ERMES, O FUJÃO TEIMOSO

Ermes tentou discutir, mas tomou-se vários outros tapas de quem quer que ouvisse aquilo. Pelo viés de Gianlluca Simi

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Ermes sempre foi muito curioso, o que desagradava seus pais e seus parentes, pois fazia com que Ermes fosse alvo de vários comentários das outras pessoas da aldeia. Eles moravam entre o Rio das Lágrimas Tristes e o Fim do Mundo. Estavam à beira de um penhasco, onde, lá embaixo, passava o rio. Do outro lado, não se sabia o que havia e, portanto, já era lá o fim de tudo.

Um dia, Ermes brincava com seus amigos. Jogavam a pelota para cima, contra o sol, e tentavam pegá-la na queda com precisão. Ermes sempre quis jogar mais alto, mas não era forte nem ágil o suficiente. Mesmo assim, ele se esforçava ao máximo para alcançar o sol. Quando a pelota sumia no brilho do astro, seus amigos corriam a gritar, pois ficavam com medo de que a brincadeira assustasse o sol e o fizesse ir embora, deixando a lua voltar para sempre. A lua era o símbolo do mal para aqueles da aldeia dos Troncos, pois, à noite, ela acordava no rio o Dente de Prata, o grande monstro que engolia os curiosos.

Nessa vez, Ermes sentia-se tão confiante que, quando jogou a pelota, ela foi tão alto que, para quem olhava para cima, tapava completamente o sol. A pelota caiu e quicou, quicou e tombou em direção ao rio. Todos saíram correndo a gritar, mas Ermes ficou, mesmo assustado. Depois que todos seus amigos tinham fugido, ele foi-se à procura da pelota. Foi descendo o penhasco, escorregando até chegar à beira do rio. A pelota estava trancada numa pedra no meio da água e lá ficava, sem ir-se com a correnteza.

Ermes sabia que o Dente de Prata não estava ali àquela hora, então decidiu entrar no rio para ir buscar seu brinquedo. Passo a passo, foi encharcando-se até a altura do pescoço, quando alcançou a pelota e de nada mais lembrou-se.

Quando acordou, já era noite e viu-se, tonto, cercado de pessoas que não eram aquelas que conhecia. Tinham o rosto diferente, roupas diferentes e gestos estranhos e, mesmo que Ermes soubesse que aquela língua não era sua, podia entendê-la. Tentou se desvencilhar das mãos que lhe punham folhas sobre o corpo e lhe ofereciam pratos com tantas outras coisas a comer – não pôde. Por lá ficou e de novo caiu no sono.

Quando novamente acordou, ouvia muito barulho, tambores, gritos. Saiu de onde estava e chegou ao centro daquela aldeia. Estavam todos a dançar, a cantar, em volta de fogueiras e grupos de músicos. Eles o avistaram e gritaram ainda mais, arrastando-o para o meio, em cima de uma pedra que dava para o rio. Ermes ficou com medo, pois já podia ver lá embaixo, na água, o Dente de Prata. Pensou que seria entregue ao Dente. Ao contrário, todas aquelas pessoas se abaixaram em reverência. Um gurizito se aproximou de Ermes e lhe disse:

– Tu és um presente da Mãe d’Água, não és?

– Mãe d’Água, cos’é?

– A Mãe d’Água, aquela no rio, que só aparece à noite. Ela nos protege.

– Não, aquele é o Dente de Prata, ele mata quem perto dele chega.

– Que mentira! Ela nos protege. Não sei do que falas.

– Com’é?

Ficou Ermes sem entender, mas ainda curioso. O povo da aldeia ficava mais feliz a cada dia que Ermes por lá ficava. Levaram-no a cultos, a festas, a aulas. Ensinaram-lhe a língua e deram-lhe livros, de onde aprendeu tudo sobre a Mãe d’Água.

Mas um dia Ermes quedou-se em saudade e agarrou-se de pronto às patas de um condor que por lá sobrevoava. Soltou-se quando reconheceu o chão que via. Juntou sua maleta, com todos seus livros, e pôs-se ao caminho para achar sua família e seus amigos. Quando chegou a sua aldeia, seus amigos o reconheceram e o levaram de volta à casa. Ermes contou-lhe o que se passou e, já no início, levou um tapa da mãe por ter entrado no rio. Ermes mostrou a todos os livros e tentou lhes ensinar um pouco da língua e das coisas que aprendeu com os outros. Os Troncos não quiseram saber. Não havia tal coisa como Mãe d’Água; quem morava no rio era o Dente de Prata e ele era mortífero. Ermes tentou discutir, mas tomou-se vários outros tapas de quem quer que ouvisse aquilo.

Ermes ficou bravo e começou a esculpir nas paredes da aldeia as suas histórias. Pois foi-se que, pela mesma época, houve um eclipse total do sol e a noite reinou por três dias. O chefe dos Troncos, achando que Ermes tinha espantado o sol com toda aquele conversa de Mãe d’Água e palavras incompreensíveis, sentenciou-lhe à morte. Ermes foi posto numa cruz e esta cravada à beira do rio para que o sol visse que os Troncos estavam arrependidos e pusesse o Dente de Prata para dormir de novo.

Do outro lado do rio, a aldeia dos outros ainda comemorava a vinda daquele presente da Mãe d’Água e para ele ergueu um obelisco, à beira do rio também, para que a Mãe d’Água visse quão gratos eles estavam.

Eis que cada aldeia viu o monumento do outro lado: cruz e obelisco. Os Troncos viram aquele obelisco como uma afronta e os outros viram que seu presente havia sido morto na cruz. Sem tentar conversarem, pois não se conheciam nem se entendiam, puseram-se em guerra e mataram-se a todos.

ERMES, O FUJÃO TEIMOSO, pelo viés de Gianlluca Simi

gianllucasimi@revistaovies.com

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