SONS QUE PERTURBAM

Precisavam conseguir mais meninas como “aquelas”. – dizia um deles. – Sim. – concordava rapidamente o outro, enquanto sorria para o velho no chão. Pelo viés de Elisiane Martins

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Sons que adoecem e matam. Sons que provocam medo, angústia, desespero. Sons que parecem nunca terminar. Não sendo possível raciocinar com clareza. Não sendo permitido sonhar com um futuro. A única coisa que está ao alcance é tapar os ouvidos e adormecer de cansaço, sofrimento, tristeza. Outro dia e, tudo continua. Não existe a esperança de um dia melhor. A criança olha para os lados e só vê morte. Morte de estranhos, estrangeiros, invasores de seu país. Morte de amigos, parentes, conhecidos e ditos defensores de seu país. Mutilação de crianças como ela, que um dia crescerão sem entender como aquilo tudo começou. Apenas crescerão com o desejo de que aquilo, aquele horror tenha um fim. Mesmo que este fim seja estabelecido com a sua própria vida. Não importa. O que é urgente é que aqueles sons ensurdecedores, aniquiladores de qualquer paz interior cessem. Se não for para sempre, que seja por alguns dias, semanas, quiçá meses pelo menos. E eis que surge a oportunidade. Atordoada a menina adolescente pergunta para a mãe o que é preciso fazer. O que ela pode fazer para que aquela tortura termine? E a mãe, com um peso no coração, mas com a alma vazia, responde: Vá até aquela casa no final da rua e fale com “eles”. Não era preciso que ela explicasse quem eram “eles”, a filha já sabia. Assim como, já sabia o que teria de fazer. Olhou para a mãe como se fosse pela última vez e, seguiu em frente. Chegou no fim da rua, entrou na casa em ruínas e encontrou apenas um velho esfarrapado atirado no chão. Decidiu dar volta, mas ao vê-la hesitar, o velho disse: – É aqui mesmo. Eles logo chegarão. Só aparecem à noite, quando todos, homens e mulheres, são apenas sombras neste vale escuro. A garota esperou. Suas mãos tremiam e o seu coração batia acelerado. Em sua mente não havia pensamentos. Não era possível pensar com todos aqueles bombardeios. Restava-lhe apenas o desejo de que o silêncio prevalecesse. O silêncio que há tanto tempo não existia naquele lugar. Esquecido. Abandonado por todos. Invadido. Pilhado. Onde crianças e mulheres eram moeda de troca entre terroristas, seqüestradores e….aqueles que se diziam: “os garantidores da paz”, “os que combatem o terror”. Em sua simplicidade de pensamento, ela não entendia para quem eles estavam encenando. Não acreditava que existisse no mundo alguém que ainda acreditasse em seus motivos e, tão pouco em seus valores. Garantir a paz? Que paz? A conquistada à força e a custa da morte de gente inocente como a de seus irmãos? Crianças que morreram antes mesmo de saberem o que era a vida. Chega a noite e “eles” também. De repente, a menina se vê entre várias outras de sua idade, todas determinadas: cegas, mudas  e surdas. Não querem nada, apenas, assim como ela, que os sons cessem. Precisam de paz, precisam de silêncio, anseiam como nunca pela morte. A morte de tudo. O corpo é o que menos interessa, e as dores que poderão vir não são levadas em conta. Essas dores não se comparam ao que sentem. Os seus corpos já sofreram demais. Os seus olhos não agüentam mais assistirem a tanta crueldade. As almas querem um alívio, um sossego, qualquer coisa. “Eles” insistem em convencê-las de que será por “Ele”, de que ficarão bem, serão vistas como heroínas, mártires. Nem suspeitam de que para aquelas meninas nada disso tem valor. O que as motiva é a falta de esperança e a certeza de que ninguém fará aquilo parar. Os discursos na TV são bonitos e comoventes. As lágrimas das senhoras estrangeiras podem até serem verdadeiras, mas em nada lhes adiantam. Não mudam sua realidade. Não as protegem dos seus “senhores da guerra”. Hoje se apiedam, amanhã nem se quer lembram que elas existem. Um “deles” explica que o ataque será rápido. Apenas precisam chegar perto de um prédio e…Em instantes seus corpos estarão esfacelados e após isso virá o silêncio, o maravilhoso silêncio que tanto buscava. – pensou uma delas. A explosão foi imensa, maior do que era esperado. Pedaços de corpos, pedras, ferros e vidros misturados em uma coisa só. Não era possível distinguir o que um dia havia sido uma criança, um homem ou uma mulher.  Satisfeitos, ao longe e a salvo, os idealizadores de mais um atentado comemoravam. Riam e gabavam-se do quanto havia sido fácil. – Precisavam conseguir mais meninas como “aquelas”.  – dizia um deles. – Sim. – concordava rapidamente o outro, enquanto sorria para o velho no chão. 

SONS QUE PERTURBAM, pelo viés da colaboradora Elisiane Martins

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  • Fabíola Weykamp

    Diante do narrado eu fico pasma, sem cor nos lábios, porque tudo o que foi denunciado está na esquina da minha casa; nas ruas por onde passo; debaixo di meu próprio e arrebitado nariz. É preciso deparar-se com o fato, sentir na pele o peso que nossas crianças carregam nas costas. Peso este que não é o mesmo de uma mochila carregada de livros escolares e sonhos; mas o peso da vida sem oportunidades. Cegos, surdos e mudos elas não são: somos nós os culpados pela morte da inocência de nossas crianças; somos nós os culpados por elas carregarem tristeza e desesperança nos ombros. Somo nós os culpados dessa vida não mais vivida.

    Obrigada pelos olhos e coração aberto, Lisi. Sou e sempre serei tua fã incondicional. Pela leveza da tua vida, pelo amor gigante no teu peito que trasborda em linhas de extremo alerta e necessidade!