PEQUENOS FRAGMENTOS DE NATAL

Há vezes em que a única semelhança entre o Natal de um e o Natal de outro é a data.

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Foto: Autores da reportagem.

Há vezes em que a única semelhança entre o Natal de um e o Natal de outro é a data: apenas o dia 25 de dezembro é capaz de se tornar um denominador comum, independentemente de onde, como e com quem cada um esteja. Os festejos no centro da cidade, se já são diferentes das comemorações que ocorrem longe dali, na periferia, em nada se parecem com as que acontecem em lugares frequentemente esquecidos. Nos albergues, a festa de Natal altera uma rotina dos que estão apenas de passagem – entre uma vida que foi e um futuro ainda em suspenso. E nos asilos e lares para crianças, a saudade parece maior do que qualquer árvore de Natal. Nos fragmentos abaixo, surgem seis pequenas histórias de um Natal com menos requintes, mas de certa forma mais íntimo e sincero.

Estando a mil e quatrocentos quilômetros da única pessoa que lhe restou para chamar de família, a filha que mora em São Paulo e que – ele faz questão de dizer – é doutora em psicologia, Augusto de Castro agora é um andarilho. Na altura de um pouco mais de suas cinco décadas de vida, ele, que antes era desenhista projetista mecânico, anda vagando pelas ruas, seguindo o caminho que a vida lhe indicar, vivendo de passagem. Sem rumo, sem perspectiva, sem chance para tentar uma mudança, a única coisa que Augusto deseja é um trabalho digno para que ele possa prover o próprio sustento e não mais precisar estar sempre de passagem. Nessa época do ano, que parece fazer nascer os melhores sentimentos nas pessoas, o que Augusto sente dói e se chama saudade. O silêncio e a solidão cortam, machucam, fazem ressurgir recordações e marejar os olhos. O final do ano é sempre uma época de festas, de reunir a família, de celebrar. Mas, para Augusto, nada mais parece ter um significado especial.  “Hoje o Natal pra mim não significa mais nada. É simplesmente um dia a mais. Antigamente era uma data de confraternização, de estar com a família, uma data importante a ser comemorada. Hoje, é um dia igual aos outros”. E assim ele vai vivendo, um dia de cada vez, espremendo a vida – ou o que restou dela – em uma pequena sacola plástica e seguindo, sem rumo certo, vagando, até o próximo Natal.

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Ao contrário da enorme maioria das novas companheiras, Raquel Flores ainda não sabe como é passar o Natal longe da família. Apenas desde março no asilo, Raquel teve uma adaptação reconhecida pelos funcionários como exemplar. Logo deixou os dias de silêncio e resignação para algo que lhe parecia improvável aos sessenta e um anos: fazer tantas amigas em um período tão curto de tempo. Raquel atravessou o inverno e a primavera com uma tranquilidade que se sustentava na saúde e nos contatos que seguia mantendo com os filhos. No entanto, dezembro bateu à porta e as definições sobre a ceia de Natal seguem em suspenso. A saída do novo lar depende da chegada de um parente e do conserto de um carro velho, que há tempos deixa a família quase que ilhada em São Pedro do Sul. Talvez Raquel ainda não tenha decidido mentalmente o que prefere para a data. Está entre os tradicionais jantares em família, que acabaram marcados por problemas e discussões nos últimos anos, e a incerteza de não saber como serão as festas no asilo. De qualquer maneira, a decisão desta vez não será sua. Em 2011, o Natal depende do motor do carro da família.

Foto: Autores da reportagem.

