SOBRE O JORNALISMO OFICIALISTA E OS PROTESTOS NA ARGENTINA

Os tempos de reclames da classe média “cansada” e uma presidente que tenta quebrar um monopólio.

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Foto: Presidência da Argentina.

Informações do diário Clarín: 700 mil pessoas se reuniram na noite da última quarta-feira, na região do Obelisco (centro de Buenos Aires), caçarolas na mão, para protestar contra o governo de Cristina Kirchner. O movimento, batizado de 8-N, foi puxado pelas redes sociais e supostamente pensado à parte de organizações ou partidos políticos de oposição. Dentre os principais reclames, a falta de segurança, a alta inflação e a corrupção do governo K – além do repúdio à proposta de  nova reeleição da presidenta, em 2016.

O “6-7-8”, programa de debates sobre a mídia e os fatos políticos do país, que é veiculado na TV Pública – e com um discurso bastante pró-governo – foi, segundo o próprio, o único meio de televisão com participação ao vivo e microfone aberto para a população. A repórter Cynthia García, em duas entradas ao vivo (aqui e aqui), conversou com dezenas de manifestantes, ouviu muitos xingamentos e reclamações genéricas, raros elogios e comentários embasados.

O Protesto e suas causas

As pautas, as mais variadas. Os argentinos diziam ocupar as ruas para “se queixarem”, mesmo que muitos gaguejassem para argumentar de quê. Todas as frases-feitas daqueles que se queixam ecoaram na Av. 9 de Júlio na última quarta: “pago meus impostos”, “nunca na história do país houve tanta violência”, “queremos mais policiais na rua”, “acredito na política, mas ninguém me representa”, “quero que saiam todos porque são la-drões”.

Havia também os reclames mais sérios. Questionavam de onde saíram os 80 milhões de pesos da riqueza de Cristina; reclamavam que a Argentina só recebe empréstimos internacionais com juros a 16%, ou seja, que o país não é mais bem quisto no cenário mundial; acusavam de enriquecimento (e consequente silêncio frente às polêmicas do governo) de jornalistas e donos de jornais “amigos” de Cristina; questionavam a inconstitucionalidade do intento de “re-reeleição” e se colocavam contrários a tal mudança constitucional, objetivo do governo.

O protesto retumbou por toda a Argentina e várias cidades do mundo. No Brasil, em Belo Horizonte e em São Paulo um pequeno grupo de argentinos fez sua mobilização.

6-7-8, ditadura e liberdade de imprensa

A presença do 6-7-8 no 8-N foi no mínimo audaciosa. O programa é o principal bastião da guerra midiática entre Kirchner e o grupo Clarín/La Nación, e resolveu abordar a grande manifestação contra o governo (e contra o próprio programa, em alguns momentos) encarando os manifestantes de frente, abrindo diálogo. Cynthia Garcia começava sua participação nos links perguntando às pessoas por qual motivo elas estavam ali. Dependendo da resposta, a repórter – muito bem munida – questionava o entrevistado, por vezes tentando desconstruir o seu argumento, desdenhando e até discutindo com alguns manifestantes. Foram pelo menos duas entradas ao vivo, de aproximadamente 15 minutos, no meio da multidão. Por vezes com perguntas retóricas, por vezes questionando informações dadas como verídicas pelos manifestantes, Cynthia – e o 6-7-8 – conseguiu deslegitimar a maioria dos argumentos dos manifestantes, ao vivo em rede nacional. Surgiram, dos questionamentos da repórter, até mesmo algumas críticas tímidas a Maurício Macri, prefeito da capital argentina e opositor de Cristina.

Em determinado momento, a presença de Cynthia não foi mais aceita entre os manifestantes e a transmissão foi interrompida porque a equipe da TV Pública se sentiu ameaçada. Um repórter do canal C5N também foi agredido enquanto trabalhava na cobertura.

***

A manifestação da última quarta ocorreu exatos 29 dias antes do início do vigor da Ley de Medios, que ataca diretamente o monopólio dos meios de comunicação do grupo Clarín – não por acaso, é claro. No dia 7 de dezembro, começam a valer duas clausulas polêmicas da lei, a 45 e a 161, que tratam sobre limite de licenças para operação televisiva e proíbe que um mesmo grupo tenha canais em todas as plataformas midiáticas como é o caso do Clarín. Por outro lado, os opositores argumentam que Cristina está criando um “amigopólio” para acabar com o monopólio midiático, tendo em vista que o governo argentino investe – segundo dados oficiais – 606 milhões de pesos argentinos (quase 300 milhões de reais) por ano em publicidade, chegando a bancar 90% dos custos de alguns diários.

