VELÓRIO DE MEIO CORPO

Para Carolina Retornava de seu impreciso velório ao ser informado de sua visita. Posso dizer-lhes, explicar-lhes, que, na verdade, fora um semivelório. Não que tivessem atenuado o tempo de velação do defunto por falta de carpideiras. Contudo, dentro do invólucro final ornamentado pelo próprio finado com crisântemos coloridos, jazia apenas metade do compreendido. A cada […]

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Para Carolina

Retornava de seu impreciso velório ao ser informado de sua visita. Posso dizer-lhes, explicar-lhes, que, na verdade, fora um semivelório. Não que tivessem atenuado o tempo de velação do defunto por falta de carpideiras. Contudo, dentro do invólucro final ornamentado pelo próprio finado com crisântemos coloridos, jazia apenas metade do compreendido. A cada coroa despachada pelas floriculturas, ele as recebia, entre sorrisos amarelos e olhares amortecidos, logo propondo espaços singulares da capelinha para cada uma delas. Assim, de uma em uma, até adornar o espelho do lavabo com um laço dividindo a imagem de quem se penteava – eterno em nossos corações. Suavizado, ou iludido, era mestre de cerimônia do adeus derradeiro ao seu lado esquerdo.

Não. Não quis o homem matar-se por inteiro. Fora proposital. Desfez-se da parte desprezada antes que ela o aniquilasse por completo. Há tempos vinha remando contra a correnteza para não afundar, mas a parafina apagou o fogo da própria vela. Aos poucos foi minguando, minguando, até murchar delgaçado de olheiras tão assombrosas que o deixavam macambúzio, ostentando rosto de retrato de lápide. Não se entendia o porquê ao vê-lo anoitecer sentado atrás do balcão nos domingos de inverno sem clientes. Nem espíritos perambulavam pela solidão daquela ruazinha no Centro. O sombrio, o calado, a noite entorpecida, a moça a qual percebera que o observava pela janela, o gato miado preto do asfalto surgido com a luz do poste. O vento e o cliente que não chegava. Há meses. O que rendera àquele homem tamanha decepção no mundo para desvanecer-se tão espontaneamente? Sei, que na categoria de vizinho a qual eu estava encaixotado no convite do velório, tive a oportunidade de ouvi-lo falar por duas horas numa sequência de palavras ingênuas do vocabulário simples de um semi-homem desnorteado. Em sã consciência é afanoso enterrar-se sem parecer meio besta, apostando não demonstrar aos presentes o declínio, e o olhar vago dos vivos frente aos recém mortos denuncia toda covardia e ridiculariza nossa força mentirosa. Assim estava meu agora semi-vizinho. Além de assustador vê-lo daquela maneira, partido sem sangrar, fora repugnante cumprimentá-lo e dar-lhe meus pêsames. E quantos foram os que não sabiam o que falar para alguém que enterrava naquela tarde amena de sol anêmico o lado que escolhera matar primeiro? O lado esquerdo bem vestido, com meia boca arcada quase como um semisorriso encantado e repousado, a mão sobre o peito e centenas de flores preenchendo o restante. Não há caixões tão pequenos, informaram. Chamaram os amigos mais próximos para após tampado o féretro, peregrinar alguns metros levando o fim de uma vida que partiu da felicidade para o domingo à noite sozinho no balcão. Não imaginava eu, em meu silêncio sepulcral de visitante por educação que, para ele, minha pessoa fazia parte deste grupo. Decerto das duas ou três vezes que lhe perguntei a saúde e num calado movimento de rosto mostrava-me um breve sorriso de lábios cerrados e olhos cabisbaixos. Essa era nossa amizade. Três perguntas e três balançares de cabeça. Segurei com força a alça do meio.

Não que lhe fossem sepultar as pernas. Era de um braço que estávamos falando, de uma perna, do lado esquerdo da testa, a narina canhota, o olho estatelado, o lado mais vivo dos vivos. Um lado de homem. A parte que o fazia sofrer, a taquicardia estaria controlada, os batimentos acelerados, a dor, o aperto, a falência sonolenta de dias seguidos na cama, o balcão amarelo sem atendente, a prateleira sempre cheia por duas carteiras de cigarro nunca vendidas, as mariolas empilhadas desde muito, o vão da alma, o frio do peito, o pulmão destruído, os tarjas-pretas agora inúteis. Estorvos resolvidos. Não havia música, nem televisão, nem vista. Uma portinha no centro da cidade com iluminação amarelada, mesas brancas de plástico, uma motocicleta estacionada sob a escada da moradia de cima, uma grade, ninguém. Era meu vizinho, um bom vizinho, posso dizer, já que nada além dos balançares de cabeça me causara.  Voltaríamos para nossa rua e a semana recomeçaria. Era hora de dormir e tentar acordar melhor amanhã, meu caro. Impossível. Ela está lá, esperando-me. Talvez amanhã enterremos o resto. Obrigado pela carona e por ter permanecido por tanto tempo. São poucos os grandes amigos.

