FELIZ DIA DOS NAMORADOS

12 de junho de 2010. Dia frio, com céu azul. Dois amigos encontram-se na rua. ELE 1 – E aí, cara!? Tudo na boa? ELE 2 – Tudo, e contigo? ELE 1 – Indo, como sempre. ELE 2 – Tá indo pra esse lado? ELE 1 – Tô, sim. ELE 2 – Ah, então vamos […]

A+ A-

12 de junho de 2010. Dia frio, com céu azul. Dois amigos encontram-se na rua.

ELE 1 – E aí, cara!? Tudo na boa?

ELE 2 – Tudo, e contigo?

ELE 1 – Indo, como sempre.

ELE 2 – Tá indo pra esse lado?

ELE 1 – Tô, sim.

ELE 2 – Ah, então vamos juntos. Já faz umas duas semanas que eu não te via.

ELE 1 – Pois é. Não tenho saído muito. Sabe como é… depois que o cara começa a namorar sério, acaba perdendo a vontade de sair de noite. A gente acaba nem vendo quanta coisa a gente ta perdendo, né!?

ELE 2 – (risos) Verdade. Falando nisso, como vai a tua namorada?

ELE 1 – Vai bem. Tô indo me encontrar com ela. Sabe como é… Dia dos Namorados, dia de passar juntinhos. Nós vamos ver se conseguimos achar algum restaurantezinho pra comer. Mas hoje vai ser brabo. Tem desconto pra casais, todo mundo vai.

ELE 2 – Sei, sim. Vou procurar um restaurante, também. Tô sem nada pra comer em casa, aí convidei minha irmã pra ir comigo, pra conseguirmos um desconto. (risos) Mas vou um pouco mais tarde.

ELE 1 – Ué! Mas tu não tava namorando, também?

ELE 2 – Tava. Até anteontem.

ELE 1 – Brigaram?

ELE 2 – Não. Eu arrumei uma desculpa. Não tô com grana pra gastar com presente e essas coisas. Aí, assim que passar uma semana, por aí, peço pra voltar, com o rabinho entre as pernas, e ela me aceita. Mas coitada, ficou tão triste.

ELE 1 – (risos) Cara, você é uma figura!

Na mesma rua, alguns quarteirões abaixo, duas amigas caminham juntas.

ELA 1 – Tomara que ele não tenha comprado nada pra mim!

ELA 2 – Você não comprou nadinha pra ele? Nem uma caixa de bombom?

ELA 1 – Nada! Ah, ano passado saí num prejuízo desgraçado. Comprei um relógio pro meu ex e o desgraçado não me deu nem uma rosa murcha. Se bem que uma rosa murcha seria a cara dele.

ELA 2 – Como assim?

ELA 1 – Besteira. Bem, aí resolvi não comprar nada, nesse ano.

ELA 2 – É arriscado. Eu, graças a Deus, não precisei gastar.

ELA 1 – Acabou o namoro?

ELA 2 – Sim, eu acabei. Arrumei uma desculpa qualquer. Você sabe que a melhor festa do ano é a dos Solteiros, no Dia dos Namorados. Não podia perder essa festa por nada. Aí aproveito bastante, sem peso na consciência, e depois de um tempo eu volto. Ele ficou tão triste, o coitado, mas…

ELE 1 – Acho que o Dia dos Namorados é o dia do ano em que mais dá para notar as diferenças de humor na rua. Olha bem pra cara de cada um que passar por nós. Parece que tem umas pessoas que estão com um “SOLTEIRO” bem grande, escrito na testa!

ELE 2 – É, mas estar solteiro no Dia dos Namorados é foda, cara. Nem o Google deixa esquecer a data. Tá lá na capa, aquele buquê de flores, e tudo. Falando nisso, comprou alguma coisa pra ela?

ELE 1 – Uma caixa de bombom. Cara! Como tudo é caro! Fui ver o preço de um buquê com 10 rosas. OITENTA E CINCO REAIS! Absurdo! Pensei até em roubar umas rosas do jardim da casa da vizinha da minha vó. Ontem fui lá e dei uma olhada. Mas a velha só tinha uma roseira com quatro rosas. E eu não ia saber fazer o buquê, e tal, aí desisti.

ELE 2 – É. Dia dos Namorados é uma data cara. Por isso parei de namorar uns dias antes. Se eu pudesse, ia até deixar de ter família uns dias antes do Natal, também, pra poupar o dinheiro dos presentes. (risos)

ELE 1 – Mas você é pão-duro, hein!?

ELE 2 – Não é isso! É que nem faz sentido comemorar uma data por causa de um santo que nem existe.

ELE 1 – O tal do San Valentín?

ELE 2 – É.

ELE 1 – Você não é religioso, cara? Você não acredita?

ELE 2 – Não sou eu que não acredito! Nem a própria Igreja acredita! Eu tava lendo em alguma revista que a Igreja tirou o tal San Velentin da lista de mártires porque não existiam provas da sua existência.

ELE 1 – É, mesmo? Então é tudo uma lenda?

ELE 2 – É, por aí. Mas a história que contam é bonitinha, até.

ELE 1 – Não conheço.

ELE 2 – Ah, dizem que ele era um sacerdote da Roma Antiga, da época de um tal imperador Cláudio II, ou algo assim. Aí o império entrou em guerra e o imperador proibiu todos os jovens de casar, pois acreditavam que eles eram melhores guerreiros se não “desperdiçassem” tempo com mulheres

ELE 1 – (risos) Imperador filho da puta, hein!? Tinha que fazer como o Dunga, que liberou o sexo nas folgas!

