BISBILHOTAR E PUNIR

A manhã começa gelada. Os passos curtos de Dona Maria atravessam a sala até a sua cozinha, onde um café com leite aquece preguiçoso no fogão. A TV de Dona Maria, de X polegadas, com cores e som de boa definição, comprada em tantas parcelas com o mínimo de juros, já comparece ligada e barulhenta […]

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A manhã começa gelada. Os passos curtos de Dona Maria atravessam a sala até a sua cozinha, onde um café com leite aquece preguiçoso no fogão. A TV de Dona Maria, de X polegadas, com cores e som de boa definição, comprada em tantas parcelas com o mínimo de juros, já comparece ligada e barulhenta na sala da dona de casa. O restante da sala está vazio, acompanhado apenas de umas pequenas e magras cadeiras de madeira velha, uma mesinha com o que seria o café magro de Dona Maria – pão, margarina e queijo. Dona Maria não tem pressa como a manhã tem: na rua os carros correm e se atropelam com rapidez mórbida, as buzinas acompanham o ritmo estridente da pressa e os passos das pessoas nas ruas são tão rápidos que cansam os olhos de Dona Maria. Para ela, o dia começa com um café pequeno, deposto na mesa da sala, de frente para o seu programa matinal. A senhora pequena, que deve medir em torno de um metro e sessenta e três centímetros, senta-se com os olhos vidrados na tela resplandecente de vidro de seu televisor. Um gato marrom escuro vai se aninhar em seu colo, passando despercebido pelos gestos hipnotizados da senhora diante de sua companheira maquinável.

Enquanto Dona Maria besunta seu pão seco com margarina, a apresentadora surge triunfante diante de seus olhos. Tapetes e cortinas caríssimos, um aparato inteiro que seria o sonho de consumo de qualquer dona de casa: estofados fofos e fáceis de limpar; ornamentos de flores e vidro reluzente; uma cozinha brancamente impecável, minada de talheres dispostos para as mais inumeráveis funções; panelas areadas e reluzentes tais como os espelhos que também estão no cenário. Além de todo este banquete aos olhos das atentas em decoração caseira, o cenário ainda traz luzes, brilho e – até mesmo – uma luz natural emanada das janelas que, pelos vidros que a perpassam, mostram uma natureza jardinêsca e ao mesmo tempo jardi-botânica. A apresentadora não tem as mesmas marcas do tempo que tanto marcaram Dona Maria: o rosto daquela mulher que, possivelmente, tem mais idade do que a nossa simples dona de casa, parece puxado aos quatro cantos, ostentando um sorriso nada flácido – porém transparecendo a sensação incomoda de esforço desnecessário ao produzir algum esboço sorridente fingindo naturalidade.

Dona Maria está tão vidrada que nem percebe o gato saltar da janela e ir descansar no parapeito da janela. Seus olhinhos castanho-miúdos acompanham os passos da apresentadora que caminha livremente pelos seus mais de 200 metros quadrados de cenário (mas que botas lindíssimas! olha só essa encharpe… ai que divindade de anel dourado! ) – Dona Maria suspira colérica a inveja que nutre de sua companheira de todas as manhãs.

Assim como Dona Maria, outras centenas de mulheres (e de homens, pode-se dizer também) acompanham os quadros do programa matinal mais visto no país. Além de caçarolas no fogão, ensinando a fazer um porco a pururuca que é uma looouuucura, o programa ainda se divide em atendimento ao telespectador, dicas de como entreter seus filhos, desfiles para também entreter seu marido, mulheres bem resolvidas que aparecem por lá para contar suas histórias de vida entre uma xícara ou outra de café (ou um copo ou outro de suco) em um café da manhã ornamental – tal qual o próprio cenário onde tudo acontece – ou simula acontecer.

