CAMINHÕES

Salman Rushdie, o escritor exilado em seu próprio solo e seu livro “Joseph Anton, memórias”, pelo viés de Gabriel Divan.

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Créditos: Wikimedia Foundation

Ao longo do final da minha infância e início da adolescência jamais pensei que viria, um dia, a ser fã ardoroso de Salman Rushdie, embora desde a época mantivesse uma certa admiração e compadecimento (ainda que à distância) para com o sujeito que não podia ir na esquina comprar pão, ou tomar um sorvete na main street do seu bairro. Aliás, Rushdie teve vários bairros: nomadismo compulsório, ocre, perturbador. Prisão sem muros, ainda que com ‘carcereiros’.

Rushdie, como você deve saber, passou parte das décadas de 80 e 90 exilado em seu próprio solo, sob fortíssima segurança fornecida pela Scotland Yard uma vez que o então líder islâmico máximo do Irã (o Aiatolá Khomeini) sagrou como ofensivos aos preceitos de sua religião passagens provocadoras da sua segunda melhor obra – mas que por motivos que infelizmente são mais sórdidos que literários, se tornou a incomparavelmente mais famosa: “Os versos satânicos” (que fica ‘atrás’ apenas do inigualável “Os Filhos da Meia Noite” – que venceu o Booker Prize de 1981 e o “Booker of Bookers” em 1993). Mais do que um ato de ‘desagravo’ ao texto de Rushdie, o Aiatolá proferiu uma ‘sentença de morte’ ao ‘apóstata’, que estava pronta para ser cumprida por extremistas fanáticos em qualquer parte do mundo (e especialmente dentro do próprio solo britânico) e era insuflada e alimentada por uma promessa de recompensa.

A vida de Rushdie no período impressionante onde ele se manteve esguio às tentativas de assassinato, às crises que insanidade que a situação lhe procurava diariamente lhe proporcionar, às críticas e toda a polêmica envolvendo seu livro em discussões que catapultaram a obra para um patamar monolítico onde ela parecia ser por todos discutida sem ter sido devidamente lida é magistralmente relatada em seu último livro: “Joseph Anton, memórias” – “Joe” Anton (de Joseph Conrad e Anton Tchekov) era o seu codinome para tratamento da equipe de segurança, sua identidade falsa, seu alter ego forçoso. Genial, Rushdie nos traz sua autobiografia narrada em terceira pessoa, como se estivesse, em todos sentidos possíveis, fora de si, fora de sua própria vida.

O livro (2012, Companhia das Letras, trad. Donaldson M. Garschagen e José Rubens Siqueira, 614 pág.) é o Rushdie de primeiríssimo gabarito que conhecemos em obras como as já citadas, exorcizando de vez sua pequena aventura e sua luta cotidiana contra o maior inimigo invisível que se pode ter: o medo.

Escolhi a passagem localizada na p. 174 para ser como que um ‘cartão de boas vindas’ ao ano novo das pessoas de quem gosto. E para ser um voto de intenções, para mim, para você e para todos os dias de todos os anos.

Com vocês, o Sr. Anton em um libelo diário pela liberdade e em uma verdadeira canção para um estilo de vida que se recusa a (qualquer) opressão:

“Junto com a equipe, ele viu um documentário na televisão, que mostrava Ronald Reagan sendo baleado por John Hinckley Jr. “Veja a equipe de segurança”, disse Stan. “Cada um deles está no lugar certo. Ninguém estava fora de lugar. O tempo de reação de cada um foi perfeito. Ninguém ali falhou. Todo mundo ali fez o que tinha que fazer da melhor forma possível, mas ainda assim o presidente foi baleado”. O espaço mais perigoso, aquele que nunca podia ser totalmente protegido, ficava entre a porta de saída de um prédio e a porta de entrada do carro. “O israelense”, disse Benny, referindo-se ao embaixador, “sabe muito bem disso. Ele abaixa a cabeça e corre”. Foi nesse espaço que Hinckley baleara o presidente. Entretanto, havia aqui uma verdade mais genérica. Os melhores agentes de segurança dos Estados Unidos, todos eles muito experientes e armados, tinham se portado de forma perfeita, mas, apesar disso, o pistoleiro lograra seu objetivo. O presidente dos Estados Unidos fora ferido. Não existia segurança absoluta, mas apenas graus variados de insegurança. Ele teria que aprender a viver com isso.

Ofereceram-lhe coletes de kevlar à prova de balas. Ele os recusou. E, quando caminhava da porta de um carro até a porta de um prédio, ou vice-versa, ele retardava o passo conscientemente. Não iria se apressar. Procurava caminhar de cabeça erguida.

“Se você sucumbir à ideia que os agentes de segurança fazem do mundo”, ele pensou, “aí você estará dependente dela eternamente, será seu prisioneiro”. A visão que o serviço de proteção tinha do mundo baseava-se na chamada análise da pior situação. Todavia, no caso da travessia de uma rua, essa análise dizia que havia uma possibilidade de você ser atropelado por um caminhão, e, portanto, não deveria atravessar a rua. Mas as pessoas atravessavam ruas todos os dias e não eram atropeladas. Isso era uma coisa que ele teria de lembrar. Só havia graus variados de insegurança. Ele teria que continuar a atravessar ruas”

CAMINHÕES, pelo viés de Gabriel Antinolfi Divan*

*Doutorando e Mestre em Ciências Criminais pela Pucrs. Professor de Processo Penal da Universidade de Passo Fundo e Advogado.

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