“PAGANDO POR SEXO” E A HIPOCRISIA NOSSA DE CADA DIA: O PECADO ESTÁ NO LUCRO?

Uma resenha sobre o livro em quadrinhos “Pagando por sexo”, pelo viés de Monique Prada.

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Chester Brown, o quadrinista. (imagem da web)

Chester Brown é, em certo sentido, um cara corajoso. Ele usa seus quadrinhos, bastante expressivos na sua “não emoção”, para esboçar uma tese bem interessante na racionalização da malaise masculina na virada para o século XXI: o mito do “amor romântico” é um mal que deve ser extirpado das aspirações humanas na sociedade contemporânea. Tese que ele defende, ao longo dos quadrinhos que ilustram seu livro, com muita convicção – ardorosamente, até, mas sobretudo, racionalmente. Como demonstração, ele utiliza sua opção de buscar o que não tem mais – sexo – com prostitutas, entre março de 1999 e dezembro de 2003, em Toronto.

“Pagando por sexo” é um livro interessante, a começar pela apresentação – quadrinhos tornam qualquer assunto mais palatável. Confesso que meu primeiro impulso foi o de desconstruir um a um os argumentos apresentados pelo autor em defesa de sua opção. A começar pela chamada: “O amor romântico? Não existe. Pagar por sexo é melhor.” Perfeito – mas talvez seja a hora de contar isso aos maiores interessados: às prostitutas, seus amantes, maridos, e mesmo patrocinadores eventuais que acabam por se tornar fixos e fiéis. Coisa, aliás, que acontece com ele mesmo, ao final – chegaremos lá…

No desenrolar da trama, conhecemos um Chester meticuloso em seu planejamento e em suas justificativas. Após uma conversa (surreal para nossos padrões – e só isso já recomendaria o livro para nossos emocionais casais brasileiros) em que sua namorada “pede permissão” para ficar com outro, ele – que segue morando com a moça, agora em uma relação de amizade – decide não mais se envolver. Considera que o “desgaste” de conseguir e conviver com uma nova namorada não compensa a satisfação. Confrontado com a necessidade e desejo de transar de quando em vez, e a total falta de vontade de iniciar um novo relacionamento, Chester acaba se decidindo por pagar… por sexo! Um modo fácil e racional de economizar emoções.

Entretanto, Chester é neófito na temática. Passa por todas as dúvidas de um iniciante, como se tivesse vinte anos ao invés dos quase quarenta que já o alcançaram.. aceita todas as desculpas mais clássicas de nossas heroínas, nunca pondo em dúvida a sinceridade delas… Não por acaso, uma das moças diz que ele foi muito bem “recomendado” por sua amiga (no jargão do meretrício, a definição mais apropriada para “bem recomendado” traduz-se pelo desejável trio de qualidades: “tem pau pequeno, goza rápido e paga direitinho”…).

Enfim.. Chester é um canadense que acredita, sobretudo, na sinceridade como a virtude humana suprema. É filho da lógica “fumei mas não traguei” que impregna aquelas paragens. Assim, ele quer sempre justificar e proteger as moças que o satisfazem frente à argumentação preconceituosa de seus amigos (sim, ele apregoa aos quatro ventos sua opção pelo sexo pago – o que, a meu ver, justifica o adjetivo que empreguei no começo: corajoso. Assumir essa opção para amigos não adeptos da prática gera, não raro, estranheza e indignação..). No entanto, quando confrontado às questões “espinhosas” (como, por exemplo, se não estaria ele contribuindo para o enriquecimento de cafetões), sua resposta se resume a um tímido “espero que não” – embora as evidências apresentadas mostrem que nenhuma daquelas moças atua sozinha, sendo muitas, mesmo, imigrantes, provavelmente ilegais.

Com a continuidade dos encontros, Chester vai ganhando “cancha” – o que ocorre sobretudo a partir do conhecimento de um site que dá notas às prostitutas de Toronto (similar aos nossos fóruns que, ainda que não sejam totalmente confiáveis, ainda assim, são um bom canal para a troca de informações sobre o assunto. Nos primeiros anos de existência, era comum ver foristas referindo-se ao GpGuiA – que teve sua festa de 10 anos em agosto último – de PROCON do putanheiro, e devo eu mesma admitir que houve um tempo em que cumpriu bem este papel, muito embora hoje – infestado de tds “falsos”, em muitos casos “plantados” por agentes e mesmo pelas próprias acompanhantes, e, ao menos aqui no Sul, pautado por um sem número de regras bobas, mutáveis ao sabor do humor do administrador – seja apenas uma desbotada sombra do modelo revolucionário que já representou um dia).

Conforme adquire mais experiência, Chester percebe-se emocionalmente abalado após os programas, sobretudo ao repetir encontros com a mesma garota, e tem dificuldades para entender o que está acontecendo. Até que ele acaba por rever seu conceito, e o adapta para algo mais palatável e menos discutível. O problema não é mais o “amor romântico” mas sim a monogamia forçada a ele associado.

