AQUELE SAMBA

“É a era do fim, das últimas palavras ditas antes. Resguarda os anseios corriqueiros sob a jaqueta preta, resolve partir.” Um conto pelo viés de Bibiano Girard.

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Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar…

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver…

[Preciso me encontrar, composição de Candeia]

É a era do fim, das últimas palavras ditas antes. Resguarda os anseios corriqueiros sob a jaqueta preta, resolve partir. Eram em ambos que manteriam a certeza das coisas, do desconhecido, da eternidade que acabou assim, sem contexto. Aproximada era a madrugada de ano-novo quando tu me pediste que fosse. O vazio deixado por ela naquele olho vulgar de quem agora apreciava as costas nuas de uma menina de treze anos. O caminho até sua rua, a bunda bem desenhada e milimetricamente bem dividida entre as costuras da calça da mulher dos jornais, a negra Hilda levantando uma cidra, o velho estranho do braço duro, seus pertences quebrados na casa escura de janelas vedadas.  O cheiro de falta de cheiro. Aquelas janelas ainda de persianas com folha dupla e madeirinhas sobrepostas, a lareira antiga, resquício de um dono que morreu. É incrível como o abandono faz bem, pensava. Era tudo o que queria, uma tarde de janeiro, um calor insuportável e a certeza da calçada toda para si. Saber-se abandonado era sedativo. Não haveria ela, não haveria eles, nem mesmo aquele, ou aquela do sapato vermelho, nem mesmo, nem mesmo. A calçada, o buraco da rua onde os carros batiam seus tanques, as árvores paradas, o sol gemendo no zinco e a rua toda para si. Era hora de viver o prazer do esquecimento. Solidão é nome de dias próximos aos fins.

Desceu os degraus e ouviu você silenciar a música sem pausa que cantarolaram por anos. É a era do fim, das últimas palavras ditas antes.  Lá estava na rua o jogador de futebol que toda noite cruzava pelo edifício quase desabitado assoviando um samba triste. O de sempre. Cantor e melodia. Seguiu sua sombra para ter a companhia inconsciente de alguém até a linha do trem. O homem tinha cabelos mal-cortados, usava uma camisa surrada, calção miserável, meias e chuteiras cheias de barro.  Decadente.

Ele consegue apagar nela qualquer dúvida sobre o futuro e sobre as ranhuras do prédio que cai. Um dia morreriam soterrados sob entulho e corações doloridos, mentes cansadas, de uma convivência penosa. Havia um sopro no ar, algo como uma noite fria em janeiro que parecia querer soltar-se das datas, um pingo na mão, a mesa, os bancos, o bater de panelas da vizinha sebenta. Aquele apartamento como ovelha-negra do bairro, enquanto a constante putrefação do casario não os alcançasse, viveriam com um mínimo sorriso diante todos aqueles que decaíam na vizinhança humilde. Questionamentos eternos de como fugir da opressão imediata. O vento uivava sempre, as persianas batiam. Os vizinhos choramingavam.

E quando acabava a grana tudo estava nos conformes, o contrário é que seria bizarro. Corria mentalmente até minha velha casa, minha velha cheia de panelas, o cemitério do lado de casa, o túmulo de azulejos onde deixamos para trás um amigo que morreu enquanto dividíamos o aluguel num outro bairro, tempos em que ilusão era palavra habitual. Éramos instigados, bebendo qualquer álcool na velha varanda do centro. Ah, como eram bons os ares de verão com cheiro de rua e vadiagem, cabelos cortados, mãos nos bolsos, daqui outra hora volto pra casa com a de sempre, dormimos, no outro dia invento uma desculpa sem nexo pra economizar boca no almoço, também sou afim de ti, aham, bye, bye, beijinho. Cuspe no carpete o gosto de virilha e sente na língua o sabor interno. Eram meus dias antes do teu fim.

