O PASSADO E O FUTURO DO AMOR

O amor nos tempos de cabelos brancos, o amor crescendo como os cabelos.

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Uma fotografia do amor, por antiga que seja e ainda que sua visão diga o oposto, não pode ser em preto e branco. As cores do amor são muitas, todas, e sempre foi assim. É o que se conclui conversando com alguns grupos de pessoas que já viveram este sentimento em todas as suas formas, em todas as suas forças e em todas as suas faces. A experiência que pessoas com idade avançada possuem é um ingrediente importante para que se possa compreender o amor.

Entre eles há quase um consenso em torno da idéia de que cada um sente o amor de um jeito. Além dessa, muitas outras opiniões convergem entre homens e mulheres das mais diversas raças, cores, credos e classes sociais, todos próximos ou já superiores aos 60 anos de idade. As histórias dessas pessoas comovem e marcam, e são muitas.

Nas primeiras seis décadas de sua vida, Gibrail, hoje com 65 anos, não sabia o que era amor. Saudoso do que não viveu, foi sentir a grandiosidade desse sentimento recentemente, em um caso de quatro anos com uma mulher com idade para ser sua neta. “Sempre fui um sujeito duro. O amor mudou tudo. Ele torna os homens poetas”, garante. Mas o coração leva também ao sofrimento. “Quando ela foi embora fiquei sem chão, impotente. O tributo pago pela minha história de amor foi muito alto, fiquei completamente desestruturado”.

Experiência diferente tem Luiz, 64. Aos quatro anos de idade, ia de manhã ao terreno de sua casa e via a grama tomada por gotículas de orvalho que brilhavam ao sol. Cuidava para não pisá-las para que não fossem embora. Foi seu primeiro amor. Luiz casou, mas foi reencontrar-se com a mesma sensação apenas muitos anos depois, já separado, enquanto trabalhava voluntariamente em um asilo de Porto Alegre. “Um dia estava trabalhando e senti a presença de alguém. Quando virei e nossos olhares se cruzaram, vi que era a mulher da minha vida”, conta com olhar perdido, talvez vendo no branco da parede o rosto da mulher 15 anos mais nova, que abandonou o marido para viver uma nova história com ele. “Agora temos uma vida maravilhosa. Ela era sem brilho quando a conheci, assim como eu, mas remoçamos. Nesses fenômenos você encontra a presença do amor”.

Luiz compartilha da opinião de que há um amor maior que todos: “Conhecer o amor em sua plenitude, só se um dia eu reencarnar como mulher e como mãe”, garante. Eloá, 58 anos, concorda: “o amor de mãe é mais abrangente, é uma via de mão única, não espera retorno”. E aquela que é chamada de “mãe duas vezes”? Também não foi esquecida, é claro. Iracy, aos 73 anos, foi quem lembrou: “No meu caso, o amor de vó é maior que o de mãe. Não tem amor como o que eu sinto pelo meu neto”.

Oficina da Associação dos Aposentados, Pensionistas e Servidores da Extinta Caixa Econômica Estadual do RS. 

Avani também é mãe, e concorda que este é um amor diferenciado. Mas ela tem outra grande história, daquelas que nos fazem pensar se realmente não existe o tal do destino. Graças a uma amiga que insistiu e insistiu e não cansou de insistir, foi visitar um asilo. Lá, foi apresentada a Telmo, amigo da amiga. Jura que, ao entrar no carro para ir embora, disse à companheira que tinha encontrado o homem com quem queria casar. Avani tinha 60 anos. Telmo tinha 65, uma perna amputada e a visão prejudicada. “Nos encontramos 15 dias depois no Hospital de Clínicas e ele não me reconheceu. Me apresentei, tomamos café e, quando me despedi, eu disse: ‘Vamos namorar?’”. Hoje os dois moram juntos, apesar da oposição da família dela. Telmo reconhece o esforço da esposa: “A Avani não tem igual, o que ela faz pra mim…”. Entre risos, ela conta que aprendeu a cozinhar por causa de Telmo. “Quer maior prova de amor do que essa?”, diverte-se.

