VERBETE PARA O CÍNICO

” Sairá perdedor aquele que medir autoridade com o cínico”, escreve Adriano Joca Ramiro.

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Charge de Rafael Balbueno.

Os ouvidos dos zeladores dos costumes (do ethos) podem se distrair ouvindo o discurso do cínico, porém o olhar vigilante dos desconfiados investiga o tempo todo se o que os indivíduos dizem é confirmado pelo que fazem.

(Leandro Konder) 

É comum em ambientes públicos, sobretudo em instituições de ensino, deparar-se com a figura do cínico. O cínico é apegado às instituições, ele agarra-se com unhas, cutículas, dentes e gengivas aos cargos públicos. Como um organismo parasitário aferrado à raiz de uma planta, o cínico pensa apenas em si mesmo e nas suas vontades. O cínico engorda sozinho, como o parasita descrito, só que enquanto ele engorda, a planta que lhe serve à esbórnia enfraquece, deixa de fornecer oxigênio para os seres, deixa de brindar às abelhas, deixa de frutificar, atrofia e às vezes morre.

O cínico é solertemente velhaco, ele tem apenas uma arma, uma ardilosa e ameaçadora arma: o autoritarismo. Através do uso e abuso da pequena autoridade, que em geral é conferida às mais diversas categorias de cínicos, essa figura tem por prática atemorizar, amedrontar e intimidar quando se sente ameaçada. Diariamente o cínico se sente ameaçado, ele teme que um neófito lhe embace as retinas, teme que um colega lhe ganhe em mediocridade e, por isso, ele se cerca de contatos interesseiros que lhe assegurem e lhe garantam o livre arbítrio do autoritarismo cínico. É dificultosa a convivência com o cínico.

Na duvida, sugere-se não rebatê-lo com argumentos sólidos, ele não irá compreender. O cínico não entende o exercício da dúvida e do diálogo, sua linguagem é editalícia, articula-se em alíneas, caputs, e leis de existência duvidosa. No ordinário, é melhor não provocar o cínico. Frente à argúcia, à lucidez e à generosidade, sua arma é fraca e sua munição autoritária em geral é impotente. Entretanto, provocar um confronto direto com um cínico pode ser desolador e turbulento. Desconhece-se alguém que tenha saído completamente ileso a tremores de grandes abalos cínicos. Não obstante um processo ajuizado, uma sindicância aberta, uma troca de setor, uma ligação anônima, um projeto boicotado, um pneu furado, uma pedrada no vidro do carro, é preciso lembrar que a única arma do cínico é essa.

Não se deve, portanto, travar uma batalha aberta, de igual. Sairá perdedor aquele que medir autoridade com o cínico. Deve-se, neste caso, agir com leveza e galhardia, ceder a cara à tapa, ceder a outra face. Na batalha do cinismo, para sagrar-se campeão, sê aquele de alma tola, que entrega-se à pacóvia e à toleima, desviando os olhares mórbidos da plateia de abutres adestrados, os “zeladores dos costumes”, sedentos por migalhas imorais de um moralismo tardio. Na iminência do conflito, dever-se-á baixar a voz à afonia, não tentar ganhar no grito. Às vezes – isso já foi dito por Leandro Konder – é muito difícil pegar o cínico em sua fala, em seu discurso, pois como não acredita no que diz, o cínico pode dizer qualquer coisa. Não será a última palavra dada pelo cínico.

VERBETE PARA O CÍNICO, pelo viés do colaborador Adriano Joca Ramiro*

*Adriano é poeta e funcionário público.

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  • Edvaldo Pastrúcio

    Isso parece até literatura putanheirista.

  • Ramon Camacho Iturriaga

    Sin duda alguna que se trata de un típico exemplar de la literatura putañerista!

    Viva la Revolución Cubana!

  • Martha Medeiros

    Não gosto nem um pouco desse tipo de literatura grosseira e despudorada.

    • Fabrício Carpinejar

      Mas é muito melhor do que as baboseiras que você escreve.

      • Nicholas Behr

        kkkkkkk!!!

        • Carlos Drummond de Andrade

          Estou contigo, meu caro Adriano. Eu sei o que é ser funcionário público e poeta!