E QUEM VAI OPINAR SOBRE ISSO? (EU NÃO)

Uma crônica de Cássio Prates sobre a nova polêmica envolvendo Danilo Gentili. “Onde está a verdadeira opinião?”, questiona o autor.

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Esse novo bafafá do Danilo Gentili – ou nem tão bafafá assim – nos fez voltar a um assunto que sempre está presente em praticamente todas as vezes em que acessamos a internet: a carência de opinião que rege a nossa busca por informação.

Somos bombardeados por notícias durante o dia inteiro, ficamos conhecendo a última bizarrice, o último vídeo superengraçado e da posse de Chávez doente com o mesmo grau de profundidade. Conseguimos, numa mesa de bar, conversar sobre as bombas francesas presentes na África e da nova paródia do “não faz sentido” como se fosse tudo o mesmo: recebemos um arsenal de informações que devemos acumular compulsivamente para sermos cidadãos “informados” sobre tudo. E por fim a gente ri alto!

Mas e aí, o que realmente importa de todas as 300 coisas que lemos por dia?

Sei que essa é uma discussão bem velha, sei sobre as teorias da internet – da aceleração do tempo, das consequências cerebrais, disso tudo – mas não é disto que quero falar.

Acho que esse fenômeno – podemos chamar assim? –  gera uma sociedade super opinativa, só que sem opinião nenhuma. Ou como o último ultrapassado meme diz:  #sóqueaocontrário. E quem ri por último é retardado!

Na minha opinião, falta, e muito, alguém que dê sentido no que se passa no mundo. Sentido como significado real. Parar, pensar e discutir no que isso de fato gera para o mundo moderno e de que forma isso afeta a posterioridade.

Levanto essa questão com alguns amigos perguntando simplesmente: quem tu achas que forma opinião hoje no Brasil? Ou “quem tu lês para te sentires contextualizado com o que está acontecendo  ( pode ser em política, economia ou cultura)?”. Nenhum soube me dizer de cara, e nem depois, quem seria essa pessoa.

Entendo e concordo – como me disse uma amiga – que hoje formador de opinião é uma coisa antiga e que as opiniões se constroem mais de igual para igual. Ok, mas cadê essas opiniões dos iguais? Todos os meus amigos que se manifestam têm uma preguiça incrível de escrever e se posicionar ( por escrito, não naquele papo de boteco) sobre qualquer coisa. E ao invés disso, postam uma chuva de imagens que diz tudo, mas no fundo não diz porra nenhuma. É autoajuda social. Inconsciente coletivo e risada garantida.

E o  Danilo Gentili? Bom, o Danilo Gentili, um grande formador de opinião brasileiro – ele tem esse título com todo o aval social de todos que o levam a sério – postou no seu twitter, para seus milhões de seguidores a seguinte colocação: “ E esse dado da ONG Gay aí que “1 gay é morto a cada 26 horas”? 140 heteros são mortos a cada 24hs. Alguém aí come o meu cu hj? Só por segurança.”

Particularmente não gosto do tipo de humor desses novos “caras” que dão uma pitada de brincadeira fanfarrona a todo o conservadorismo da sociedade. Mas respeito. É um tipo de gente que substitui de certa forma o super mago Paulo Coelho e dá esse novo tom à formação de opinião, mais de igual para igual. No entanto, não acredito que o apresentador de um dos programas de maior audiência do Brasil tenha prestado atenção no que ele escreveu. Foi a piada pela piada (como sempre é), seguindo a lógica de acumular mais e mais informações, sem fazer nenhuma relação entre elas.

Risada de trouxa, que ri sem entender a piada. Postagem de trouxa e aceitação de milhares que retuitaram isso confirmando a piada!

E o pior, esse tweet nada mais é do que o reflexo de uma sociedade conservadora que mascara conservadorismo com piada porque carece – e muito – de opinião. E leva em consideração a opinião do Gentili, que conforta todo esse preconceito como uma coisa banal.

Sim, é banal e todos somos muito preconceituosos. Eu sou, tu és e o Danilo Gentili é. Agora tu manifestar teu preconceito, além de burro, é uma disfunção social. Um sujeito respeitado e levado a sério por muita gente deveria ser preso ao fazer isso. E nesse caso quem ri é retardado! E quem posta é mais retardado ainda!

Depois disso, como se não bastasse, quem se manifesta contra essa publicação: Jean Wyllys, ex BBB e atual deputado (não sei se é pior ser BBB ou deputado, mas acho que a segunda opção é bem mais cretina) defendendo a causa gay. Louvável. Mas a conversa vira bate-boca ofensivo – papo de boteco no twitter – e tudo acaba em, vamos lá: gargalhadas. Não é puramente a causa gay, nem a causa negra ou a causa Guarani-Kaiowá. É a questão de que manifestar uma opinião sendo uma pessoa popular é algo arriscadíssimo e que tem consequências gravíssimas. Só que como ninguém tem opinião, qualquer um pode dizer o que quiser em tom de palhaçada, que daí o mundo ri sem entender a piada!

E quem vai opinar de verdade sobre isso?

O 9gag? O jacaré banguela? O Felipe Neto? O Jean Wylys? Não. O ramo de vocês é o entretenimento. E nesse, sim, vocês devem ser levados a sério.

E quem souber de alguém que escreve de forma opinativa em sua ferramenta de comunicação, me avisa, por favor.

E QUEM VAI OPINAR SOBRE ISSO? (EU NÃO), pelo viés de Cássio Prates*

*Cássio é publicitário.

 

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  • http://blog.fernahh.com.br Luiz Fernando

    Belo texto, Cássio Prates.

    Sou militante da open web e dados abertos. As vezes fico indignado com a maneira de que as pessoas falam da internet em relação ao comportamento das pessoas depois do surgimento dela.

    É óbvio que com a internet recebemos um “boom” de informações por dia e realmente é difícil filtrar o que nos interessa. Porém, há ferramentas pra isso. Por exemplo:

    No twitter você segue quem quiser;
    No facebook você pode seguir o conteúdo de quem quiser ou cancelar o mesmo.

    Mas a questão é que não é esse excesso de informação que está deixando as pessoas preguiçosas de escrever ou escolhendo sujeitos como Danilo Gentili como formador de opinião. A questão é que SEMPRE foi assim, um exemplo é a televisão.

    Neste caso, a internet reflete as escolhas que a grande massa faz e sempre fez. Optar por ler notícias em grandes portais, “assinar” embaixo o que estes humoristas fazem. Aliás, falando neles, sempre foram assim. Nos Trapalhões, haviam piadas sobre o desfavorecimento devida a cor do Mussum e o jeito afeminado do Zacarias. A diferença é que naquela época não havia um instrumento de contestação grande e poderoso como a internet. Ou você acha que a Turma Do Didi não faria as mesmas piadas que os Trapalhões? Qualquer piada que o povo não gosta, é de certa forma denunciada em redes sociais e aí tomadas devidas providências. Não é?

    Repetindo, a internet é uma grande ferramenta onde todos tem voz e o retrato opinativo não é culpa dela, é e sempre foi pela “escolha” das pessoas que antes assistiam apenas a Rede Globo, agora podem ver vídeos na internet com ~~opinião do Danilo Gentili.