todas as praças e vai à praia como qualquer um. Come, dorme e consome. Quando muito, produz – se bem que há quem duvide, não sem uma boa dose de razão, que o bunda-mole seja capaz de produzir alguma coisa.

Discute e discursa, tranquilamente, sobre todos os assuntos que julga por bem debater. Não se irrita com nada que não seja algo que interrompa a sua inestimável inércia. Ama aquilo que consigo se pareça e, não raro, se torna semelhante àquilo que ama: um automóvel, um móvel e, não raro, um chinelo velho.

Há bunda-moles discretos e bunda-moles chamativos, bunda-moles bem vestidos e bunda-moles maltrapilhos, bunda-moles musculosos e bunda-moles raquíticos. Luminosos e opacos, esclarecidos e ignorantes, tradicionais e pós-modernos, viciados e caretas, tímidos e extrovertidos, usando pomposos ternos e gravatas e usando apenas chinelos e bermudas. Bunda-moles retraídos e bunda-moles comunicativos, analfabetos e letrados, com diploma e sem diploma, bunda-moles palestrantes e bunda-moles ouvintes, bunda-moles crentes e bunda-moles ateus, bunda-moles de esquerda e bunda-moles de direita, bunda-moles na vida pública e bunda-moles na privada.

Há ambientes em que eles preferem, certamente, estar: dentro de sua casa, por exemplo. Ali, protegido da efervescência do mundo exterior pelos 1.800 canais de sua TV de 200 polegadas, pelo seu sofá inescrupulosamente aconchegante e pelo seuhome theater de última geração, o bunda-mole desfruta de sua confortável cretinice. Nada o estimula, nada o tira do sério, nada o preocupa, a não ser a hora de comer, a hora de dormir e a hora de sair para o trabalho – quando tem, é claro, um trabalho.

Os bancos universitários podem ser, também, objetos da sua mais sincera predileção. A razão é bem simples: aí encontram o ambiente propício para o proferir de suas requintadas teorias sobre tudo o que se possa imaginar.

Há bunda-moles que, por outro lado, preferem frequentar os lugares da moda, sejam bares ou boates. Há os que se sentem em casa em seus belos carrões e iates. Há os que se entretêm deveras com coreografias esdrúxulas, vídeo-games, blockbusters, aeromodelismo ou com informações sobre tecnologia de ponta. Há os que fazem cooper, os que fazem caminhada e os que jogam frescobol. Há, ainda, os bunda-moles do ecoturismo, que fazem rafting e rapel, e os bunda-moles do turismo religioso, que gastam sola de sapato em procissões e romarias. Podemos pensar, finalmente, no intragável bunda-molismo que pulula por aí em saraus literários, círculos culturais e academias nacionais ou regionais de letras, materializado em prosa ou em versinhos tão com cara de receitas de bolo ou de livrecos de auto-ajuda.

O bunda-mole fica imensamente feliz tão logo arrume uma teta para poder se pendurar e mamar. “Tetas”, aqui tomadas genericamente, são as situações em que na vida se pode desfrutar de uma situação de relativa comodidade e conforto, mediante ganho financeiro razoavelmente estável, via emprego público, privado, herança, favor obtido por empréstimo ou chantagem, cargo eletivo e/ou qualquer outro tipo de parasitismo que o sujeito for capaz de conseguir por meio astuto e sorrateiro.

De posse de sua tão sonhada teta, o bunda-mole se dá por satisfeito e deixa de realizar qualquer esforço, sonho ou projeto de vida, passando a desfrutar as benesses de sua condição de “terneiro novo”, situação esta costumeiramente criticada pela sabedoria popular por meio dos adágios como: “se fazendo de leitão pra poder mamar deitado” ou “se fazendo de leitão vesgo pra mamar em duas tetas”. Tais máximas proverbiais se aplicam perfeitamente ao bunda-mole que é, por definição, o sujeito que está sempre em busca de alguma protuberância mamária saliente capaz de aplacar a sua amarga sede de imobilismo e proteção.

O bunda-mole sabe tudo mais ou menos, conhece tudo mais ou menos, se mobiliza mais ou menos para fazer as coisas. Tudo, enfim, na sua vida, tem essa aparência de metade, de mornura, de bandeira a meio mastro. Isso, a princípio, por si só, não representaria um mal, visto que cada qual pode, a seu bel prazer, exercer a decisão de ser um bunda-mole e desfrutar individualmente o gozo perverso que esse estado anímico faculta. O grande problema está no fato de que o bunda-mole nunca quer ser bunda-mole sozinho. Ele está sempre empenhado em persuadir o outro – seu amigo, conhecido, familiar ou cônjuge – a se tornar, como ele, bunda-mole. Isso porque lhe causa tremendo pânico a solidão. Por meio de propaganda, discursos, jornais, campanhas midiáticas e artigos acadêmicos, portanto, o bunda-mole está frequentemente engajado em arrebanhar, para junto de si, um séquito numeroso de palermas e atoleimados.

A bem da verdade, é justo esclarecer que o bunda-mole não é mero reflexo passivo de nossa conjuntura. De forma alguma! Dizer isso seria o mais completo disparate. Não, ninguém está condenado a se tornar bunda-mole. O bunda-mole, isto sim, é o sujeito que faz a si mesmo a partir das condições transmitidas a ele pela enorme cadeia de bunda-moles do passado. Partindo disso é que ele se envolve no projeto, participa de sua realização, delibera de forma consciente sobre os melhores meios para executar a herança nefasta e concretizar a bunda-molice secularmente cultivada pelos seus predecessores. E tão logo se consolida nessa condição, o bunda-mole se esforça para imprimir essa particularidade em todos os terrenos existentes nos campos da matéria e da ideia, criando assim um mundo a sua imagem e semelhança.

DISCURSO SOBRE O BUNDA MOLE, pelo viés de François Bilboquet de Toillete.

BILBOQUET DE TOILLETE, François. O bunda-molismo explicado às crianças. Paris: Gallimard, 2012, p. 15-8.

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