As experiências levam essas pessoas a falarem com propriedade. “O amor é complexo, mas você acaba entendendo, pois ele próprio alarga a visão, a compreensão”, opina Luiz. No ensaio de um coral, ao som de Besame Mucho, a sexagenária Glaci diz que o respeito é a essência do amor, e Alcora, 74 anos, completa: “O amor é o motor da vida, mas para que seja perene é preciso doação”. Ainda no clima da música de Consuelo Velázquez, Iolanda, 65 anos de experiência, acrescenta outras atitudes que formam um amor: perdão, carinho e paciência. Célia, que nunca casou mas diz que amou seus três noivos, abre o coração: “Meu amor é universal. Amo quem sofre e quem é feliz. Tenho 87 anos e um bisneto que é o meu maior amor”. Maior amor (sublinhe-se “amor”), porque paixão é coisa bem diferente.

“A paixão está no olhar, na forma de vestir, mas o amor aparece depois, pelo que a pessoa tem dentro dela, pelo coração”, diz Carlos Alberto, 73 anos, durante uma aula de pintura, ao lado da esposa Leda Barcelos, com quem está há meio século. No coral, Iolanda e Iracy concordam. Para elas, o amor entre homem e mulher nasce da paixão, mas só com isso não pode durar. A generosidade é um bom começo: “Um casamento por amor não pode acontecer para que a pessoa seja feliz, mas para que faça o outro feliz”, completa Iracy.

Essas pessoas fizeram o passado do amor, fazem seu presente e ainda farão muito por seu futuro. Um futuro que os preocupa ao mesmo tempo em que traz esperanças. Leda Barcelos acha que hoje não existe o respeito de antes, nem a mesma paciência. Eloá concorda, mas acredita que o grande problema é a banalização da palavra “amor”: “Muitos jovens acham que fazer sexo é amar”, reclama. Ainda assim, Glací Filter, 57 anos, vê uma grande vantagem nos dias de hoje: “Temos mais liberdade para escolher. Melhorou muito, principalmente para a mulher”. Essa característica aparece também nas relações familiares, segundo Leda Barreto, 68: “Antigamente não se aprendia a dar carinho para os pais. Eu só beijei meu pai morto”, admite em voz baixa e hesitante.

Independente das ações, o que ficou dos anos passados e deve sempre ficar é o sentimento mais puro, definido por Josefina, 70 anos, em um conceito que abrange todos os lados da questão: “O amor não tem limites, é lindo em todas as partes, é a coisa mais linda que existe. Onde ele não existe, não existe nada. Sem o amor, nada na vida é perfeito”.

Os alunos da Escola Mané Garrincha. 

No que depender das crianças de hoje, a fotografia do amor nunca vai desbotar. Juntos, os 12 pequenos com quem conversamos somam não mais do que 18 metros de altura. Por mais que faltem histórias nas suas vidas ainda muito curtas, a visão que têm sobre esse sentimento já é bem definida e segura, como se vários amores já tivessem passado por seu caminho. As crianças mostram que são inexperientes, mas não bobas. Cada vez mais novas, já aprendem a lidar com sentimentos e com palavras.

A ansiedade em falar a todo instante é tanta que, aos poucos, alguns começam a levantar-se de suas classes, na Escola Estadual Mané Garrincha, em Porto Alegre. Quando percebemos, estamos cercados por pequenotes, todos falando ao mesmo tempo, alguns pegando em nossos braços, praticamente implorando por uma chance de falar, de participar. De uma coisa as crianças têm certeza: eles vão viver seus grandes amores, já que não há vida sem amor. Pelo menos não para Carla, de dez anos, que acredita que “quando duas pessoas ou mais se amam, ninguém separa”.