Piscam as luzes da árvore de Natal que enfeita a sala de recreação da escola. Uma estante com brinquedos, um bebedouro, um grande sofá de cores desbotadas e um conjunto de pequenas mesas e cadeiras completam a decoração. Crianças correndo, brincando, gritando. Sentada no sofá, folheando uma revista, está uma menina de longos cabelos encaracolados, presos por uma fita azul marinho, óculos de grande armação e dentes protuberantes. Quando pergunto seu nome, ela responde prontamente: “Gabriella. Mas Gabriella com dois L, porque aquela outra menina ali também é Gabriela, mas com um L só”. A menina de apenas oito anos é protagonista de uma daquelas histórias proibidas de se contar para crianças.  Gabriella sofreu abuso sexual do padrasto há alguns anos. Desde então, mora na casa da avó, uma senhora já bastante idosa, em um bairro humilde de Santa Maria. Gabriella folheia a revista emprestada por uma das colegas, que traz vários modelos de bonecas Barbie. “Queria ganhar uma Barbie Fada no Natal, mas acho que minha vó não vai ter dinheiro pra comprar.” Pergunto se ela vai pedir para o Papai Noel, afinal, é o velho que traz os presentes. Ela olha bem nos meus olhos, dá um sorriso um tanto irônico, daqueles que antecedem uma grande revelação, e fala pausadamente: “Mas o Papai Noel não existe, tio! São os adultos que se vestem de Papai Noel, pra enganar as crianças… E a gente finge que acredita. Papai Noel já morreu há muito tempo.” Mesmo não ganhando a boneca, Gabriella não se sente triste. Ao contrário da maioria das crianças, não gosta do Natal apenas por ser uma época de receber presentes. “Eu gosto é da ceia. Tem comidas gostosas demais! E é quando eu posso ver meus irmãos mais velhos porque a família se reúne, né?”.

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Desde os 19 anos, João Guimarães tem a rua como sua casa. Passou por problemas familiares na adolescência e, desde então, saiu da casa da mãe. Hoje, com 22 anos, passa o Natal não com a família que gostaria, mas com a família que a rua lhe deu. Acostumou-se a dormir sob a iluminação das luzes da decoração de Natal. Não tem uma ceia farta, não troca presentes com ninguém, tampouco enfeita pinheiros. Mas isso não lhe faz falta. O que João mais gostaria no Natal era estar com a mãe que faleceu no início do ano. “Eu tento fazer meu Natal feliz”. E, assim como Augusto, João vive de passagem, de lembranças e de saudade.

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Felipe tem sete anos, veste uma camiseta branca e calças curtas. Está sentado no último degrau da escada que liga a sala dos refeitórios à sala de recreação, decorada com uma grande árvore de Natal. Enquanto os colegas correm em sua volta, o menino continua absorto em seus pensamentos. O menino tímido mora com a mãe num bairro afastado do centro da cidade, mas espera com expectativa o final do ano para visitar os avós maternos. Todos os anos, Felipe comemora as festas de Natal e Ano Novo na pequena chácara dos avós, a alguns quilômetros da cidade. Felipe ama o Natal, em especial os presentes que recebe na data. Desde o Natal passado, espera ganhar uma bicicleta do Papai Noel. Diferente de Gabriella, Felipe acredita sim no velho Noel e confidencia: “Eu já vi ele!”. Na véspera do Natal passado, um pouco antes de dormir, Felipe olhou pela janela e viu um velho barbudo, vestindo roupa vermelha e carregando um saco nas costas. “Não vi nenhum trenó, mas era Natal, então só podia ser o Papai Noel”.

Foto: Autores da reportagem.

Marta Quintana, 71 anos, há tempos reclama de como o nervosismo atrapalha a vida no início da sua oitava década. Mesmo que não tenham sido diagnosticadas as causas exatas para o problema que provoca certa tremedeira em seus braços, é possível que a enfermidade tenha razões menos físicas do que psicológicas. Recentemente, Marta desmaiou na ala dos fundos do asilo que se transformou em lar nos últimos anos – e desde então se mostra visivelmente mais preocupada, a ponto dos emocionados desabafos sobre o estado atual da sua saúde se tornarem corriqueiros. A chegada das festas que encerram o ano de 2011 não coincide exatamente com sentimentos definidos de alegria ou de tristeza – para ela, a sensação que melhor se relaciona com o Natal é algo muito parecido com a saudade. Saudade dos familiares que não fazem mais parte do dia a dia, de uma juventude distante e dos acontecimentos que cercavam as antigas festas, comemoradas na área rural. Marta lembra a pressa para despertar e deixar a cama na manhã no dia 25 de dezembro – apenas para ser a primeira a encontrar os presentes que a data trazia anualmente. Aos 71 anos, na ala psiquiátrica de um dos maiores asilos da cidade, os desejos são mais simples: “eu só quero que nesse Natal as pessoas que não se gostem se queiram bem para começar o ano em paz. Porque, na verdade, quando a gente morre não leva nada daqui”.

Nota: Todos os nomes mencionados no texto foram alterados para que a identidade das fontes fosse preservada.

PEQUENOS FRAGMENTOS DE NATAL, pelo viés dos colaboradores  Iuri Müller, Kamila Baidek e Marlon Dias*.

*Iuri, Kamila e Marlon são acadêmicos de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria.

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