AELIA LAELIA CRISPIS

“…O ser que flutua

Entre todas as coisas

Não é homem

Nem é mulher”

(Speaking of Siva, traduzido por A.K. Ramanujan)

Aelia Laelia Crispis

Solar, lunar, terrena, você veio me dizer como Ser tudo.

A dualidade me arranhou como arranhou a você. A dualidade arranha todas as coisas e não sangra. Eu vivo imersa na situação de dois estados, o mundo vive imerso no dia e na noite e quando entardece ou amanhece quando morre para nascer e nasce para morrer e um passo a frente pra cair e um para trás pra salvar; o desejo de manter-se entre as coisas é perturbador para a definição, mas não é estar fora, é estar mais dentro ainda, dos dois lados, ser um e outro e, que tédio, não causar fervor sim muita discussão sem eira e muito silêncio sem beira. Quando você veio, eu senti, pelos seus olhos, que me procurava há muitos sonhos, muitos espaços-tempos. Eu estava esperando em uma festa, então. Por ali que andava. Naquela palidez escura do sono, de imagens esquecidas, foi tão forte quando acenderam as luzes e te colocaram, te puxando pelo braço e você bem estranho naquele meio de tempo, de demarcação, de época, de tudo que constitui uma cara, porque você sempre está interessada no que não tem tempo e nem espaço, naquilo que perdura e diz que somos iguais, mas somos diferentes. Que estranho, mas eu também esperava, copo de bebida na mão, conversas pouco concentradas, muitas, muitas pessoas se movendo, dançando e rindo e você entrou em uma fotografia, eu estava numa fotografia. Tenho certeza, aquela casa, aquela grande casa era a casa que eu criei depois de ver apenas uma janela de fotografia, eu estava lá e provavelmente ela era mesmo desse jeito, grande, cheia de pessoas e você entrando. Tinha alguém contigo, era homem, a única certeza que sobrou daquele momento, porque não era noite ou dia não era nada, era um momento. A., A., gritaram… ela te procura, veja bem, você vinha puxada pelo braço de alguém muito próximo e isso dizia que havia sido encontrada pela pessoa certa. O espanto, você de rosto de mulher e uma longa barba que ia de uma orelha a outra apenas desenhando a parte inferior do rosto, você, mas… você usava um pênis ornamentado! Longo, deveria ter uns 50 centímetros, que engraçado, fino, trançado de fitas pretas e outras três cores: azul, verde e vermelho, porque não amarelo? e então faria o que quisesse com elas e seria lunar e solar e terrena e disso faria qualquer coisa também. Eu a reconheci de outros tempos, estranhos, um frescor no peito, um alívio, uma compatibilidade máxima, um suspiro de último filho a ser buscado no colégio! Mas eu estranhei porque minha alma reconheceu e eu fiquei ali, babaca, boquiaberta tentando me lembrar do que a mente humana jamais lembra e tentando conciliar que minha alma vinha da minha mente porque eu não acreditava nessa situação de almas vivas depois da morte, reencarnação, e eu acreditava apenas que existiam sensações mais fortes que qualquer razão sem me preocupar com a veracidade disso, então era isso: uma sensação maior que eu. Você tinha olhos calmos e grandes, puxados, você era oriental? Eu não sei, cada vez você ficava mais “oriental?” e então: vamos conversar em um quarto. Fomos nós três, eu, você e aquele cara tão tranquilo que parecia te proteger e sorria apenas para mim, mas nada dizia, um acompanhante de viagem, eu não sei, ele tinha a mesma barba, vocês eram iguais, mas você era andrógina. Entramos, sentamos frente a frente e, então me disseram que cuidariam da porta, pois muitos queriam te ver e te fotografar e eu já tinha visto em outros filmes e você riu e disse que sim, realmente, era aquilo. Você disse que queria conversar comigo porque tinha descoberto que eu era uma alma daquelas que eram aquelas almas, olha… eu conheci D. e ela, ela tirava fotografias de mim  e eu nunca olhei pra ela mas ela me olhava muito e me procurava muito mais que eu… pensei que fosse qualquer criatura falando então pela tua boca humanonírica. Sim, sei quem é D., você queria me dizer que a única maneira de chegar até mim era unindo tudo que eu tinha visto e ouvido para que eu compreendesse em completude o que devia ser dito: não, não se deixe enganar pela banalidade do assunto. Sim, eu começava a compreender e nós duas nos abraçávamos demais, demais e no intervalo de cada abraço suas barbas se reduziam como quem não precisa mais fugir por detrás delas e teu pênis ornamentado desaparecia como quem não precisava mais dele para envocar a dualidade, pronto. E você disse que tinha o que me dizer, mas não dizia, não dizia! Por quê? Rápido… e a porta abriu e meu amigo pedia desculpas e muitas pessoas pulavam e queriam fotos e queriam saber quem era, ou melhor, o que era? E agora, desapareçam e quando a porta fechou uma televisão desligou-se no quarto e vocês desapareceram e eu queria chorar, chorar… não, que desespero, não, ansiedade! o que é isso e meu amigo dizia: vamos procurar. Abrimos a porta e corremos corremos na noite densa, maciça e no meio dela uma porta, igual a do quarto. Abri! O que era isso? Você, sem barbas, sem pênis, sentada atrás de uma mesa com um sorriso sereno, lunar e solar um sorriso terreno em sua boca humanonírica. Eu entrei, o mesmo quarto. É que você estava o tempo todo ali, era tudo uma questão de tempo-espaço, você sempre está ali em outro plano, em outra dimensão… quem diria, tão simples, que sozinho, o quê!? Mas difícil, tão difícil de encontrar, fechei a porta já sozinha e você pintava seu rosto com um pincel de cerdas finíssimas, com um toque delicadíssimo e era lento e com grandes manchas que se desenhavam planas. Três potes com tintas verde, azul e vermelha e o homem do seu lado nem me olhava tão absorto que delineava a sua máscara. E então o que era o verde e como eu retiraria dele o amarelo, era isso? Que amarelo, que solar, onde, por onde? Terra vermelha, noite azul, que solar? E o vermelho me saltava tanto aos olhos, por quê? Pedi se podia e você me deu o pincel e eu quebrei e você sorriu e arrumou e me disse como fazer para pintar e então eu pintava seu rosto sutil com cores em sequências e ora círculos ora retas ora curvas e você o tomou da minha mão, limpou seu rosto e me explicou que eu só pintava assim porque assim que eu sentia, que eu estava, eu ainda não havia encontrado o plano, as grandes manchas bonitas, a forma tépida de efervescência, você disse que eu estava no caminho, que eu iria aprender, que eu iria chegar por lá, sem ter medo das águas infindáveis e planas em dias de sol. Ao teu lado, que terror, ao teu lado uma mulher de idade, em um tempo-espaço que não era o nosso porque ela não nos ouvia, ela tinha cabelos ruivos encaracolados e curtos e maquiava-se lentamente, um blush irritante em sua pele branca de frio, de noite e velha, rugosa, e ela falava de negócios, ela havia escrito para o teatro, ela era o amarelo fundido com a noite, esquecido amarelo, ela se escondia por detrás da maquiagem, a sua era tão diferente e eu olhava para as duas e vocês eram tão diferentes, mas eu sentia meu espírito em ti, mas, meu deus!, meu deus! aquela velha tinha os meus olhos.

AELIA LAELIA CRISPIS, pelo viés de Caren Rhoden

carenrhoden@revistaovies.com

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