CRÔNICA TUCUMANA

Sobre andar e observar Uma cidade densa. Ar seco e névoa. Em agosto costuma ser assim. Quase sem chuva, a poeira sobe pelo ar e depois vai se acomodando nas ruas. Os nativos se levantam cedo e lavam as calçadas.  Quando os mais atrasados acordam, pensam a água do chão como chuva – a querem […]

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Sobre andar e observar

Uma cidade densa. Ar seco e névoa. Em agosto costuma ser assim. Quase sem chuva, a poeira sobe pelo ar e depois vai se acomodando nas ruas. Os nativos se levantam cedo e lavam as calçadas.  Quando os mais atrasados acordam, pensam a água do chão como chuva – a querem como chuva.  O sol nasce tarde, beirando às 8h. Olhando a oeste, quando o tempo está mais úmido e o ar menos poluído, vemos as montanhas verdes dos vales. Estes cercam a capital da Província de Tucumán, na Argentina. San Miguel de Tucumán: aqui se assinou a independência argentina. Aqui há uma Argentina um tanto quanto esquecida.

A cidade é populosa, mas nem tão grande. Os mais de 500 mil habitantes às vezes parecem estar concentrados em meio ao centro. Depois da siesta, o período de descanso que vai das 13h às 17h, as ruas centrais fervilham de gente e veículos. O trânsito se torna caótico. É comum ver motocicletas andando pela calçada na busca de uma via para atravessar o congestionamento. Com uma lei de trânsito ainda amena para nós, brasileiros, é fácil notar a ausência de capacetes e “superpopulação” em cima das motos.

Fora do centro, ruazinhas pequenas e mais pobres se estreitam. Onde não há ruas, como nos arredores da entrada de San Miguel de Tucumán, uma cena parecida com as margens das médias e grandes cidades brasileiras: à beira de pequenos morros e valetas, casinhas precárias de madeira.  Não é difícil perceber o rastro de uma colonização que sufocou as culturas sul-andina e indígena. Também não é complicado, com um pouco de leitura e observação, notar que os sucessivos governos, depois daquele período, pecam na inserção desses povos no modo de vida que, bom ou mau, a sociedade de hoje tem. Bem, esse sistema em que vivemos não permite a igualdade pregada. É um ponto cruel: para a manutenção da riqueza de alguns, é necessário a manutenção da miséria de tantos.

E, falando em governos, ao redor da Casa do Governo da Província de Tucumán se concentram diariamente atos de protesto e manifestações direcionadas ao governador de Tucumán, Jose Alperovich. Uma delas está ali na Praça da Independência, logo na frente da Casa, com cartazes, bonecos e barracas. É a manifestação do Movimiento de Trabajadores Autoconvocados. Servidores públicos de saúde, na praça, ostentam nos cartazes frases de protesto pelas más condições de trabalho e pela precarização do sistema público de saúde. Fazem plantão para recolher assinaturas em um caderno de abaixo-assinado. Os servidores estão em greve total há algumas semanas, mas os conflitos com o governo vêm de anos.

Outras manifestações, como a dos aposentados tucumanos e a das Madres del Pañuelo Negro, hora ou outra caminham nos arredores da praça reivindicando suas questões. A primeira, recentemente protestou contra a dita retirada do fundo dos aposentados para resolução de dívidas não ligadas a eles. A segunda, na semana passada, também caminhou em frente à Casa do Governo para se manifestar. O motivo desencadeador foi o  falecimento do filho de uma das Madres. A causa: dependência química. As mães desse movimento reivindicam mais atenção do poder público na questão da prevenção e do tratamento de jovens envolvidos com drogas.

As intensas manifestações causam a sensação de estar entre um povo mais politizado e engajado nas problemáticas públicas. Entretanto, moradores daqui dizem que poderiam ser mais envolvidos. Um tucumano reflete sobre uma situação muito semelhante a que acontece no Brasil:

Estamos em casa, assistimos algum ato e pensamos: ‘Ah, que horror!’, mas não saímos para nos juntar a esse pessoal.


A imprensa local lembra a das cidades provincianas brasileiras. O principal jornal municipal, La Gaceta, é controlado por uma família tradicional e conservadora tucumana. Banqueiros de jornal e livreiros dizem que a imprensa ainda é muito conservadora na Argentina. Manfredo, dono da livraria situada no prédio de Filosofia e Letras da Universidad Nacional de Tucumán, se queixa sobre a falta de memória do povo argentino.

Confiam em jornalistas que hoje se dizem socialistas, mas que antes faziam parte ou apoiavam o governo militar. A imprensa alternativa não têm espaço, somente em meios pequenos, como a internet, e em periódicos com pouca tiragem. E na TV, o que se pode ver mais ou menos é o canal 7, o canal estatal. Mas mesmo assim, é muito propagandista.