Especialmente nesta manhã, em que Dona Maria acordou com uma fortíssima dor nas juntas, a apresentadora está ainda mais séria do que o habitual: seu semblante parece carecer de ainda mais esforço diante dos retoques clínicos. Porém seus olhos incrivelmente pintados demonstram indignação e preocupação minha cara telespectadora. Diante da sala-de-estar mais invejada pelas donas de casa de todo o país, a apresentadora desfilava dúzias de impropérios a um tal jogador de futebol, acusado de assassinar cruel e friamente sua amante. Dona Maria reconhece a história muito bem, a mesma de ontem no Fantástico… mas este canalha ainda não está preso, Deus do céu! onde que esse mundo vai parar, com esta justiça lenta… Mas a apresentadora conhecia bem o drama. Entre seu pronunciamento de repúdio ao assassino (assassino!) os vídeos que passavam na tela intercalavam gravações caseiras da moça brutalmente assassinada em momentos de intimidade e de lazer, gravações de conhecedores do rapaz – o padeiro da esquina, o secretário da escola, o gandula do time em que ele costumava jogar futebol – todos afirmando com incontestável certeza que o rapaz dotava de uma violência insurgente e recalcada, prestes a explodir – o que fatalmente culminou no assassinato (já era visto!) da moça que com ele tinha um relacionamento carnal (a apresentadora prefere o termo amoroso). Isto é visivelmente um absurdo, um atentado contra a mulher – fato inegável. Quem conheceu (e quem não conheceu!) os detalhes sórdidos do crime estaria balançando a cabeça assentando as palavras da apresentadora. Num jogo de câmeras, o cenário inteiro se abre para uma entrevista exclusiva com a mãe da moça. Ao telefone, ela tenta mas não consegue dizer nada. A apresentadora insiste, alegando que é bom que as brasileiras saibam como é estar numa situação como esta… A mãe cede. A conversa dura. Logo após os minutos incessantes de conversa, apresentadora chama a marca do caso (que já tem um logotipo que indicará o assunto). Logo depois, a convidada do dia ao café da manhã no cenário escultural é uma promotora que, entre golinhos de café e beliscadas num mamão com granola, vai alertar as telespectadoras para a importância de um caso como este. Entre as garfadas e as perguntas insistentes da apresentadora, o caso dá seguimento agora com vídeos de imagens em frente a casa do rapaz assassino, em frente a casa da moça assassinada, de entrevistas com o pessoal da rua, de imagens nítidas do bebê que a moça deixou e que a mãe hoje disputa a guarda. Estão todos ali, entrando e adentrando até o último detalhe, torcendo até o menor vestígio – tudo para o conhecimento do telespectador brasileiro. A apresentadora ainda refresca os mais atrasados em memória de outros casos em que ela mesma abriu para a discussão. Em uma pequena retrospectiva, vídeos também reafirmam e recontam a vez em que a apresentadora entrou ao vivo (com exclusividade) ao telefone junto com o sequestrador de uma menina. A apresentadora manteve um diálogo de meia-hora com o sequestrador, explicitando toda a sua fúria diante de uma violência deste tamanho. Ao redor da casa onde a menina estava rendida, um cerco imenso de jornalistas, câmeras e microfones, todos alvoroçados e famintos pelo menor resquício que sobrasse de história real. É fato, acontece, e a apresentadora tem que mostrar

(…)

é tarde da noite quando Dona Maria descansa a cabeça sobre o travesseiro, inclinado preguiçosamente para o lado. Em sua cabeça as imagens do dia ainda estão em cores vivas. Não pode ser, sei que não pode ser – todos os menores gestos voltavam com insistência cruel aos seus pensamentos. Com os olhos marejados de lágrimas, Dona Maria coça a cabeça de seu gato e se pergunta (enquanto parece também dirigir seus questionamentos ao bichano) Me diga Edgar, me diga como vamos sobreviver hein Edgar como Edgar hein hein…

Foi quando um relâmpago assombroso cortou seus pensamentos: É isso, é claro que é isso, por que não? Pensou consigo: anos e mais anos dedicados à esta mulher, todos os favores cedidos, todas as horas extras que não foram cobradas. Por conta de uma doença pequena destas, uma coisinha que come os movimentos da perna, é que vou ficar na rua da amargura? Mas não mesmo. Amanhã é que as devidas satisfações serão cobradas, e com juros!

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Ainda nem a luz deu as caras lá fora quando Dona Maria parte depressa de sua casinha em direção a parada de ônibus mais próxima. Consigo leva apenas embrulhos pequenos e uma sacolinha. Edgar espia manhoso do parapeito da janela. A TV está e fica ligada para Edgar não se sentir sozinho.

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As portas são imensas e o corpinho inteiro de Dona Maria treme ao bater três vezes. Espera ansiosa, com a mão segurando firme dentro da sacola. Quem atende é uma empregada negra, de seus dezenove frescos anos. Seu semblante é de preocupação: Quê que a senhora qué aqui Dona Maria? Olha a hora… Dona Maria é só coragem – me põem pra dentro Denise, tenho assuntos com a patroa.

