LUTA DE CLASSES E OUTROS POEMAS DE MATHEUS PAZ

“Nós somos a barbárie / Eles / cidadãos civilizados”. Poemas do colaborador Matheus Paz.

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LUTA DE CLASSES

Vasculharemos tuas próprias histórias
                                          /porões, sótãos,
à procura de nossas rochas impróprias.

 

Levantaremos tapetes e portas,
sim, seremos inconvenientes…

 

seremos o pó na sola de suas botas.

 

Senhores distintos e bárbaros
não andarão conosco,
pouco importa…

 

seremos muitos, afoitos, loucos
                                    /varridos
deixados ao léu,
nos escombros da memória

 

seremos tudo aquilo que não suportas.

 

***

 

O HOMEM DESCARTÁVEL

O medo de ser usado

 

no amor
no trabalho

 

o sujo
o rasgado

 

um homem descartável

 

o útil não pensado
o tempo esgotado

 

Repressão odiosa

 

essa
que não se sente

 

***

 

BALADA DO SER ABALADO

I

 

Puxei o gatilho em disparada
contra a bala
perdida

 

bala alojada

 

e em disparada
corri

 

nem louco me alcançava

 

atirei-me ao encontro
da bala
ofendida

 

bala autoritária

 

e em uma só rajada senti
que a goela me atravessava.

 

II

 

Sentei-me
nem sei se caído

 

mais morto
que ofendido

 

não via mais a bala
não via mais nada

 

só via meu corpo
estático

 

meu corpo oprimido

 

um ser abalado.

 

III

 

Furado à bala
Senti-me dissipado
em várias vestes armadas
e vi os homens
que lá dentro habitavam

 

homens amordaçados
desumanizados

 

como eu também
que nem mais homem era.

 

***

 

NÓS, OS MALDITOS

 

Nós somos rebeldes

 

Eles
parecem desinteressados

 

Nós temos o nada

 

Eles
oferecem liberdade

 

Nós somos a barbárie

 

Eles
cidadãos civilizados

 

Nós temos a crueldade

 

Eles
a cura dos males

 

Nós somos cães sem dono

 

Eles
instrumentos da divindade

 

Nós
os orientais
os subtropicais
os tribais

 

Nós, os malditos.

 

***

 

ESPECTROS

 

Ó velha crítica
em vestes desbotadas

 

Viestes decrépita e surrada

 

Ó velha ideologia
em vestes insolentes

 

viestes rápida e lenta
/mente

 

Ó tempo, que nada arrasta…

 

Somos a graça de tua aparição!

 

***

 

ODE AO QUE NÃO PODE

 

Ao que não pode sentar-se à mesa,
escrever de luz acesa, tampouco
praticar avareza.

 

Ao que não pode romper o silêncio,
vencer o seu medo, nem aos menos
roubar um beijo.

 

Ao que não pode maltratar o trapo,
virar o sapo, tampouco
dar o pulo do gato.

 

Ao que não pode dobrar a esquina,
negar a propina, nem ao menos
ingerir aspirina.

 

Ao que não pode matar a fome,
trocar de nome, tampouco
ser um simples homem.

 

Ao que não pode ser
tudo que pode.

 

Ao que não pode ser
essa ode.

 

***

 

SINCRONIA DO VERSO SEM PÃO

 

No crepúsculo da cidade
quem se esconde
são os carros.

 

Nas padarias do bairro
quem amassa
proletários.

 

E nas fábricas
os empresários
preocupados

 

com o mundo.

 

o verso
segue
sem pão. 

 

 

LUTA DE CLASSES E OUTROS POEMAS DE MATHEUS VAZ, pelo viés do colaborador Matheus Paz

Matheus Paz é formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Santa Maria.

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