A HORA MAIS ESCURA

Uma crítica (com spoilers) sobre o filme “A hora mais escura”.

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Os primeiros minutos de “A Hora Mais Escura” (Zero Dark Thirty) dão a impressão de que o filme busca ser objetivo, mostrando a realidade crua da perseguição ao líder da Al Qaeda. Informações obtidas através de longas e cruéis torturas, apresentadas nos mínimos detalhes, parecem (eu disse: parecem!) dar respaldo aos críticos desses bárbaros procedimentos. O filme escancara essas cenas com a clara intenção de nos fazer, em um primeiro momento, sentir pena e compaixão dos torturados (o que não é muito difícil).

Quando você começa a achar que assiste a uma visão crítica da ação norte-americana, o filme desmorona.

A trama passa a apelar para estratégias rasas de sentimentalismo para justificar as brutalidades recém apresentadas – e, principalmente, para preparar o espectador para o massacre covarde do ato final.

A personagem Maya, protagonista do filme, é uma agente da CIA no Afeganistão que investiga o paradeiro de Osama Bin Laden. Durante seu trabalho, ela escapa por muito pouco de dois ataques terroristas. Em um terceiro atentado, ela perde a colega de trabalho com quem começava a construir laços de amizade.

A partir desse ponto, a caça a Bin Laden passa a ser apresentada como uma jornada particular da protagonista. O espectador é levado a se identificar com a dor de Maya, e até se esquece que as informações com que ela trabalha foram obtidas através de torturas. Torturas que, nesse ponto do filme, parecem soar como um “mal necessário” – e é interessante como a “nova política” que em certo momento proíbe esse procedimento (implantada pelo presidente Barack Obama) é apresentada como um empecilho aos trabalhos investigativos.

Então, o filme chega ao ato final: a madrugada em que um esquadrão de elite munido da mais alta tecnologia invade uma mansão para eliminar o líder da Al Qaeda. A possibilidade de capturá-lo sequer é cogitada; o objetivo da missão sempre foi o assassínio.

Durante longos minutos, o espectador assiste ao massacre promovido pelos soldados norte-americanos. Eles atiram em tudo o que se move no escuro, poupando apenas crianças e (algumas) mulheres. Em pouco tempo, o barulho de explosões e tiros se mistura com o choro coletivo de filhos e filhas que testemunharam a morte de seus pais.

A matança acaba quando Osama Bin Laden é alvejado no último andar da mansão. Um senhor de certa idade, em seu quarto, desarmado e sem oferecer qualquer resistência.

Após as repercussões imediatas da missão, as cortinas do filme se fecham com Maya chorando – não as lágrimas de uma vitória difícil, mas de uma vingança consumada.


OBSERVAÇÃO
Antes que digam que estou “defendendo terrorista”, quero deixar duas coisas muito claras:

1. Não posso aceitar que a guerra justifique atos desumanos e bárbaros, tais como a tortura e o assassínio. Na minha visão, os Estados Unidos combateram o terror fazendo terrorismo.

2. Os atentados terroristas covardes arquitetados por Bin Laden, como o 11 de setembro, não justificam uma ação covarde para matá-lo. A justiça do “olho por olho e dente por dente” está ultrapassada há quase 4 mil anos (Código de Hamurabi). Eu não me surpreenderia se a ação norte-americana despertasse ainda mais ódio dos extremistas muçulmanos contra a cultura ocidental.

A HORA MAIS ESCURA, pelo viés de Daniel Ito Isaia*

*Daniel é jornalista.

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