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Dona Maria está na cozinha da casa dos Albuquerque. Fita os olhos negros de Denise, visivelmente ansiosos. Em seu punho armado, uma pistola tamanho 47. Não vacila, não treme, não oscila o tom de voz. Dona Maria é, a partir de agora, contra o sistema. O sistema que lhe cobra a saúde, o tempo e que nada vê ou ouve de seu dinheiro. A patroa aprece enrolada no roupão, ainda com olheiras e com o cabelo desgrenhado Maria, o  que você quer agora, Denise me disse que… Silêncio tenso. Maria, pelo amor de Deus, vamos conversar. Eu tenho que trabalhar daqui à uma hora e meia, nós precisamos nos acertar…

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O miado de Edgar é para a televisão ligada no programa preferido de Dona Maria. O gato reconhece o semblante nervoso de sua amada dona, em foto imensa diante do cenário que por manhãs inteiras ela mesma invejou brandamente. A apresentadora entra ao vivo, e a cores, vestindo uma manta belíssima e em tons escuros. Seu semblante é mais uma vez de preocupação e medo sinceros. Diante dos olhos de milhares de outras donas de casa, o rosto amável de Dona Maria aparece em tamanho gigante. Ao lado de seu rosto, uma das câmeras foge para um outro rosto de uma repórter novinha em frente a uma bonita mansão no bairro Santa Helenita. Seus cabelos destilam com o vento, e ela está escolhendo, nervosa, as melhores palavras para contar as donas de casa aflitas o que nesta manhã está se passando dentro da mansão dos Albuquerque. A senhora Albuquerque é uma senhora muito fina e elegante, frequentadora assídua em chás de caridade, figura indispensável em qualquer ação beneficente. De acordo com a repórter – que ilustra para a apresentadora e para as telespectadoras o incidente – esta manhã, pelo horário das sete e cinco da manhã, Almira Jandira Genova Albuquerque foi rendida, encarcerada e amordaçada por sua empregada – uma humilde senhora de ciquenta anos, solteira e sem filhos, que ao que tudo indica, manifestou seu rancor com a ex-patroa no momento em que a mesma dispensou seus serviços por conta de uma doença que acometia a empregada há alguns anos. De acordo com conhecidos da mulher (o padeiro, a vizinha da loja de sapatos, a jovem que trabalha na casa do andar de cima) ela manifestava a doença há tempo, tendo piorado nos últimos meses. Parece que a mulher, que atende pelo nome de Dona Maria, recusou-se a aceitar sua doença e os auxílios médicos da patroa, rendendo-a em casa. A apresentadora chama o programa novamente para o estúdio, e desta vez beliscam croassants com mel, uma psicóloga e uma advogada que ao que tudo indica podem explicar o que está acontecendo com Maria. Imagens do cerco de repórteres, cinegrafistas, microfones e carros em frente a mansão invadem a tela ao mesmo momento em que a apresentadora confirma: no próximo bloco, ela mesma falará ao vivo com Maria…

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Maria quase não reconhece a cara de Denise exposta no televisor pequeno que fica em cima da geladeira da cozinha de sua ex-patroa: mas esta próxima não perde uma oportunidade de aparecer!

Calma Maria, reclama a patroa sentada em frente a mesinha da cozinha, bebericando um café com as mãos amarradas. Maria demonstra visível tensão. O apanhado de jornalistas que estão tentando a todo custo entrar na casa já não conseguem ser barrados apenas pelos enormes cães da raça rotwailer pertencentes à Senhora sua ex-patroa. A arma de Maria ainda está apontada na direção da ex-patroa, porém a mesma parece já estar mais calma do que anteriormente. Os comerciais encerram e a chamada do programa preferido de Dona Maria agora estampa o rosto de sua melhor amiga de todas as manhãs. Dona Maria está prestes a soltar o pranto, mas os soluços ficam contidos por uma frieza que nem ela mesma sabia que detinha – será que eu deixei comida suficiente para o Edgar?

A apresentadora está de volta, desta vez no centro do cenário. Em um telão atrás dela, a imagem da jovem repórter em frente ao caos que está a mansão. A apresentadora está convicta. Ela pede, através de um pronunciamento, que a pessoa que se chama Maria fale com ela, fale com o Brasil, diga e demonstre o que está sentido num momento como este…

O telefone toca alarmado. Os olhos da Senhora Albuquerque estão vidrados e ela permanece muda, mesmo sem a mordaça. Dona Maria reluta, mas a cara da apresentadora é de impaciência. No quarto toque do telefone, a pobre senhora segura o aparelho e pronuncia quase que inaudivelmente alô

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A conversa entre Maria e a apresentadora já dura há uns bons minutos. O povo inteiro está em polvorosa lá fora, e até quem não é do bairro compareceu. A câmera está entre a apresentadora no estúdio e a repórter em frente a mansão. Além da jovem repórter, câmeras e microfones dos mais diversos tamanhos expõem sua preocupação dilacerante com o que acontece dentro da mansão. A imagem do rosto enorme de Maria deu lugar à uma pequena imagem sua (onde conseguiram uma foto minha?). Nem ela própria reconhece sua voz tímida na linha do telefone. De longe ela manifesta a mesma segurança e a mesma certeza protetora que a apresentadora parece ter nascido com.

