ENTREVISTA COM HIDEYO SAITO, AUTOR DE “CUBA SEM BLOQUEIO”

Cuba não sofre apenas o bloqueio econômico, mas também o bloqueio ideológico da mídia hegemônica.

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Imagem da internet.

Como imaginar Cuba sem bloqueio? Que forças poderia ter reunido a Revolução Cubana não fosse o criminoso bloqueio econômico estadunidense e o não menos criminoso bloqueio midiático internacional? Quantas Cubas já teriam sido construídas pelo mundo? Foi como uma navalha a furar o bloqueio que Hideyo Saito e Antonio Gabriel Haddad escreveram Cuba sem Bloqueio: a revolução cubana e seu futuro, sem as manipulações da mídia dominante, recém lançado pela Radical Livros. É sobre esse trabalho que Hideyo fala na entrevista exclusiva ao Jornalismo B.

 

Jornalismo B – Como surgiu a ideia do livro?

Hideyo Saito – Nosso interesse se deve à própria História do país. No século XX a esmagadora maioria de governos considerados hostis aos EUA foram derrubados de uma ou de outra forma. Cuba possivelmente foi a única exceção a essa regra. Além disso, isolado e em meio à hegemonia neoliberal nos anos 1990, o país resolveu defender o socialismo depois de uma grande mobilização popular (o “parlamento obrero”, como é conhecido em Cuba). Isso aconteceu quando o PIB despencou 40% por causa do desaparecimento do mundo socialista, com o qual o país mantinha cerca de 80% do seu intercâmbio comercial. Cuba literalmente parou por falta de combustível e de energia elétrica. Até as carroças foram reativadas para transportar a safra. Nesse período, os governos Bush (pai) e Clinton arrocharam ainda mais o bloqueio econômico, tentando estrangular de vez a economia cubana. O livro surgiu para mostrar como o país conseguiu resistir a tudo isso.

Como foi feita a apuração das informações para o livro?

O livro é resultado de uma grande pesquisa bibliográfica, que envolveu consulta de livros publicados em diversos países, especialmente Cuba e Brasil, mas também México, Estados Unidos, Argentina e Chile; de estudos promovidos por organizações como o Banco Mundial e os órgãos especializados da ONU; e por instituições cubanas. Pesquisamos também na imprensa brasileira, na cubana, em portais de internet e agências de informação. Somado a isso, estivemos em Cuba em várias ocasiões, sendo que eu morei dois anos em Havana.

Vocês têm enfrentado dificuldades na distribuição e comercialização do livro?

Sim, com exceção de algumas notas pequenas, até o momento não recebemos nenhuma cobertura mais substancial da chamada grande imprensa. Em consequêcia, as redes de livraria também relutam em expor o livro em suas vitrines. Por causa disso, quase todas as vendas estão sendo efetuadas diretamente pela página da editora: radicallivros.com.br.

De que forma se organiza e atua o bloqueio midiático sobre Cuba?

No início desta entrevista, lembramos que Cuba sobreviveu à onda de golpes e desestabilizações que derrubou, no século XX, praticamente todo governo que contrariava os interesses dos Estados Unidos e do capitalismo dominante. Se observarmos esses processos de perto, certamente veremos que a mídia dominante teve papel fundamental na criação do clima político que antecedeu a derrubada desses governos. No caso de Cuba, houve essa tentativa no início da revolução, quando jornais burgueses continuavam dominando o setor de comunicações. Depois, com a radicalização do processo, esses jornais foram fechados. O mesmo papel desestabilizador passou a ser exercido então pela mídia dominante internacional e por rádios piratas operados pela CIA para transmitir propaganda contrarrevolucionária para a ilha, até a criação da Rádio e TV Martí, pelo governo dos Estados Unidos. Mas o principal papel da mídia dominante é distorcer, omitir ou interpretar enviesadamente as informações sobre Cuba, para criar a impressão de que o socialismo não funciona e não pode dar certo. Por isso, a maioria das pessoas acredita que em Cuba vigora uma ditadura sanguinária e que seu povo é escravizado. Em contraste, informações de que a educação cubana é considerada a melhor do terceiro mundo pela Unesco, que os indicadores de saúde colocam o país entre os países mais avançados, que as políticas sociais da ilha foram consideradas excelentes pelo próprio Banco Mundial são sonegadas ao público.

