Terça-feira de junho, julho ou agosto

Um porto-alegrense metamorfoseou-se em pombo e viu as manifestações de 2013 desde uma marquise. Pelo viés do colunista Calvin Furtado.

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Eu me lembro de ter acordado, e não ter entendido muito bem se era junho, julho ou agosto, se era este ano ou o ano passado. Eu continuava igual, normalmente a gente continua igual por muito tempo, é um comportamento auto-vigilante que nos permite desenvolver similaridades que acabam por funcionar como um freio, um recuo automático que nos mantém sempre coesos com o núcleo social da normalidade, e, por outro, desenvolvemos peculiaridades que nos afirmam enquanto sujeitos em um processo reflexivo de formação da identidade. É uma efervescência auto-regulada e praticamente metamórfica, como num escrito kafkaniano, só que é como se antes de acordarmos barata, a gente bebesse um copo com um fluído parecido com vita-c, aquelas bolinhas todas, antes de dormir. Talvez eu realmente tenha refletido sobre tudo isso por ter acordado meio barata nesse fatídico dia de junho, julho ou agosto. Senti o peso da modernidade em uma manhã de uma terça-feira qualquer deste ano ou do ano passado. Essas coisas não tem data para acontecer.

De repente eu me vi de cima, como se eu fosse um pombo desses de praça, sentado no alto de uma marquise do centro de Porto Alegre, eu já estava ali há algum tempo parado, e só então percebi que eu também estava lá embaixo caminhando com meu corpo e que precisava cortar o cabelo e então, de repente, eu já não era mais um pombo e era eu de novo, só que agora de cabelo cortado e com a certeza que ninguém me via, ou por não olhar pra cima, ou por eu não estar ali de fato e sim caminhando lá embaixo. Era o meu eu ideal, sentado no alto de uma marquise de um dos prédio do centro de Porto Alegre, analisando o comportamento do meu eu real. E era no ano passado. Eu me lembro de ter tido a precaução de olhar para o relógio que fica piscando o dia, horário e algum recado. Esses relógios da Kopp que tem em todas as cidades do interior, mas era a capital e eu não sei de fato se existe ou não um relógio desses no centro de Porto Alegre. Mas isso pouco importava, haja visto que eu permanecia me olhando de cima durante um dia no ano passado, eu já não tinha mais corpo e ia me deslocando de cima acompanhando meu corpo no meio da multidão que se deslocava para a mesma direção. Eu era uma imensa imagem aérea, vigilante, com recurso de zoom para qualquer pessoa da multidão que eu quisesse, onipresente, como o google images.

Lá de cima dava pra ouvir um monte de cânticos, uma massa altamente heterogênea cambaleante pelas ruas do centro de Porto Alegre, descendo agora pelo viaduto da Borges, pipocos, pauladas, pedradas nas vidraças das agência bancárias e concessionárias e Mc Donalds, pixo político nas fachadas, vidraças de prédios públicos e paradas de ônibus. Correria, sirenes de polícia, alguns viravam as lixeiras ao passo que outros recolhiam o lixo, uns pediam mais amor, outros menos violência, outros abanavam pro helicóptero que não se sabia se era de polícia ou da TV, muita gente armada com seus smartphones abastecendo as redes sociais e a polícia toda que tava na rua não estava identificada. Meu corpo continuava com a massa, eram muitos jovens, uma geração inteira desfilando pelas bandas do largo Zumbi dos Palmares na cidade baixa enquanto as outras gerações assistiam em tempo real com reportagem e comentários na TV Com. Eram muitos os movimentos sociais representados, desde a parte da esquerda mais organizada e com pautas mais definidas, os anarquistas mascarados – nossa, era mesmo no ano passado, reconheci a voz do Lasier – e os blackblocs, galera das universidades federais e particulares, até a galera mais cara pintada, mais a direita, entoando o hino do riogrande. Eu tava me vendo lá de cima, no meio da multidão – que de certa forma era eu por inteiro – todos os moradores da avenida João Pessoa estavam na janela quando passamos, a esta altura ninguém mais tinha controle da situação, nem a polícia, nem a mídia e muito menos a multidão, que caminhava e cantava justamente por ruptura do controle. Vi fogo numa agência do Banrisul, dei um zoom e vi um amigo meu, sem máscara nem nada, com um pedaço de pau na mão quebrando um caixa eletrônico – caramba, tudo isso aconteceu de verdade, pensei cá comigo lá de cima. Era muito pixo, muita paulada e pedrada e agora, no entroncamento das avenidas Ipiranga com Azenha, era muito bomba, muita bala de borracha, muita fumaça, muita gente gritando, um corre-corre frenético. A multidão avançava bem, a polícia resolveu agir para recuperar o controle, lá de cima eu saquei que o protesto queria chegar na frente da Zero Hora, mas não teve como. A polícia tava organizada, o combate começou ali e eles foram indo pra cima tiro, porrada e bomba, a multidão recuava, voltada a ter fôlego com oxigênio, os olhos escaldantes e as vias respiratórias marejadas de gás lacrimogênio, o vinagre passando de mão em mão, muitos tentavam voltar e fazer frente, nem que fosse para se ajoelhar na frente do choque com as mãos para cima e correr depois, todos acabaram por recuar, a polícia conseguira recuperar o território e ninguém chegou nem perto da Zero Hora, tampouco do Palácio Piratini, no contra-fluxo da noite. A cidade ficou um caos em questão de horas. Não podendo acessar o prédio da Zero Hora nem o Palácio Piratini, alguns voltaram à frente da Prefeitura, mas a esta altura ninguém era de ninguém nas ruas do centro e o estado era completamente de exceção. Umas trinta mil pessoas que estavam pelas ruas foi para casa como gado vai pro curral no fim do dia. Eu também tinha ido, e agora estava fazendo a mesma coisa que as outras gerações estavam fazendo, assistindo a TV Com.

