PARA QUEM ESTOU ESCREVENDO?

Jornalismo não é literatura, portanto é imprescindível a veracidade dos fatos descritos. Mas, isso não impede que a escrita contenha um pouco de subjetividade, sem deixar de ser objetiva. Pelo viés da colaboradora Maiara Marinho.

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Imagem: revista o Viés

Jornalismo não é literatura, portanto é imprescindível a veracidade dos fatos descritos. Mas, isso não impede que a escrita contenha um pouco de subjetividade, sem deixar de ser objetiva. Isto é, discorrer um fato propondo reflexões com uma linguagem que não chateie o leitor. Uma notícia quando contextualizada com criatividade e que não se torne fictícia pode ter continuidade na sociedade. Pois, o que normalmente acontece é um fato se tornar importante em um dia e deixar de ser importante no outro. No jornalismo é difícil tornar uma notícia assunto para mais do que algumas horas já que o tempo não para e a cada instante há uma novidade – e um preço. Basta aos jornalistas selecionar o que pode ser mais importante tornar de conhecimento da população. Mas, para fazer dessa seleção mais do que um relato da realidade e propor uma reflexão acerca daquilo que faz parte do indivíduo é necessário discorrer os fatos de maneira mais agregadora. Um texto contextualizado, explicativo e com informações apuradas tem a chance de ser lido e entendido por diversos tipos de leitores, o que exclui a preocupação dos jornalistas: “para quem estou escrevendo?”.

A principal diferença entre literatura e jornalismo é que na literatura o mais importante é a invenção. A criação de personagens e histórias é o que desprende o escritor da realidade. A principal semelhança é que ambos dependem de uma escrita agradável que faça o leitor ser parte do texto. Não apenas ler e entender, mas refletir a respeito. Sendo assim, a notícia deixa de ser instantânea e propõe reflexões e questionamentos por tornar-se uma ideia fixa como faz a literatura. Com a perduração dos fatos, os leitores passam a ter mais interesse em se informar. Pois, com isso passam a entender melhor a realidade da qual fazem parte.

Para Graciliano Ramos, “a palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso. A palavra foi feita para dizer”. Um texto muito subjetivo pode não dizer algo para quem o lê. Porém, um texto muito objetivo também. Vejamos o caso do mensalão, por exemplo. Os jornalistas rebuscam as palavras. Usam os mesmos termos dos advogados, o que não é uma regra nem uma necessidade, pois há outras formas de argumentar. É importante escrever de maneira inteligível principalmente se tratando de política e de um processo judicial de interesse de todos os brasileiros.

É importante que haja apreciação pelo jornalismo, mas com isso, haja compreensão. O jornalismo é um serviço social, pois é dele que surge o conhecimento e a certeza de que fazemos parte de uma sociedade heterogênea, com diversidade, possibilidades e dificuldades. É através dele que temos a certeza de que existem leis, de como elas estão sendo respeitadas ou não. É através dele que as denúncias se tornam relevantes e, em alguns casos, como o de Watergate e o do Collor, por exemplo, que as pessoas se relacionam diretamente com a política. Conforme citado por OLIVEIRA (2012):

Em artigo publicado em janeiro de 1922, Bruce Lewestein argumentou que a compreensão pública da ciência visava muito mais incutir no público uma ampla apreciação pela ciência por tudo o que ela proporciona à sociedade, do que fazê-lo compreender a ciência. (OLIVEIRA, 2012, p. 24).

A compreensão do que é o jornalismo e a sua participação na sociedade é mais relevante do que simplesmente apreciá-lo. O leitor deve estar consciente de quem tem o papel mais importante na sociedade. Sem o indivíduo e as relações sociais que fazem a economia e a política existirem e se consolidarem o jornalismo não existiria. O tipo de escrita utilizado para falar daquilo em que o leitor está inserido é o que o torna mais próximo do jornalismo.

A questão do tipo de leitor que terá contato com o texto não é a única preocupação, mas o fato que está sendo tratado é importantíssimo, pois para alguns assuntos há mais facilidade em elaborar um texto informativo e contextualizado do que para outros. Sobre economia, por exemplo, onde há uma complexidade muito maior, com as sociedades do mundo interligadas o contexto acaba tendo de ser social além de econômico. Portanto, nesse aspecto a dificuldade em fazer uso da literatura para o leitor se sentir parte do texto é maior.

Os livros-reportagens são obras em que há muito mais complexidade para contextualizar e tornar o texto jornalístico, literário. No entanto, há mais espaço no papel e de tempo para transformar uma notícia em uma história. Mas, os jornalistas não podem se restringir a livros para contar um fato de maneira mais interessante. Devem praticar esse ato no dia a dia ainda que a periodicidade varie de veículo para veículo. Nas revistas os profissionais possuem um tempo maior do que no jornal impresso que a instantaneidade não é uma opção. Ainda assim, os jornalistas não podem pensar que somente com um longo tempo serão capazes de escrever notícias contextualizadas além de informativas. O jornalismo se aprende na prática, assim como é na prática que aprendemos a descrever os fatos. Portanto, provavelmente o único empecilho para isso seja o editor da redação.

PARA QUEM ESTOU ESCREVENDO?, pelo viés da colaboradora Maiara Marinho*

*Estudante de jornalismo na Universidade Federal de Pelotas (UFPel)

Referência

OLIVEIRA, Fabíola de. Jornalismo Científico. São Paulo: Contexto, 2012. p: 24. 

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