Em que medida o bloqueio econômico afeta a sociedade cubana?

O bloqueio dificulta o comércio internacional do país. As compras no exterior, segundo estudos empíricos do governo cubano, ficam de 20 a 100% mais caras por causa disso. Como qualquer empresa que comerciar com Cuba corre o risco de ser eliminado do mercado estadunidense, há necessidade de se criar empresas de fachada, de remeter a mercadorias a diversos locais antes de enviá-las a Cuba, e de sempre pagar ágio. Muitas vezes, o país não encontra vendedor disposto a correr o risco mesmo com ágio. Para um país que depende de insumos e matérias-primas para sua indústria, além de alimentos para seu povo, o devastador impacto do bloqueio é evidente. Basta imaginar o Brasil sem poder comprar nem vender para os Estados Unidos, nem para qualquer empresa do mundo inteiro que tenha interesse em negociar com esse país.

Como seria Cuba sem o bloqueio?

Seria um país com muito maiores chances de reerguer sua economia, segundo novas bases, como está sendo tentado. Seria poder agir em condições de igualdade com as demais nações, pagando e recebendo segundo os preços internacionais vigentes em seu comércio exterior.

Qual a importância, para a Revolução Cubana, da ascensão de governos progressistas na América Latina, especialmente o de Chávez?

Do ponto de vista econômico, representa a possibilidade de reduzir os rigores do bloqueio e manter parceiros comerciais solidários na região. Do ponto de vista político, a ascensão desses governos significou a depuração do clima internacional e o fim do isolamento de Cuba. Hoje, ao contrário do que aconteceu por mais de quatro décadas, Havana mantém relações diplomáticas com todos os países das Américas, com exceção dos EUA.

Quais os principais méritos da Revolução Cubana?

Nos anos 1970 e 80, com apoio do mundo socialista, Cuba conseguiu criar uma base industrial que nunca teve em sua história, além de se aproximar do primeiro mundo em bem estar social. Depois do colapso do socialismo soviético, houve um recomeço em condições muito mais duras, mas segundo dados da Cepal, o bem estar social não foi afetado na mesma medida. Os investimentos reais per capita na área social cresceram aproximadamente 23% ao ano entre 1993 e 2001, enquanto o incremento médio do PIB foi de 1,6% anual no mesmo período. Por isso, apesar da escassez, o Índice de Desenvolvimento Humano de Cuba ainda está na vanguarda da América Latina, por exemplo.Aliás, é exatamente porque o bem estar da população é considerado prioritário que as reformas econômicas aprovadas pelo parlamento cubano estão sendo aplicadas gradualmente. Por exemplo: o  enxugamento dos quadros das empresas estatais será feito no mesmo ritmo da migração de parcela dos trabalhadores para atividades autônomas ou cooperativizadas, para que a reestruturação econômica se dê sem que haja desempregados.

Quais as principais deficiências desse processo?

Diversas iniciativas para resolver problemas políticos considerados delicados estão sendo discutidas em assembleias populares, incentivadas pelo governo. Recentemente, foi anunciado o fim da necessidade de autorização prévia para viagem ao exterior e a possibilidade de volta dos exilados ao país. Há ainda questões pendentes na área política, em que muitos falam na superação da herança soviética, na necessidade de se aprofundar a participação dos trabalhadores e de elevar o poder de decisão do próprio parlamento.

Tendo em vista a situação de direitos civis, sociais e políticos, podemos afirmar que existe democracia em Cuba?