Quem espera transas mirabolantes nos quadrinhos do livro não encontrará. Os encontros de Chester são descritos com recato – até para evitar a identificação das moças – mostrando simplesmente aquilo que muitas vezes ocorre entre cliente e acompanhante. Ao contrário do que talvez espere quem não “vive” no meio, Chester tem o comportamento padrão do patrocinador de meretrizes “de sites”: longe de ser um sociopata solitário, agressivo e amargo, Chester é gentil e educado. Busca nos encontros apenas alguma satisfação e não vê problemas em pagar por isso – como pagaria por um corte de cabelo ou uma sessão de psicoterapia. Usa os encontros apenas como um meio de conseguir satisfação economizando sentimentos e emoções.. Comportamento bastante usual nos dias atuais. Como se sexo fosse, realmente e apenas, uma necessidade fisiológica, básica. É assim que Chester o vê e, sob este aspecto, é cauteloso: racionaliza a questão, mede consequências, calcula gastos, jamais cede a impulsos.. tudo o que ele quer é prazer, e o busca nos tediosos encontros de curta duração com prostitutas. Orgasmos sintéticos, gemidos sincronizados e o “vazio” que o acomete quando essas relações tornam-se rotina. Contraditório, pra quem quer fugir do que chama de “amor romântico”, não? Ao menos quando essa fuga se dá por conta da rotina inevitável das relações duradouras… Ou não? A rotina é mesmo menos assassina quando se muda apenas os personagens?

Fugindo um pouco do assunto, há um ponto que gostaria de ressaltar a respeito de Chester: seu comportamento (embora, muito provavelmente, ele mesmo nunca venha a se dar conta disso, talvez mesmo por falta de interesse), essa pseudo-promiscuidade, esse “entregar-se” a prazeres proibidos e mundanos, atrai o interesse de muitas “civis”.. Loucas para preencher o vazio existencial imenso que assola a alma desse pobre rapaz carente, esmeram-se em produções sensuais, devoram 50 tons de qualquer cor que lhe caia nas mãos e vão à luta. Desastroso erro de avaliação… Dificilmente um homem que habitualmente recorre aos serviços de meretrizes deixa de fazê-lo apenas por ter assumido um relacionamento. Além do mais, homens que saem com meretrizes não são necessariamente carentes, nem há garantia de sofrerem desse vazio existencial imenso do qual nos falam as pessoas que optam por ter uma vida sexual “convencional” – com romance, diria eu. Ah, o vazio…

Ao final, há uma discussão mais séria sobre temas envolvendo questões morais e legais quanto à prostituição. Comentarei algumas das questões levantadas pelo autor com base em minha experiência pessoal:

1. A prostituição é apenas uma forma de namoro e, no futuro, as pessoas encararão com naturalidade tanto pagar quanto cobrar por sexo – Bom, eu vejo, sim, os encontros como “uma forma de namoro” com hora marcada e duração pré-determinada.. Mas discordo que haja a possibilidade de, algum dia, ser visto como “normal” o pagar ou receber por sexo. Num mundo perfeito, isso talvez fosse o ideal – mas minha experiência pessoal leva-me a duvidar dessa possibilidade. Pagar por sexo já é, nas “internas”, relativamente bem aceito. Receber por sexo, isso sim, é tido como comportamento passível de condenação. Senão, vejamos: enquanto “civil”, convivi com muitas mulheres que tinham, secretamente, uma vida sexual tão ou mais libertina quanto a que passei a ter enquanto acompanhante. Pois muitas dessas modernas e descoladas moças adotaram uma posição ridiculamente hipócrita e cínica quando decidi passar a atuar como acompanhante. Não questionaram meus motivos, não me deram chance, nada me perguntaram. A condenaçäo veio quase que imediatamente: as queridas amigas “civis” que antes me confessavam seus casos extra-conjugais, que freqüentavam festas estilo “clube de mulheres”, despedidas de solteira nada inocentes, eram habituès de casas de swing (gosto e prática que compartilhávamos), pediam-me indicação sobre prostitutas que não raro contratavam para “presentear” o parceiro em ocasiões especiais – repudiaram minha decisão, excluindo-me do grupo e, através de fofocas, prejudicaram-me intencionalmente em minha vida pessoal. Vejam: a única mudança é que passei a.. cobrar por sexo! “Mudei” de lado, passei a ser imoral, condenável.. Seria o lucro meu grande pecado?

2. Prostituição masculina: se um homem decide ser profissional do sexo, a sociedade aceita melhor este fato, já que homens são “donos” de sua sexualidade – Discordo. Vejo que a condenação ao garoto de programa é ainda mais dura que às garotas: ele é um homem em condição de inferioridade, pois se SUBMETE (??) a fazer sexo em troca de dinheiro. Passa a estar em posição de inferioridade em relação a quem o paga. A questão aí é puramente financeira…

3. Você é dono do seu corpo! Sim – e decide o que bem fazer com ele, de modo que não há imoralidade real em optar pela prestação de serviços sexuais. Sempre importante lembrar que o que eu “vendo” não é físico – meu corpo. A prostituta “vende” serviços sexuais, vende uma parte do seu tempo. O cliente não determina tudo o que acontece apenas por estar pagando. Tudo acontece, ou DEVERIA ACONTECER, em pleno acordo entre as partes.

4. Prostitutas fazem sexo sem desejo? Eventualmente, sim. Mas há outras circunstâncias que levam mulheres a transar sem desejo – manter o casamento, por exemplo.

5. A questão da escolha… Se uma trabalhadora recebe x por determinado trabalho, e lhe oferecem receber três vezes mais que x em outro trabalho, deve ela recusar? Obviamente, não.. Por que isso ainda soa estranho quando se trata da prostituição? Por que deveríamos dizer “não”, se nos agrada o trabalho e ganhamos bem com ele? Procuro resposta para essa pergunta há tempos, e até hoje não encontro resposta ou motivo concreto que me leve a abandonar a atividade. A não ser pela condenação moral de uma sociedade que nos alimenta, mas não nos quer à mesa…

“PAGANDO POR SEXO” E A HIPOCRISIA NOSSA DE CADA DIA: O PECADO ESTÁ NO LUCRO?, pelo viés de Monique Prada*

*Monique é prostituta e mantém o blogue Monique Prada

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