Que manhã mais louca, era uma terça-feira realmente qualquer de junho, julho ou agosto deste ano ou do anterior. Acordei com essa carga nostálgica, uma sensação de complacência misturada a incerteza se o tempo que eu vivia era presente, passado ou futuro. Me ative aos fatos. Era interessante a ideia de ser um pombo, mas continuava humano. Que peso eu carregava. Me senti aflito, impotente e impessoal, incapaz de agir, de fazer alguma coisa por mim ou pelos demais. O que de fato eu estava fazendo? Que dia era hoje mesmo? Gol do Brasil! Gol da Alemanha! Muitos gols da Alemanha! Minha cabeça, o que está acontecendo!? Que horas são!? Eu preciso trabalhar! Não! Estou sem um emprego! Tenho que pagar as contas! Tenho que pagar as contas! Tenho que pagar as contas! Eu fumo ainda? Me da um cigarro! Jesus, estava a delirar sozinho, que manhã de terça-feira era essa, seria realmente terça-feira? Eu não sabia de nada. Estava lá em cima ainda, no alto daquela marquise no centro de Porto Alegre no ano passado, e ao mesmo tempo aqui, agora. Aquele caos todo de devaneio parecia estar só dentro de mim, que a esta altura era praticamente um vulcão prestes em entrar em erupção, enquanto todas as outras pessoas estavam calmas, pacientes, sensatas. Na verdade, eu também estava calmo, paciente e sensato, com gestos e atos mecânicos, todos os dias, de segunda à sexta-feira, oito horas por dia, feijão com arroz, a semana continuava tendo sete dias na semana. Sete dias. Sete a um. Sete contra um. Era como se o sol escaldante torrasse cada centímetro de poeira de uma estrada de terra, uma frota de ônibus passasse por ali num dia de verão e levantasse essa poeira na altura das nuvens, aí viesse uma garoa, fina, tranquila e abaixasse tudo aquilo de novo pro chão, e a gente caminhasse por cima daquela terra fofa, fértil, no meio do campo espraiado sem cercas de propriedade. Mas as cercas de propriedade continuavam ali, agora com placas de publicidade estampando caricaturas de políticos, politiqueiros e politicáveis que sempre estiveram ali o tempo inteiro. O Palácio Piratini como o destino final de tudo, a sede da Zero Hora com a mesma influência e poder de controle, a mesma quizomba de castelo rá-tim-bum acontecendo, inédita, histórica, desiniba eleição passados 50 anos. A sétima eleição na nova democracia. Sétima.

Seria a morte uma sensação parecida com essa? Uma vida que a gente vai abandonando ao longo do caminho, para se manter o mais próximos possíveis da linha reta ordinária da normalidade. Este estado letárgico que descrevi, talvez seja realmente uma sensação fiel ao desapego da existência. Talvez a morte se vista de linda mulher e suba na marquise para dizer, “rapaz, está na hora”, e a partir desse código a gente desça e pegue um metrô – um passeio subterrâneo para nunca mais voltar – e a para sempre ou por um tempo eu me veja de cima, como na situação que descrevi, até vagar pelas alturas de cabelo cortado. De lá para cá, alguns valores rapidamente se inverteram: as paradas de ônibus carregadas com a história da força das ruas receberam um banho de tinta amarela, a multidão que caminhava nas ruas hoje bate de porta em porta, muito dinheiro rolando, muita gente feliz. O protagonismo de nossas vidas parece funcionar em rede e ter reações em cadeia com outros vultos, bustos e líderes. Não servimos para ser escravos de ninguém que não o tempo, tampouco somos senhores de nosso caminho tal como é o tempo. Tempo, tempo, tempo. Tudo isso deve ter durado uns quarenta minutos, eu acordara de ressaca e assistia ao horário eleitoral. E aí eu pulei do sofá através da janela batendo os braços para ter certeza que eu não voava, que não era um pombo, que continuava sendo um sujeito normal. Quebrei a perna.

 

Terça-feira de junho, julho ou agosto, pelo viés do colunista Calvin Furtado

 

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