Maria não quer sair. Agora que está aqui, o que vai mudar? Sairá daqui direto para uma prisão por sequestro a mão armada. Sua patroa está ficando mais ansiosa. O ex-patrão parece querer entrar em casa, mas o mar de câmeras e microfones provoca um repuxo indesejado e seu corpo não consegue lutar contra a maré. A apresentadora, que no começo ainda mantinha um tom compreensivo, agora parece provocar em Maria algo conhecido como um notável remorso. Maria não quer mais estar ali, quer sumir, desaparecer por entre o piso frio de mármore da cozinha. Ainda pendurada no telefone, escuta a apresentadora trocar a sua conversa por uma explicação da psicóloga. Enquanto escuta a mulher falar, Maria tem a sensação de que vasculharam seu cérebro, mas que não acharam nada demais lá dentro…

O assunto é trocado por um telefone do telespectador. Do outro lado da linha, uma senhora que se diz alarmada e inconsolada com tamanha falta de caráter – uma mulher que quis o beeem dela, que quis pagar o plaaano dela, quem não quer patrão assim. O povo é assim agora, dá a mão e quer logo o braço…

O rosto de Dona Maria é flácido e levemente descolorido. A patroa permanece em cúmplice silêncio. Os amontoados de vídeos e depoimentos de pessoas que Dona Maria nunca nem trocou mais de seis palavras (com a moça que trabalha no andar de cima de sua casa, nem duas) estampam as horas intermináveis da programação.

Ao decorrer da manhã, assim que o ensopado de peixe com ostra fica semi-pronto, a apresentadora chama novamente para o caso Dona Maria. O Caso Dona Maria agora tem até nome e logotipo – além de dúzias de novos vídeos. Alguém descobriu que Dona Maria atrasou os impostos, que uma vez roubou um chinelo Havaiana na mercearia ao lado, que já teve um caso com o marido da vizinha de bairro (apesar de o marido alegar que seu casamento era um desastre).

Maria vê sua vida ser vasculhada e escancarada em praça pública. Parece-lhe que os antigos julgamentos medievais voltaram com a força do espíritos das inocentes carbonizadas para assombrar toda a geração que se postou em frente à TV. Tudo ao redor de Maria são vozes mal intencionadas. A apresentadora e seu semblante de plástico, a repórter e sua falsa preocupação, a patroa e seu descaso, Denise e seu oportunismo, pessoas desconhecidas e seu oportunismo, os carniceiros que empunham microfones, o seu gato que deve estar sem comida…

(…)

O programa preferido da dona de casa brasileira já tinha acabado há mais de meia hora quando Edgar pulou do parapeito para o centro da sala. Ao mesmo tempo em que o telejornal do almoço mostrava uma festa colonial no interior do Estado, uma chamada urgente para a mansão dos Albuquerque agora era proferida por outra apresentadora loira trajando um terninho vermelho escuro. Seu semblante é de semelhante preocupação ao chamar a repórter (desta vez outra) que está ao vivo em frente à mansão – boa tarde Manuela – boa tarde Regina – as negociações ainda estão sendo feitas entre a polícia e Dona Maria, mas ao que tudo indica os resultados estão longe de serem efetivados…Dona Maria parece hãm não demonstrar maiores, melhores, negociações… o clima ainda é tenso aqui em frente a mansão… corta.

A fala da repórter é interrompida por um tiro estridente que vem do interior da residência luxuosa. Jornalistas adentram o gramado como em um campo armado de guerra, e os cães fogem aos ganidos, não mais imponentes como outrora. O som é um trepido barulho que anuncia e pressupõe o fim. O mar de gente se estende por entre o gramado impecável, e do estúdio da redação do telejornal, alguém emite a ordem mais, vamos mandar mais gente. O que se vê na tela são resquícios barulhentos de um tumulto anunciado. A apresentadora do telejornal tenta controlar a situação de dentro do estúdio. Daqui a pouco, mais informações.

*este conto é inspirado nos filmes A Montanha dos Sete Abutres de Billy Wilder, e O Quarto Poder de Costa-Gavras.

BISBILHOTAR E PUNIR, pelo viés de Nathália Costa

nathaliacosta@revistaovies.com

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