Se é revoltante enxergar as consequências de uma dominação e as posteriores falhas em reestruturação, é na mesma intensidade fascinante enxergar a riqueza cultural desse povo. Com traços gauchos e andinos, as tradições gritam a sobrevivência de uma identidade. Esta, agora fragmentada, construída e reconstruída numa mescla de raiz e adaptação. Adaptar-se para sobreviver, ainda que custe o abandono de alguns costumes, tem sido a solução para grande parte dos descendentes de etnias locais. Pessoas com traços ainda fortes andinos ou indígenas – olhos pretos e puxados, pele queimada, cabelo liso e escuro – comumente são vistas em barraquinhas de venda de frutas, de filmes  piratas, de amendoim e pipoca.

Peli peli peli pelíículas!! (o vendedor de filmes grita em uma esquina)

Banana banana, manzana, mandarina e frutillaaaa! (em outra esquina responde o fruteiro)

Algumas engraxam os pés mais elegantes, outras pedem esmola. Mas também vemos esses mesmos traços vestindo ternos e roupas elegantes, caminhando pelo centro, apressados correndo para seus trabalhos.

Algumas etnias, entretanto, até hoje reivindicam a volta às terras tiradas. É o caso do povo ameríndio Quilme. Expulsos por espanhóis ainda no século XVIII, os Quilmes foram obrigados a marchar até uma terra nas imediações de Buenos Aires. No caminho, grande parte deles não sobreviveu. Afinal, são mais de 1000 quilômetros de distância até a capital argentina. Hoje, o antigo “lar” quilme recebe o nome de Ruínas dos Quilmes. As ruínas ficam perto de  San Miguel de Tucumán (cerca de 200 quilômetros da capital tucumana). Alguns descendentes ainda buscam o reconhecimento de poder retornar à cidade ancestral.

Falar em vozes caladas e em San Miguel de Tucumán sem falar em Mercedes Sosa é como deixar de lado uma parte do coração tucumano. Mercedes Sosa é natural daqui. Cantora inserida no Movimento Novo Cancionero, Mercedes, em suas letras, gritou por um povo cansado da exclusão e da repressão cultural e política. Como disse Bibiano Girard, em matéria veiculada na revista o Viés, A maioria silenciosa fala pelos lábios finos de um rosto cheio de serenidade.

Mercedes Sosa, a dona desse rosto sereno, faleceu em outubro do ano passado. Hoje, é lembrada diariamente pelo povo de Tucumán. Em alguns dias da semana, o pôr do sol vem acompanhado de uma canção de Mercedes Sosa na Praça da Independência. Em um domingo, acabar o dia com a voz  de la Negra, como era chamada, é como regressar a um tempo atrás, sentir um espírito de luta, tradição e orgulho.  E depois disso, mergulhar em melancolia notando a ausência, em grande parte da socidade, dos ideais de integração e igualdade  pelos quais Mercedes lutou. Em homenagem a ela, há também uma estátua sentada no banco em frente à Casa de Turismo.

Acabar um dia ouvindo a voz de Mercedes, sentado na Praça da Independência,  olhando o pôr de sol tucumano. Tentar entender um pouco mais dessa parte da América Latina, que carrega muito das outras partes e que dá as outras partes muito dela. Em meio a costumes tão diferentes e tão iguais, sai de dentro um grito misturado de angústia e alegria, tranquilidade e inquietação. Assim como no Brasil e em outros países americanos, há um povo que sofre em cada esquina e que canta a vida na próxima.

CRÔNICA TUCUMANA, pelo viés de Liana Coll

lianacoll@revistaovies.com

Nota da redatora: As próximas matérias escritas da Argentina seguirão a linha de temas mais específicos e serão mais aprofundadas. Na sequência: Feira de Simoca (uma feira que acontece perto de San Miguel de Tucumán há mais de 300 anos) e Ruínas dos Quilmes (local onde viveu a etnia quilme, expulsa pelos espanhois há séculos).

Matérias relacionadas: AS (MAIS QUE ) RUÍNAS DE QUILMES, SIMOCA: TRÊS SÉCULOS E AINDA BEM VIVA, DIÁRIO DE UMA PASSAGEM parte I e parte II 

Seções de fotografias relacionadas: QUEBRADA DE LAS CONCHAS, LUGARES E PESSOAS, POR UMA LENTE, UM POUCO DA BOLÍVIA E DO PERU

Para ler mais crônicas acesse nosso Acervo.

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  • Lorena

    Ficamos aguardando ansiosos as próximas matérias.escritas por tão perceptiva e sensível escritora!

  • marcus coll

    Para conhecer culturas diferentes de outros países não é preciso viajar,
    basta ler uma boa crônica.

  • Joao Paulo Pennacchi

    Perfeito. Aguardo as próximas!