Essa disputa entre meios oficialistas e meios opositores se evidencia nas manchetes e no discurso de cada veículo: As manchetes de hoje do Clarín e do diário La Voz del Interior, de Córdoba, respectivamente, dizem que foi uma “histórica mobilização” e que foi “o protesto mais numeroso em 9 anos de kirchnerismo”. Já o Página12 disse que o ato foi “mais do mesmo” e que as pautas, heterogêneas e pouco concretas, não tiveram nenhum líder orador que as unificassem.

A dicotomia atual na Argentina é se as medidas de Cristina são ditatoriais ou se a regulação proposta para os meios de comunicação favorece a democratização da mídia. O que se aponta não é nem um nem outro: o principal representante da “diKtadura”, 6-7-8, deu total atenção ao movimento oposicionista (mesmo que um tanto atrapalhado no método); movimento este de classe média-alta, carente de bandeiras unificadas, lideranças partidárias e de propósito, consensuando basicamente em seu rechaço a Cristina; presidenta esta que foi a que mais investiu em propaganda oficial, desde os governos populistas de Perón, comandando um país que vai na contramão do resto do mundo: o número de jornais impressos cresce, com abono estatal. Entretanto, a quantidade de veículos não garante por si só a pluralidade de discursos, diminuindo o caráter progressista da Ley de Medios e permitindo a interpretação de que tal lei só serve para o estabelecimento de uma soberania política e ideológica do kirchnerismo (que, por sinal, passa longe de plantear um câmbio estrutural na sociedade argentina).

Muito ainda está por acontecer na Argentina, embora o futuro seja nublado, tanto no que toca às praças públicas quanto no que diz respeito ao cenário político – as movimentações da direita e da esquerda nesse caldeirão político. Entretanto, pelo menos lá não parece haver vergonha – pelo menos de parte dos oficialistas – de um jornalismo posicionado, deixando pra trás o empoeirado e caduco mito da imparcialidade.

P.S.: Segundo fontes do governo, o número de pessoas presentes nas manifestações da última quarta girou entre 70 e 100 mil (aproximadamente 10% do que viu o Clarín).

SOBRE O JORNALISMO OFICIALISTA E OS PROTESTOS NA ARGENTINA, pelo viés do colaborador Yuri Medeiros*

*Yuri é estudante de jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria.

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  • Iuri Müller

    Bugrito,

    Bastante interessante a análise. Essa situação argentina das polarizações jornalísticas talvez seja a mais gritante da América Latina, Mas, a ver: considero, no caso da marcha recente, que o método do 678 foi menos atrapalhado do que oportunista. A oposição, de tanto acusar o Página 12 e os programas da TV estatal de ignorarem as movimentações anti-kirchneristas que já ocorriam, acabou por ver justamente o 678 com os microfones na multidão. Cobertura que, de tão explicitamente provocativa, não pode ser explicada sem buscarmos o motivo do método.

    Entre as diferenças que saltam entre o Clarín e o Página 12 (além do número de leitores), algumas me fazem pender despudoradamente para o lado ‘K’, por assim dizer: o jornalismo investigativo do segundo, ainda que oficialista, me parece incomparavelmente mais sério, além da qualidade textual que se pode notar em qualquer texto das páginas de Cultura ou Internacional. No mais, ainda é possível ver um Juan Gelman assinando uma coluna por ali.

    Com a aplicação da Ley dos Medios, creio que o panorama fica ainda mais complexo – e agressivo. A imprensa argentina, de todo modo, dentro da demência que lhe é própria, ao menos assume o conflito de forma mais sincera do que as batalhas veladas que acontecem todos os dias no jornalismo brasileiro. Não que seja, hoje, modelo para alguma coisa no continente. Jornal por jornal, experiência por experiência, fico com o La Diária de Montevidéu – que recomendo seriamente a leitura.

    Bom ver textos assim por aqui.

    Grande abraço.