Se meninos e meninas de cerca de dez anos fossem a uma cozinha preparar uma receita de amor, misturariam alguns dos mesmos ingredientes da receita dos idosos. Ingredientes que parecem instintivos, como confiança, solidariedade, altruísmo. “Amor é amar ao próximo, fazer as coisas pros outros”, acredita Ezequiel, dez anos. “Amor é uma paz, uma humildade”, diz Estefany, da mesma idade, apaixonada pelo namorado de 11 anos. Ela não tem dúvida de que “quando uma pessoa gosta da outra, tem que lutar por esse amor”.
Jhonatan, 13 anos, segue na mesma linha: “amor é carinho, agrado, presente, solidariedade. Simboliza paz e harmonia”. Para ele, o verdadeiro amor nunca acaba. “Uma pessoa apaixonada faria de tudo pela outra”, completa. Essa visão romântica é comum aos colegas da mesma faixa etária. Weslley, um menino pequeno, risonho e muito espoleta de dez anos, fala sério quando afirma que “amor é tudo, ele é infinito”. Diovanna tem a sua receita de felicidade na ponta da língua: “se a gente ama de verdade, não pode seguir o que os outros dizem”.

Amor nem sempre é feito apenas de felicidade. Alguns desses garotos e garotas já sabem muito bem disso. O caso da menina mais adolescente da turma é mesmo comum para a faixa etária, infelizmente. Ao ser questionada sobre amor, Nadyne, 12 anos, não pestaneja: “Me separei da minha mãe porque o marido dela me maltratava, e maltrata ela, mas mesmo assim minha mãe ama ele”. O ressentimento fica estampado no rosto da criança que diz amar “um pouquinho” quem lhe deu a vida.

O que falta na relação de Nadyne com a mãe sobra com os irmãos. A naturalidade com que ela fala do amor pelos seis é estranhada por Cristiellen, de dez anos. “Meu pai só dá ouvidos à minha irmã mais nova, de cinco anos”. Camila, com toda a experiência de uma década inteira de vida, enxerga uma relação de amor misturado com um ciúme natural. “Minha mãe paparica mais minha irmã e eu fico enciumada, mas não tem por que, depois ela me valoriza mais também. Se a gente pensar, a gente vê que os pais gostam igual dos filhos”, encerra.

Ninguém duvida da importância do amor pela família. Mas os exemplos não param por aí. Amor por brincar, pelos estudos – chamado de amor “nerd” por Estefany –, por bichos, pelo time são alguns dos tipos mais lembrados. Jhonatan acredita que o amor pode ser fraco, forte, legal, chato ou ridículo. E as crianças já aprendem a respeitar todos os gostos. Nadyne não esquece do amor “lésbico” entre os tipos citados. A busca por uma alma gêmea, seja ela quem for, é o único assunto que os deixa sem jeito. A vergonha está estampada nos pequenos rostos, agora vermelhos, quando perguntamos sobre namorados e namoradas.

Pâmela, 10 anos, é quem conta sua pequena grande história com mais desenvoltura: “Eu amo uma pessoa que não gosta de mim, porque eu não uso roupas de marca. Ele tem 12 anos, e mora na minha rua. Tô namorando um menino aqui do colégio, que às vezes eu gosto, às vezes não”. Nadyne se anima, e conta que namora seu vizinho Vini, que também a ama. E expõe já um pequeno traço de preconceito: “Não tem como ficar com ele pra sempre porque eu vou ser sempre dois anos mais velha do que ele”. Weslley, aquele menininho inquieto e sorridente, discorda: “quando duas pessoas que se amam se juntam, é pra sempre”.

Aos poucos, as crianças vão se soltando também neste assunto tão espinhoso para eles, e terminamos nossa conversa entre sorrisos e confissões. Jennifer, 10 anos, explica o porquê da retração inicial: “Só porque eu gosto de uma pessoa (o namorado, de 17, com quem ela está há cinco anos), todo mundo fica implicando. O Hector tem ciúme de mim. O Weslley implica comigo porque ele já pediu pra ficar comigo e gosta de mim”. É claro que os dois, entre sorrisos sem graça, negam.

    

O PASSADO E O FUTURO DO AMOR, pelo viés dos colaboradores Alexandre Haubrich* e Cristina Rodrigues.

Fotos: Alexandre Haubrich e Cristina Rodrigues.

*Haubrich é jornalista e editor do blogue JornalismoB e do JornalismoB Impresso. Colabora com diversas publicações, entre elas a revista o Viés. Leia outros textos publicados por Haubrich na revista o Viés aqui

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