ELE 2 – (risos) “Mas nem todo mundo gosta de sexo, vinho e sorvete”

ELE 1 – (risos) Isso!

ELE 2 – Mas continuando. Aí o tal San Valentín foi contra o imperador e começou a realizar casamentos escondido. Só que foi descoberto, preso e se apaixonou pela filha cega do carcereiro. E aí a tal voltou a enxergar, do nada.

ELE 1 – Ué! O amor não era cego?

ELE 2 – Não mais. (risos) Aí ele foi morto e virou mártir da Igreja. Só que parece que em 69 a própria Igreja tirou ele da lista de mártires porque não tinha provas da existência dele. Ou então porque parece que na verdade eles eram três. Um que realizava casamentos, um que fez a cega voltar a enxergar e outro que foi morto. Enfim, uma bagunça.

ELE 1 – Então não faz sentido a Igreja ter aceitado ele, no início.

ELE 2 – Faz, sim. Tinha uma festa pagã que comemorava o início da primavera no hemisfério norte, que reverenciava um deus que era metade homem, metade lobo.  Um fauno. Lupercus, se não me engano. Aí a Igreja quis se apropriar dessa festa e colocou a data de San Valentín no dia, pra transformar em uma comemoração católica.

ELE 1 – Hun, interessante. Cara, como você sabe tudo isso?

ELE 2 – Vi no jornal, hoje de manhã.

ELA 1 – Ah, mas Dia dos Namorados é uma data totalmente comercial.

ELA 2 – Claro! É a terceira melhor data para o comércio!

ELA 1 – Perde pro Natal e… Páscoa?

ELA 2 – Não, Dia das Mães. É Natal, Dia das Mães e Dia dos Namorados, nessa ordem.

ELA 1 –Ah, claro. Pros restaurantes que é ótimo. Dia das Mães é o dia dos almoços e hoje dos jantares! Eu e o meu namorado resolvemos almoçar juntos num restaurante, hoje, porque jantar é praticamente impossível.

ELA 2 – Aham, claro. É engraçado como essa data mexe com a cabeça das pessoas, né!? Eu me lembro que quando foi Dia dos Namorados nos EUA, saiu uma notícia dizendo que por lá, cerca de 15% das mulheres solteiras mandavam flores para si mesmas, no dia. Que loucura, né!?

ELA 1 – Nossa, qual é a graça disso?

ELA 2 – Não faço idéia.

ELA 1 – Nos EUA eles não comemoram o Dia dos Namorados no mesmo dia da gente?

ELA 2 – Não, não. Lá se comemora no dia 14 de fevereiro, acho. Início da primavera e início da época de acasalamento das aves.

ELA 1 – Dia do piu-piu arrumar uma parceira. (risos)

ELA 2 – Pois é. (risos) Aqui a gente comemora no dia 12 de junho porque é véspera do dia de Santo Antônio, o Santo Casamenteiro.

ELA 1 – É. Aqui a gente namora num dia e no outro reza pra casar. (risos)

ELA 2 – Isso (risos). Pra ti ver como você tem razão a respeito de como a data é comercial, quem trouxe essa data para o Brasil foi um publicitário. João Dória.

ELA 1 – O que apresenta “O Aprendiz”, na Record?

ELA 2 – Não, não. Esse é o João Dória Júnior. O que trouxe a data pra cá foi o pai dele, que viu o sucesso comercial que o Dia de San Valentín tinha nos EUA.

ELA 1 – Boa estratégia publicitária.

ELA 2 – Sim, sim.

Os dois casais se encontram. ELE 1 e ELA 1 se abraçam e se beijam. ELE 2 e ELA 2 ficam apenas se olhando, com um meio sorriso.

Depois de alguns uma rápida conversa banal, em que ELE 2 e ELA 2 não trocam nenhuma palavra entre si, ELE 1 e ELA 1 saem, de mãos dadas, em direção a um restaurante.

ELA 2 vira-se para ir embora, sem nem se despedir de ELE 2.

ELE 2 – Ei, vai fazer alguma coisa, hoje?

ELA 2 – Sim, vou na Festa dos Solteiros.

ELE 2 – Ah. (encabulado). Ok, então. Também estava pensando em ir, afinal também estou solteiro, não é!?

ELA 2 – Os dois estamos, não? (séria)

ELE 2 – É, estamos. (pausa) Bem, se os dois estamos solteiros podemos ir na Festa dos Solteiros, não!?

ELA 2 – Claro.

ELE 2 – Juntos?

ELA 2 – Hãn!?

ELE 2 – Quer ir comigo?

ELA 2 – Mas não faz nem três dias que acabamos o namoro! Não faz sentido.

ELE 2 – Claro que faz. Somos dois solteiros indo na Festa dos Solteiros. Total sentido.

ELA 2 – Juntos?

ELE 2 – Juntos!

ELA 2 – Tá, pode ser. Passa lá em casa antes das 11.

ELE 2 – OK.

Os dois se despedem, encabulados.

Ele caminha um quarteirão e entra em uma floricultura. Minutos depois, sai com um buquê nas mãos.

ELE 2 – Que oitenta e cinco reais, que nada! Noventa e cinco! Merda.

FELIZ DIA DOS NAMORADOS, pelo viés de Felipe Severo

felipesevero@revistaovies.com

Para ler mais contos acesse nosso Acervo.

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Print this pageEmail this to someone
  • Helem

    Muito bom o texto, lembra uma crônica inteligente do Fernando Sabino. Muita informação de forma prática e um humor despreocupado, quase como se não estivesse interessado no mesmo. Enfim, ótimo.