Agora não. Merda. Estamos unidos nesse envelhecimento ininterrupto dos casais. Quando chegou, fazia frio, como ontem, e como ontem sentamos nos bancos ao redor da mesa da sala que me restou da antiga casa. Foram duas garrafas necessárias para o primeiro assunto, nos beijamos no corredor que ligava as varandas da frente e de trás. A turma riu, bebeu, tua amiga me beijou para comemorar teu sexo. Eram seis da manhã e fui te levar em casa, uma casinha distorcida de qualquer tipo de coloração, três quilômetros ou cachaça. Comemos aquele sanduíche, apertei tua coxa, tua mordida em meu lábio e eu sumi. Subi minha ladeira sabendo que faltava pouco para subires também. É, tua casa não valia nada, nem as bêbadas que repartiam o aluguel contigo. Uma delas me fazendo propaganda de boa moça sem lembrar das camas onde já havia dado. Eu fui te buscar, arrumamos tua mala em uma hora, as roupas com cheiro de livro velho, teu material de faculdade, tua prateleira, o batom e o que mais? Mais nada, as bêbadas fazendo chantagem te fizeram acreditar que a mesa da cozinha realmente não era tua. Era o início da era do fim, das últimas palavras ditas antes. Quebraste a era vulgar.

Agora o vento leva teus fios de cabelo enquanto descemos a ladeira atrás de vinho e um gemido de algum gato no cio faz você me olhar mansa. A noite era passível às fraquezas mundanas, com ares de quarta-feira de cinza, e sentamos novamente com os cotovelos sobre a mesa frágil da sala enquanto deleitava-me com os riscos de fumaça delineados enquanto fugiam por tua boca, são goles sem olhos nos olhos, um veneno nas têmporas, os corações estão apreensivos, atormentados, sensação desconfortável de não querer ser quem está ali, estancado consolo. Enquanto um fala o outro fuma, bebe, rói as unhas, discretamente. Ela leva consigo um objeto sob a blusa de inverno de gola e mangas largas. Eu estava de volta, ela ainda não. Fica bem vestida assim. Quero e vou comê-la ainda essa noite para burlar o frio. Passa o trem ou um barco no porto, não há como entender com as cantorias macambúzias do velho que mora naquele sítio sob nossas janelas. Ainda moramos na mesma rua que os velhos, só que do outro lado. Sabemos dos perigos de sair à noite, mas o peso noturno pede por mais um garrafão de vinho dos ferroviários. Escurece no morro, descem a ladeira os jogadores de meia-tigela do time bagaceiro que mantém um campinho furreca murado que eles chamam de estádio. O esmorecimento daqueles homens com os calções furados e cara de quem no outro dia vai para ferrovia pedir esmola. O breu os abocanha. A fome também. Parece não haver eternidade a quem desconhece o futuro de minutos, de horas, da mesa da sala, do buraco onde vive, de onde viverá no outro clarão.

Vão-se os homens a nossa frente cantarolando o samba triste, desses mais infelizes que a própria vida, e tu e eu acompanhando labialmente os larárás. Viajo afinando os olhos para acompanhar o brilho negro dos fios de luz quando, lá por algumas vezes, a lâmpada do poste os ilumina. E tu me olha, passa a mão sobre meu peito, esconde a mão em minha jaqueta preta e gelada, eu não percebo, tua mão é teu todo e nada do que pode ser uma mão. Gelada, magra, unhas bem-feitas, dedinhos minguados. Tua mão é teu todo, tua mão me deixou abatido sem saber o motivo. Tua força era estranha, teu abraço hostil.

Não deveríamos ter-nos aceito novamente depois de descer aquela rua no verão de janeiro. O samba que foi sumindo pelo casario, um único jogador sentou-se ao meio-fio a nos analisar. Era melhor que eu tivesse ido a fundo, desistido de voltar, desistido das tuas costas, de tudo. Era nossa noite de retorno, eu deveria ter ido. Mas voltei e te fiz cantarolar aquela canção de sempre. Tu havias esquecido boa parte, mas ao cruzar à nossa porta o jogador macambúzio assoviaste com ele. Foi com o homem dos cabelos mal-cortados subindo nossa escada que parastes, sem graça, a me olhar. Foi só abrires a porta para que eu, enfim, conseguisse me livrar de ti. Era a era do fim, das últimas palavras ditas antes. Deixei que entrasse o homem. Deixei que saísse pela calçada minha fantasia. Meu sapato que caminhava sozinho. A noite de sempre, a fumaça eterna, o silêncio constrangedor. Agora sou eu, alforriado, que desço a ladeira cantando aquele samba triste.

AQUELE SAMBA, pelo viés de Bibiano Girard

bibianogirard@revistaovies.com

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