 Como mostramos no livro, nada funciona em Cuba na base da vontade autocrática do presidente (ou ditador, como insiste em dizer a mídia dominante). Há leis e regras estabelecidas e a Constituição foi elaborada – e emendada – após meses de discussão popular e aprovação em referendo. As autoridades são eleitas segundo regras estabelecidas constitucionalmente, assim como todos os poderes do Estado são constituídos e funcionam dessa forma. O que os cubanos discutem hoje é como aprofundar a democracia nesse regime deles. Um dos pontos mais levantados é como fazer com que a participação, dos trabalhadores, que hoje se concentra na fase de aprovação ou de alteração de projetos já preparados pelo governo, comece já na fase de elaboração da proposta. Buscam também fórmulas para que os trabalhadores tenham mais voz nas decisões e na administração de suas empresas. Outro é criar um clima mais aberto de discussão pública de qualquer ideia, inclusive as mais delicadas. Os intelectuais e os próprios dirigentes criticam a autocensura da imprensa e da televisão. Aliás, é interessante saber que muitos filmes da nova geração de realizadores são bastante críticos em relação a aspectos da revolução. Eles são exibidos nos cinemas do país e premiados nos festivais e mostras. O que os cineastas desejam é que suas obras sejam mostradas também pela televisão.

Como funciona o processo eleitoral cubano?

O que mais diferencia as eleições em Cuba, em relação às das democracias de caráter liberal (que também têm seus problemas e limitações, como a influência determinante do dinheiro, por exemplo) é que as indicações de candidatos são feitas diretamente pela população no nível municipal e pelo legislativo municipal nos níveis provinciais e nacionais. Neste último caso, as entidades de massa, como a central sindical, a organização estudantil, o movimento de mulheres e de camponeses também fazem suas indicações. O Partido Comunista não apresenta candidatos. A campanha é feita através de cartazes e visitas dos candidatos aos eleitores. Nos níveis provincial e nacional, pode haver ainda debate televisado ou em locais de trabalho e de estudo. O voto é direto e secreto, mas não obrigatório, e a apuração é feita publicamente sob supervisão da justiça eleitoral. O governo é nomeado pela maioria dos representantes da Assembleia Nacional. Nenhum deputado tem mordomia, continuando a receber o salário que recebia em sua empresa antes de ser eleito.

É possível fazer alguma previsão sobre o que acontecerá em Cuba quando Fidel morrer?

O mais provável é que o regime continue seu curso normalmente, isto é, que não aconteça uma derrocada abrupta da revolução, como esperado por alguns setores dos contras de Miami.

Como Cuba pode servir de exemplo ao restante do mundo, em especial ao Brasil?

Por incrível que pareça, o Banco Mundial diz, na conclusão de seus estudos sobre políticas sociais no terceiro mundo, que os programas cubanos são um exemplo. O mesmo é sustentado por especialistas dos EUA, como Julia Sweig, do Council of Foreign Policy. Basta dizer que os indicadores sociais cubanos são os melhores do terceiro mundo, rivalizando com os dos mais avançados países desenvolvidos. Trata-se de uma façanha sem igual, que deve ser valorizada. Nosso livro mostra isso detalhadamente, com dados da Unesco, do Banco Mundial e de especialistas em cada área de vários países do mundo. Só o ódio e a cegueira ideológica podem explicar o desprezo com que essa realidade é mostrada pela mídia dominante. 

ENTREVISTA COM HIDEYO SAITO, AUTOR DE “CUBA SEM BLOQUEIO”,  pelo viés de Alexandre Haubrich*

*Haubrich é jornalista e editor do blogue JornalismoB e do JornalismoB Impresso, jornal independente distribuído gratuitamente nas ruas de Porto Alegre e, através de assinaturas, para todo o Brasil. Colabora com diversas publicações, entre elas a revista o Viés.

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