São raros, é fato, e incógnitos. Estacionei e vi-lo entrar silencioso, aparentemente pusilânime frente àquela silhueta que o aguardava. Fechou o portão da calçada, abanou-me com a mão restante e deu-me as costas. Permaneci estático na condição que me encontro de ser velho e descobrir um novo amigo, um rapaz necessitado de alguém. Ela, quem seria aquela que o esperava. Permaneceram longe um do outro por minutos, até a persiana ser cerrada. Frio.

Permaneci, velho que sou, de sombrinha em punho contra a garoa, vidrado naquela grade e na janela agora cerrada. Meus cabelos brancos, minha barba mal feita, minhas camisas bem abotoadas de listras, meu apartamento, minha luz de janelas vizinhas, minha dor também de ser só. E tão só, só de ser só, que nem um nó no peito amarro. Não choro. Não morro. Não paro para pensar. Não olho televisão, não leio os jornais. Durmo aos domingos. E por que então a rara felicidade nunca me questionou nas noites de domingo ao ficar vendo aquele pobre moço sentado atrás do balcão na espera do cliente que nunca vinha? Ah, amargura, pois me indago depressa o que é que se sente em ser tão abandonado que não me desvendaste a coragem do moço que a juventude ainda balança no colo? Por que não foi de mim que arrancaram a cobiça de existir por completo e acometeram um menino a ser tão frágil, tão domesticado, esfarrapado de não aspirar bater mais o coração que só o extinguia?

Um dia fui moço. Dos bonitos. Um dia fui embora de casa. Um dia descobri a vida. N’outro, descobri a noite. Noites tão quentes de mulheres tão fartas que de minha alma o diabo a tempos descansou. Fui sendo aos poucos o nada. Percebendo nos goles a miséria. Acordando de porre com fome de vida e com a preguiça da morte. A morte, sim a morte, ela é a patroa da preguiça. Se nunca amei, se nunca de fato abracei com vontade, beijei por impulso ou chorei de saudade, se tudo na minha vida foi o “se”, a culpa é dela. Não foi vida o que vivi. Não tenho o que contar, sou ameno. Ninguém virá, eles não virão, estão morrendo por aí, velhos, sem avisar, num dia sobre, no outro sob a terra. Que é a vida senão os grandes baques? Precisamos de choques, de lanternas, de luzes, de mãos. Nunca fui nada, nunca fui homem honrado por feito algum. Não tenho planos e nunca os tive. Não tenho agora sequer alguém sentado na escuridão da enorme sala, no silêncio do quarto, ou me esperando após meu próprio semivelório. Corredor. Se a vida fosse aposento, a minha se chamaria corredor. Paredes vazias, sem móveis, sem cheiro. Corredor. Durmo de pensar. Durmo toda noite e nunca perguntei por quê.

Sou eu o velho da rua, sou eu na lista do céu que deveria ter embolsado o primeiro bilhete, sou eu, eu, eu, eu tenho meus direitos como ancião. Eu tenho lugar privilegiado nas filas, nos bancos, nos ônibus, nos restaurantes, nos bares, nos porres. Eu. O velho. E não o moço. Maltrataram a parte apenada de um rapaz que sem idade para ser autoridade veio pedir-lhe perdão. A morte lhe fora fula, baixa, de tudo escuro ter permitido o ensaio pela metade de um homem que ainda pode amar com a ilusão dos jovens. São jovens, são jovens a caminhar. Todos mortos, sem saber. Rancorosos. Mentirosos. Cansados. Vadios. Enjoados. Enojados. Fatigados. Destruídos. Enganados. Comprados. Debilitados. Entorpecidos. Comandados.

                Nunca fui jovem, nunca imaginei ser velho. Sempre andei vadio sem pensamentos.

Caídos. São jovens, são jovens a caminhar. A noite escura, o coração parado, os olhos lacrimejados. Estão muitos às janelas, aos saltos, às pontes, às cordas, aos trilhos dos bondes. São jovens, meu Deus, são jovens. E eu aqui, velho, sem nenhuma lágrima para sequer chorar.

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