BOMBEIROS 09h13

O tempo, esse também passa, apesar de não parecer. E haja tanta música nos ouvidos para se distrair.

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Era o ‘E’, cortado por uma listra vermelha na diagonal, envolto por um círculo também vermelho, que indicava que ali não poderiam estacionar carros, uma vez que aquele lugar estava destinado para embarque e desembarque de passageiros do transporte coletivo. Minha aflição, em estar novamente atrasada, ficava ainda mais visível quando, por costume, buscava em vão a hora no pulso esquerdo. Por todas às vezes só encontraria a marca do relógio, que, por pressa, havia ficado esquecido em casa.

Como todos os que perdem a hora, resignei-me diante da espera do próximo ônibus que demoraria cerca de vinte minutos para passar. Sentados à parada de ônibus, mais dois aguardavam o transporte rumo à Universidade.  Ele não parecia atrasado. A pasta embaixo do braço mal podia ser vista. Estava a esperar, e só. Ela, moça, tanto quanto eu, já se mostrava inquieta. Pernas cruzadas, pés balançando impacientes.

Alheios à nossa espera, que já parecia durar uma eternidade, passavam apressados, descompromissados, gente que parecia estar passeando, mesmo sendo uma segunda-feira, antes das nove horas da manhã. E passa cachorro, levando e sendo levado, passa mulher carregando criança, passam senhoras carregando sacolas, passa quem não tem mais pressa de passar. Passam pra lá e pra cá. Passam carros, mãos trêmulas em volantes de auto-escola, e até ônibus. Só não passa ‘o Bombeiros’.

O tempo, esse também passa, apesar de não parecer. E haja tanta música nos ouvidos para se distrair. Cada um com seus fones, todos juntos, mas cada um com a sua música. Sinfonia particular. Passa segundo, minuto, e o time dos passageiros vai aumentando. Chega mais moça nova. Futura arquiteta. Pelo menos é o que indica sua bolsa com as inscrições do curso. Chega homem de blazer bege, óculos de grau e mala de viagem na mão. Acho que é professor. Acho que não. Acho que pode estar aproveitando o fato do ônibus que está por vir passar nas proximidades da rodoviária.

E a parada de ônibus vai ficando lotada. E a paciência se esgotando, ainda que esteja cada vez mais próximo o horário do ônibus chegar. Chegam os eufóricos, assim por estarem chegando a tempo, diferente de mim. Quinze minutos aguardando. Mais de meia hora atrasada. Chegam e já vão se posicionando estrategicamente. Segunda parada depois do terminal, sabe como é, às vezes o ônibus já chega com poucos bancos disponíveis.

09h10. Atrasados ou não, o desejo de todos é o mesmo, que o ônibus venha de uma vez. Ainda chegam mais alguns, no limite de pegar ou perder a condução. Estudante apressada chega ainda terminando o café da manhã que vinha comendo no caminho. Despede-se da amiga que, pelas vestes, iria praticar algum esporte, enquanto nós estivéssemos, finalmente, dentro do ônibus. Um último pedaço da bolacha água e sal, e conseguiu fazer sua refeição matinal.

Na beirada da calçada, chega e logo já se empossa, um senhor. Ágil, inquieto. Mesmo com uma semana passada das eleições municipais, trazia, fixado por um clips, o ‘santinho’ de seu candidato no bolso da camisa. Camisa social. E anda para lá e para cá, sacola na mão, já impaciente com o tal ônibus que não vem.

Foto de Natascha Carvalho.

Bastou a cor laranja apontar na esquina da Duque de Caxias para que todos nós, como quem adentra num show, nos posicionássemos no meio fio, esperando aquele ser o melhor lugar, o que o motorista irá escolher para estacionar, e assim, subirmos logo no ônibus. Entra rapaz, moça, atrasado e prevenido, universitário, aposentado e viajante. Dei sorte. Consegui um dos poucos bancos desocupados.

Hoje é segunda. 09h14 passou ‘o Bombeiros’ na Presidente. E passa desde as seis e pouco da manhã. Todo dia pegam o ônibus, viajantes, aposentados, universitários, prevenidos e atrasados, moças e rapazes. E mais, entra gente. Gente que vai todo dia para Universidade Federal de Santa Maria. E ainda tem motorista e cobrador. E entram livros, cadernos, e sono. E desejos, esperança, e disposição. Acima de tudo entram os sonhos, que vão sendo realizados, pouco a pouco, através desse trajeto diário até a Universidade.

BOMBEIROS 09h13, pelo viés de Natascha Carvalho*

*Natascha é acadêmica do 6º semestre de Comunicação Social – Jornalismo na UFSM. A crônica Bombeiros 09h13 venceu o 6º Concurso de Crônicas da UFSM de 2012 na categoria acadêmica. 

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