DA CHUTEIRA AO SALTO ALTO

Dos campinhos lamacentos aos extensos gramados europeus, a vida de um jogador de futebol passa do seu mundo interno aos olhares de milhares de torcedores nacionais em questão de pouco tempo. O esporte que é, apesar de tudo, um ícone nacional, produz conjuntamente estrelas que algumas vezes não medem as conseqüências de seu próprio brilho. […]

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Dos campinhos lamacentos aos extensos gramados europeus, a vida de um jogador de futebol passa do seu mundo interno aos olhares de milhares de torcedores nacionais em questão de pouco tempo. O esporte que é, apesar de tudo, um ícone nacional, produz conjuntamente estrelas que algumas vezes não medem as conseqüências de seu próprio brilho.

O mercado da bola é considerado por alguns como uma amostra intensiva de disparidade e exorbitância – os pés que corriam e driblavam descalços, antes mesmo de completarem vinte e poucos anos, já desfilam com chuteiras patrocinadas pelas empresas com maior potencial de lucro e movimentação de capital. Quem pensa que é simples – entrar, jogar e ganhar – está bastante enganado. O futebol hoje é mercado, é lucro, é ícone. Passa da tradição para o moderno, imprime hábitos e mobiliza milhares. Não seria clichê argumentar que a paixão nacional exporta os meninos daqui, e os jogadores que vivenciam este momento não estão em suas plenas condições de suportar a mudança. Como qualquer ser humano que mergulhe intensamente em uma vida que até pouco tempo atrás nem conhecia, as percepções e a própria sensibilidade do que se passa ficam desequilibrados. A quem atribuímos a culpa pelos erros, pelos transtornos, pelos problemas?

Conseguiríamos dizer com plena certeza que o problema está na cabeça dos que são fracos, dos que não sustentam a própria fama? Ou atribuímos o problema aos que movimentam todo o mercado – sendo nós, torcedores, sendo eles, jogadores, sendo outros, as empresas e o comércio futebolístico?

O mais novo fenômeno do Santos (que aos olhares otimistas lembra muito o nosso rei do futebol), o jovem jogador Neymar, envolveu-se com mais um escândalo esta semana. Ao ser impedido de cobrar um pênalti no jogo contra o Atlético Goianiense, Neymar desembestou uma demonstração de pura imaturidade e despreparo. Reclamou com o técnico, com os colegas e com o mundo. Polemizou a discussão futebolística do outro dia. Mobilizou comentários do técnico da seleção Mano Menezes, além do próprio técnico do Santos Dorival Júnior e Edu Dracena. Alguns torceram bem o bico, pois nem de perto passa de ser a primeira vez. Outros argumentam que era visto. Um jovem com tão pouca idade e tanto talento implica situações extremas – seja de brilho intenso ou de rebeldia sem causa.

Neymar desculpou-se após o incidente. Com uma visível cara de choro, aos que o assistiram, um sincero perdão.

Jogadores de futebol aqui são celebridades. Não são apenas esportistas, são ícones. Figuras que carregam muito mais do que contra-cheques e carrões importados. Aliás, esta não é bem a realidade de todos eles. Acontece que estamos aí, todos presenciando diariamente as inconseqüências de um poder que não lhes cabe. O dinheiro é amigo e inimigo número de um rapaz de origem humilde e de pouca fibra moral. Não que tenhamos que condenar nem a Neymar, e nem a qualquer um, pelos seus atos. A condenação não nos cabe, mas a postura deles nos atinge. Em um país em que nossos ícones se perdem em farras, em desperdícios e em contradições a sensação que nos perpassa é de estarmos alimentando uma necessidade insaciável de atenção.

É falho argumentar que o dinheiro corrompe. E tão pouco é vago querer falar de caráter. Porém, a linha que separa o sujeito do profissional é bastante tênue, ainda mais quando tratamos de celebridades (como é o caso). Aquilo que um jogador de futebol faz fora de campo lhe diz unicamente respeito. Seu comportamento não é assunto da diretoria nem da comissão técnica do clube até que isso interfira em seu desempenho no campo ou na imagem do time. Na contramão disso tudo, recebemos aos tonéis as informações de jogadores que se envolvem com o crime organizado, que estupram, que dirigem alcoolizados, que gastam milhares em festas, que faltam aos treinos e que estão acima do peso. Todo este excesso de informação acaba transtornando a imagem que criamos de nossos esportistas. Em algum momento, o que eles fazem da sua vida pessoal nos diz respeito. Parece que prestam contas, que a sociedade está ali, os cobrando diariamente. A mídia então, leva à exaustão a discussão – ainda mais pelo conteúdo estar diretamente envolvido com personalidade de reconhecimento nacional. A imagem do futebol está hoje manchada por brutalidades como as do caso Bruno; por prepotências e despreparo como é o caso dos rapazes do Santos na webcam (que comparam a alimentação do próprio cachorro com o dinheiro mensal de um cidadão), por incidentes como os de Neymar.

Porém, está saturada de jogadas com o peso de Ronaldo, dos humores do ex-técnico Dunga, de casos conjugais de Adriano. É importante pensar criticamente que o filtro para os assuntos que dizem respeito ao futebol não é exatamente criterioso. Vida pessoal e vida pública confundem-se com a fama e com o dinheiro. O erro está antes na fama do que apenas no talento em excesso. Nem sempre é fácil lidar com a competência. Incidentes como esses não são exclusividade dos gramados e nem de nosso país. Sabemos de casos em outros esportes, como o próprio basquete nos Estados Unidos, que dispensa tempo e dinheiro em meninos recém ingressos em universidades norteamericanas. Meninos que vêem ainda mais dinheiro do que os jogadores de futebol do nosso país, e que também escapam ao controle de seus técnicos, misturarando sua vida privada com seu desempenho em quadra.

E alguém se lembra dos bons exemplos? Sócrates – além de figurão do Corinthias, também ativista político fora dos gramados. Zico – a cara do Flamengo, sem nenhum escândalo na ficha. Raí, irmão de Sócrates, jogador em São Paulo, mais tarde Seleção, sempre discreto. Marcos, goleiro do Palmeiras (São Marcos) há quase 18 anos jogando no time, e exemplo para os pequenos torcedores do Verdão.  Mantendo a linha dos goleiros, por que não Rogério Ceni? Também há anos no São Paulo, mantendo até mesmo a imagem de ‘chato’ por ser tão correto. E na Seleção, quem sabe o Kaká? Apesar de ter uma realidade diferente da  maioria dos jogadores, é dele o mérito pela sua postura.

É hipocrisia exigir a compostura apenas de um jogador de futebol. Antes dos profissionais, são seres humanos sujeitos ao erro e aos excessos – com o agravante de ter os seus próprios erros sob a mira dos holofotes. Mas, enquanto pessoas públicas, devem respeito. Respeito aos torcedores que vestem a camisa de seu time, respeito aos milhares de meninos que nascem em nosso Brasil e que sonham em se tornar um jogador de futebol reconhecido (e que diversas vezes já possuem o talento para tanto), respeito a imagem do clube em que trabalham diante da sociedade civil e respeito, porque não dizer, ao dinheiro investido massivamente neles. O maior problema de uma questão desta proporção talvez seja a falta de critérios que dispensamos à ela. Ao mesmo tempo em que cobramos em demasia e que estamos prontos para o menor escorregão, também somos coniventes e compreensivos com absurdos. Cobremos de um jogador de futebol a mesma postura que cobramos de um político, talvez? Cobremos de um jogador de futebol a mesma postura que cobramos de nós mesmos – dos civis como nós. E em contrapartida, por favor, aqueles que fazem do esporte a alegria nacional, que mantenham as alegrias e diminuam nosso desgosto.

DA CHUTEIRA AO SALTO ALTO, pelo viés de Nathália Costa

nathaliacosta@revistaovies.com

Para ler mais crônicas acesse nosso Acervo.

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    Muito bom! excelente conteúdo! Continuação de bom trabalho!